Colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete

Legenda do vídeo, O momento em que avalanche atinge fronteira Nepal-Tibete
    • Author, André Biernath*
    • Role, Da BBC News Brasil em Londres
    • Author, Pawan Raj Paudel
    • Role, Da BBC News Nepali
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  • Tempo de leitura: 6 min

As inundações que atingiram o Nepal e o Tibete na manhã de quarta-feira (26/8) deixaram centenas de mortos e desaparecidos. Imagens registradas durante o desastre mostram as pessoas correndo segundos antes de uma enorme massa de lama tomar conta de comunidades e destruir pontes, edifícios e outras estruturas.

Inicialmente, os cientistas acreditavam que a causa do evento havia sido um terremoto. Mas depois descobriram que os tremores estavam relacionados a um "colapso glacial" (leia mais a seguir).

O diretor do Centro de Estudos de Desastres da Universidade Tribhuvan, no Nepal, Basanta Raj Adhikari, disse à BBC News que há risco de uma "segunda e terceira ondas" de inundações nesta quinta-feira (27/8) ou na sexta-feira (28/8).

"Nós ainda não sabemos", afirmou ele, acrescentando que segue discutindo a situação com colegas na China. Segundo Adhikari, não há previsão de chuvas intensas, mas novos deslizamentos de terra podem acontecer. "Estamos observando, mas não sabíamos que isso aconteceria em um determinado dia."

Adhikari afirmou ainda que os pesquisadores vêm monitorando os riscos associados às montanhas do Himalaia. "A mudança climática realmente está acontecendo."

Casas encontram-se parcialmente submersas em águas barrentas à beira de um rio após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal.

Crédito, Prabin Ranabhat/AFP via Getty Images

Legenda da foto, Casas encontram-se parcialmente submersas em águas barrentas à beira de um rio após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal

O país do Himalaia prevê "perdas em uma escala enorme", com centenas de mortos e desaparecidos.

O que gerou a enchente?

Inicialmente, porta-vozes do governo do Nepal e de agências de geologia disseram que o gatilho para a enchente havia sido um terremoto. Sensores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) chegaram a registrar um tremor de magnitude 4,4 na mesma região, momentos antes da enxurrada.

Algumas horas depois, porém, o próprio serviço americano se corrigiu: o tremor não teria sido a causa da enchente, mas, sim, uma consequência de um grande deslocamento de gelo e detritos.

Segundo o USGS, o evento sísmico provocado pelo colapso glacial foi equivalente à magnitude 5,2 e aconteceu perto da fronteira entre Nepal e China às 8h37 da manhã, no horário local — ou 22h52 do dia anterior, no horário de Brasília.

Alguns funcionários nepaleses sugeriram que o colapso poderia ter ocorrido no Tibete, no lado chinês da fronteira. Mas uma nova análise das autoridades indica que o evento aconteceu no lado nepalês, no monte Langtang Lirung, próximo ao rio Lhende.

Em outras palavras, uma grande parte de uma geleira se desprendeu no monte Langtang Lirung e despencou pelo vale, incorporando gelo, pedras e sedimentos pelo caminho. Essa hipótese também é sustentada por observações feitas a partir de imagens de satélite.

Mapa mostra regiões afetadas pelas enchentes
Legenda da foto, Mapa mostra regiões afetadas pelas enchentes

Simon Cook, professor de energia, ambiente e segurança da Universidade de Dundee, na Escócia, especializado em glaciologia, contou à BBC News que um colega de sua equipe identificou, na quarta-feira, que uma parte inferior de uma geleira próxima à área atingida havia desaparecido.

A imagem indicava que havia ocorrido "algum tipo de avalanche de gelo ou colapso de geleira", segundo Cook.

Ele diz que algumas pessoas inicialmente acreditaram que o terremoto havia provocado uma avalanche, mas, segundo um sismólogo da equipe, o tremor teria sido causado pelo próprio colapso da geleira ao atingir o fundo do vale. "Isso mostra a magnitude do evento", afirma Cook.

Essa massa de gelo, pedras e detritos atingiu o rio Lhende Khola e teria bloqueado temporariamente o curso da água. Quando o bloqueio se rompeu, uma enorme onda de água, gelo, pedras e lama avançou rio abaixo.

Especialistas ouvidos pelo serviço nepali da BBC destacam que a geografia da região, marcada por vales estreitos e terrenos muito íngremes, favorece a propagação rápida dessas ondas de água e detritos.

Os cientistas, no entanto, ainda precisam confirmar os detalhes dessa sequência de eventos.

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Legenda do vídeo, As cenas chocantes dos resgates após avalanche no Nepal

Mudanças climáticas podem ter tido influência

Ainda é muito cedo para dizer qual foi o papel das mudanças climáticas no desastre.

Cook diz que sua equipe ficou "chocada com a escala" da tragédia e lembra que houve vários eventos semelhantes nos últimos anos em lugares como o Himalaia, a Suíça e as Dolomitas, na Itália.

"Mas quando você olha para o padrão desses eventos, pensa que as mudanças climáticas podem ter um impacto", afirma.

Segundo Cook, o aquecimento global pode estar fazendo com que o permafrost — solo, sedimento ou rocha que permanece congelado por longos períodos — descongele e se degrade.

O permafrost ajuda a manter algumas encostas de montanhas unidas. Quando ele perde estabilidade, esses ambientes de alta montanha podem ficar mais instáveis, segundo o pesquisador.

Isso pode levar a mais deslizamentos de terra, fluxos de detritos, derretimento de geleiras, rompimentos de lagos e colapsos de geleiras, acrescenta.

Ainda não é possível determinar, porém, qual foi exatamente a influência das mudanças climáticas neste desastre específico. Mas o Nepal perdeu quase um terço de seu volume de gelo nas últimas três décadas, e suas geleiras derreteram em uma velocidade 65% mais rápida de 2011 a 2020 do que o usual, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Por que esta região é tão vulnerável?

Especialistas dizem que a região da fronteira entre o Nepal e a China é especialmente suscetível a desastres naturais por causa de sua geografia.

A área abriga algumas das montanhas mais altas do mundo, extensas geleiras, campos de neve e encostas íngremes e instáveis. Os rios que drenam o Planalto Tibetano descem rapidamente por vales profundos antes de chegar às áreas povoadas do Nepal.

Cientistas dizem que isso cria condições para desastres em cadeia, em que um evento pode desencadear outro.

Eles afirmam que as condições de monção podem aumentar ainda mais o risco de desastres em cadeia, com chuvas intensas desestabilizando encostas e interagindo de maneiras complexas com geleiras, campos de neve e sistemas fluviais.

Chuvas intensas podem desestabilizar encostas. Geleiras, massas de gelo e campos de neve podem desabar. Deslizamentos de terra podem bloquear rios. Represas temporárias podem então romper subitamente, liberando enchentes destrutivas rio abaixo.

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Legenda do vídeo, O relato de sobreviventes da enxurrada no Nepal

Risco de novas inundações

A enxurrada de água, lama e detritos avançou com rapidez impressionante sobre comunidades do norte do Nepal, incluindo áreas que recebem muitos peregrinos e turistas.

Nas imagens do desastre, é possível ver uma enorme parede de lama arrastando prédios, pontes e veículos enquanto as pessoas tentavam fugir.

A onda de água e detritos atingiu primeiro o rio Lhende Khola e, na sequência, avançou por outros rios que estão conectados, como o Bhote Koshi, o Trishuli e o Narayani.

O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas publicou um relatório alertando que novas inundações podem acontecer nos próximos dias.

Isso porque enormes quantidades de detritos foram carregadas pelos rios e podem gerar novos bloqueios em trechos mais estreitos, aumentando o risco de formação de represas e novas inundações.

As autoridades e os cientistas trabalham para avaliar a dimensão desses bloqueios e evitar novos desastres.

Equipes de resgate também trabalham para encontrar desaparecidos e atender os feridos, em uma operação dificultada pelas condições geográficas e climáticas da região.

É possível prevenir esse tipo de desastre?

Fenômenos como deslizamentos de terra, avalanches e colapsos de geleiras não podem ser totalmente evitados, mas seus impactos podem ser reduzidos, dizem especialistas.

Sistemas de alerta precoce estão sendo cada vez mais instalados em vales vulneráveis e no entorno de lagos glaciais. Eles podem monitorar mudanças nas condições e dar um tempo valioso para a realização de evacuações.

Pesquisadores também defendem que uma cooperação transfronteiriça melhor é essencial, porque muitos desses fenômenos têm origem em áreas remotas do Tibete antes de afetarem o Nepal.

"Se tivesse começado no Nepal, poderíamos ter visto daqui. Mas, em incidentes como este, o sistema de compartilhamento de informações entre os países precisa ser fortalecido", disse o diretor do Centro de Estudos de Desastres da Universidade Tribhuvan, no Nepal, Basanta Raj Adhikari.

Ele acrescentou que os mecanismos atuais de compartilhamento de informações entre os países não parecem ser suficientes para desastres desse tipo, que evoluem rapidamente. A longo prazo, especialistas dizem que reduzir a exposição pode ser a defesa mais eficaz.

*Com informações da BBC News e da BBC News Nepali