Renan Santos fala sobre suas propostas na Globo: o que disse o candidato à Presidência na entrevista à emissora

Renan Santos na bancada da Globo

Crédito, Globo/ Manoella Mello

    • Author, Mariana Schreiber
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília e em São Paulo
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O candidato à Presidência da República pelo Missão, Renan Santos, defendeu, em entrevista à TV Globo nesta quarta-feira (26/8), que o Brasil inicie investimentos no desenvolvimento de uma bomba atômica para que o país se torne "uma das cinco maiores nações do mundo nos próximos 30 anos".

Ele também propôs o endurecimento de leis e mais orçamento para ações de combate a facções criminosas, como gastos de R$ 6 bilhões na construção de novos presídios e R$ 5 bilhões ao ano com operações contra o crime organizado.

Santos também voltou a defender ações adotadas pelo governo linha-dura de Nayib Bukele, em El Salvador, na área de segurança pública, minimizando as denúncias de abusos e medidas de exceção feitas por organizações internacionais.

"Muitos elementos que foram adotados em El Salvador, de maneira muito similar, vão ser adotados por mim", disse.

"Eu vou dar um exemplo: a ideia de enfrentamento usando um regime especial, aqui o Estado de Defesa, em áreas dominadas pelo crime, eu vou adotar. Vai ter um regime de exceção em favelas para eu retomar a favela", continuou.

Santos também prometeu cortar R$ 1,1 trilhão em gastos para interromper a atual trajetória de crescimento do endividamento público e liberar recursos para ampliar investimentos em infraestrutura.

Entre as medidas que ele defendeu está uma nova reforma da Previdência, para cortar gastos com aposentadorias, e alterar as regras atuais que destinam, obrigatoriamente, parte do Orçamento da União para despesas com saúde e educação.

Santos foi o terceiro dos candidatos presidenciais sabatinados pela TV Globo, após Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), em ordem definida por sorteio. A entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está prevista para quinta-feira (27/8). Flávio Bolsonaro está agendado para sexta-feira (28/8), enquanto Augusto Cury (Avante) será entrevistado no sábado (30/8).

Bomba atômica

Santos defendeu o desenvolvimento de armas nucleares como algo fundamental para garantir a soberania do Brasil. Na sua visão, o país só será respeitado globalmente se possuir uma bomba atômica.

Questionado pela TV Globo sobre o risco de isso tensionar a relação do Brasil com países vizinhos e o fato de os Estados Unidos estarem em guerra contra o Irã por não aceitar seu projeto nuclear, o candidato do Missão insistiu na proposta.

"Se o Brasil quiser ser uma das cinco maiores nações do mundo, que se presta a sentar na mesa com Estados Unidos, Índia, Rússia e China, ele vai precisar ter a soberania sobre seu próprio território, soberania militar e vai ter que discutir ter bombas atômicas".

"Eu não acho que o Brasil dispõe de condições, nos próximos dez anos, de ter armas nucleares, nem tem condição de fazer ainda a pesquisa e desenvolver isso. Mas o Brasil tem que iniciar um processo de recuperação de soberania, de pesquisa, para ele poder sentar à mesa e discutir com o mundo", insistiu.

O candidato também foi questionado sobre os impedimentos legais que existem hoje para que o Brasil desenvolva uma bomba atômica, já que a Constituição brasileira só permite o desenvolvimento de energia nuclear para fins pacíficos, mas não explicou como conseguiria aprovar no Congresso essa alteração.

Quanto a compromissos internacionais, defendeu que o Brasil deixe o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, seguindo o exemplo da Coreia do Norte.

"Pelo menos a Coreia do Norte, por mais que seja um regime que eu considero opressivo e que eu não o respeite, pelo menos ele é respeitado internacionalmente de maneira que a Venezuela não foi. Ter armas nucleares é uma forma de defender a sua própria soberania", reforçou.

Renan Santos, César Tralli e Renata Vasconcellos na bancada da TV Globo

Crédito, Globo/ Manoella Mello

Feminicídio e violência contra crianças

Renan Santos respondeu sobre a falta de propostas para combater o feminicídio e a violência contra as crianças.

Segundo ele, sua candidatura não tem propostas contra crimes específicos, inclusive homicídios e latrocínios, porque seu foco é o combate ao crime organizado.

"A nossa política de segurança, que está escrito no nosso livro de propostas, ela é focada, acima de tudo, no combate ao crime organizado".

"A guerra ao crime organizado, ela pressupõe uma ação do governo federal, alteração nas leis penais, alteração das leis de execução penal, que vão pegar, de maneira extensiva, também crimes que acontecem contra mulheres, crianças".

Segundo ele, medidas específicas para combater a violência contra esses grupos é função de Estados e municípios. "Nós respeitamos o princípio federativo", afirmou.

O candidato também foi questionado sobre o fato de seu partido ter um índice muito elevado de filiados homens (92%) e sobre declarações machistas de lideranças do Missão que podem estar afastando as mulheres, como um áudio do ex-deputado estadual Arthur do Val.

Nesse áudio, de 2022, quando Arthur do Val esteve na Ucrânia, no início da guerra com a Rússia, ele dizia que as ucranianas "são fáceis porque são pobres". Após isso, do Val teve seu mandato cassado.

Santos disse não concordar com o áudio, mas destacou que se tratava de uma gravação privada.

"Foi um áudio privado, no ambiente privado, e ele perdeu o mandato dele. Ele sendo um deputado estadual muito combativo na Alesp, não [perdeu] por conta do áudio em si, ele perdeu o mandato porque ele era basicamente de oposição ao grupo político dominante na Assembleia Legislativa de São Paulo. Dito isso, não foi um bom áudio, de maneira alguma".

Gastos em saúde e educação

Como resposta ao aumento do endividamento público, o candidato defendeu acabar com os pisos da Educação e Saúde, ou seja, o patamar mínimo de gastos previstos hoje na Constituição.

"Desvinculações do piso da educação e da saúde, até porque hoje eles estão irracionais e estão quebrando pequenos municípios. Tem municípios do interior do Rio Grande do Sul que a população envelheceu, não está nascendo gente. Então, eles precisam de mais gastos com saúde e menos gasto com educação. As vinculações fazem que eles sejam obrigados a gastar com educação, mesmo quase não tendo crianças", disse.

"Em outros lugares, como o Mato Grosso, que tem migração interna muito grande, eles precisam de maiores gastos em educação. Essa liberdade precisa ser gerada. Hoje, quando a liberdade não é gerada, você tem basicamente um gasto ineficiente, pouco inteligente de dinheiro", continuou.

Segundo ele, as desvinculações, somadas à reforma da Previdência, vão liberar recursos para investimento em infraestrutura.

"Eu vou transformar esse país num canteiro de obras gigantesco que vai fazer com que a nossa produtividade aumente como nunca antes", prometeu.

Renan Santos com olhar sério

Crédito, Reuters

Quem é Renan Santos?

Renan Santos tem 42 anos e está em sua primeira disputa eleitoral.

Se projetou na política como liderança do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo criado em 2014 que se tornou um dos principais articuladores dos protestos de rua que pressionaram pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2015 e 2016.

Atualmente, é presidente do partido Missão, que fundou em 2025, ao lado de outras lideranças do MBL, como o deputado Kim Kataguiri (São Paulo).

Com apenas um parlamentar, o partido não tem direito a tempo de propaganda eleitoral gratuita em rádio e televisão, nem recursos do fundo público eleitoral.

Sem essa estrutura, Santos aposta em entrevistas como essa do Jornal Nacional e na participação em debates para tentar se tornar mais conhecido.

Conseguiu liderar as atenções nas redes sociais durante o primeiro debate eleitoral entre presidenciáveis, promovido pela Band no domingo (23/8). Essa foi a conclusão de agências de análise de dados nas redes sociais.

Segundo a Palver, que monitora e analisa as redes e plataformas de mensagens, como WhatsApp e Telegram, o candidato do Missão não só liderou as atenções em termos de volume, como também foi aquele que teve o maior percentual favorável (38%) das menções.

Atualmente, sua intenção de voto é de 3% no primeiro turno, considerando os resultados das pesquisas divulgadas até segunda-feira (24/8).

A estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula uma espécie de média para a intenção de voto de cada candidato.

Lula lidera as pesquisas para o primeiro turno, com 40% das intenções, seguido por Flávio Bolsonaro, com 34%, e Ronaldo Caiado, com 5%.

Depois, vêm Pablo Marçal, com 4%, e Renan Santos, com 3%. Veja aqui os resultados completos.

O melhor desempenho de Renan Santos se dá entre homens de 16 a 24 anos, grupo em que tem 11% de intenção de voto, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 24 de agosto.

O apoio no eleitorado jovem foi construído pelo MBL por meio de conteúdos nas redes sociais que abordam temas polêmicos, com imagens e falas rápidas.

Com propostas liberais na economia, Santos também têm eleitores em parte do mercado financeiro, mostrou uma reportagem da BBC News Brasil.

O combate à violência é outra das suas bandeiras de campanha, que, assim como Flávio Bolsonaro, defende o governo linha-dura de Nayib Bukele, em El Salvador, como modelo a ser seguido.

Um de seus uniformes nesta corrida eleitoral tem sido uma camiseta com os dizeres "prendeu matou".

"Se você faz parte de uma facção e você vem com uma metralhadora para receber a polícia, ou você se entrega ou você vai morrer", explicou Renan Santos, sobre o seu slogan, em uma entrevista recente.

O candidato do Missão também defende as escolas militares, prisão perpétua, é contrário à Lei da Misoginia e às cotas raciais.

Propõe um "mutirão anti-Bolsa Família", que consiste em criar "frentes de trabalho nas regiões mais humildes", com mutirões de emprego para substituir o benefício social.

Antes de ingressar na política, Santos estudou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), onde ingressou em 2003, mas não chegou a concluir o curso.