Por que a Uefa se prepara para processar criminalmente presidente da Fifa, Gianni Infantino

Crédito, Getty Images
- Author, Daniel Austin
- Role, Jornalista sênior da BBC Sport
- Published
- Tempo de leitura: 5 min
A Uefa (União das Associações Europeias de Futebol) está preparando uma ação criminal contra o presidente da Fifa, Gianni Infantino, por causa do plano, agora abandonado, de vender participações nas Copas do Mundo e em outras competições da entidade a investidores privados.
Documentos vistos pela BBC Sport mostram que a entidade que governa o futebol europeu apresentou um pedido para ter acesso a provas e documentos que seriam usados em um processo na Suíça contra o próprio presidente, que está sob forte pressão e é acusado pela Uefa de "gestão criminosa".
A Uefa também afirma que está considerando processar outros dirigentes da Fifa.
Pouco depois da Copa do Mundo deste ano, Infantino propôs a criação de uma nova empresa, a Fifa Forward Enterprise (FFE), que venderia participações nas competições de futebol da Fifa a investidores privados.
O plano foi abandonado após uma forte reação negativa.
No pedido de acesso às provas, a Uefa afirma que Infantino arquitetou o plano com o objetivo de enriquecer a si próprio e aos possíveis investidores privados.
"Na verdade, era um veículo para que Infantino e aquele pequeno círculo adquirissem uma participação permanente e, de outras formas, lucrassem com os ativos mais valiosos da Fifa, em detrimento da Fifa, de seus membros e de outras partes da família do futebol", afirma o pedido da Uefa.
"Infantino levou o plano adiante no processo interno de aprovação da Fifa apenas alguns dias antes, em uma reunião convocada às pressas, na qual um número limitado de dirigentes e funcionários da Fifa — alguns dos quais nunca tinham ouvido falar do plano — recebeu apenas algumas horas para aprovar um esquema sem precedentes, de vários bilhões de dólares."
Em um comunicado divulgado depois que o pedido se tornou público, a Uefa apoiou os processos penais propostos, afirmando:
"Os presentes deram por unanimidade ao presidente e à administração da Uefa o mandato para buscar todas as vias institucionais, políticas e jurídicas disponíveis que sejam necessárias para garantir uma reforma fundamental, restabelecer limites adequados à autoridade presidencial e assegurar que a Fifa seja novamente governada como uma instituição — e não em torno de uma única pessoa."
A BBC Sport procurou Infantino e a Fifa para obter comentários.
O que a Uefa afirma em seu pedido judicial?
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A Uefa também afirma que a avaliação das participações que seriam vendidas não foi verificada de forma independente e que elas seriam oferecidas por um preço baixo demais, classificando a venda proposta como "um preço fraudulento, fora do mercado, promovido por Infantino para seu próprio benefício".
O pedido acrescenta: "Nos termos anunciados por Infantino, esses investidores estariam prestes a adquirir um interesse financeiro permanente na área comercial da Fifa por US$ 4,2 bilhões, o que implicaria um valor empresarial absurdamente baixo, de apenas aproximadamente US$ 20 bilhões, um número que não resultou de um leilão aberto e competitivo nem foi submetido à avaliação de qualquer avaliador independente."
No pedido, a Uefa recorre a um tribunal na Flórida para tentar ter acesso a arquivos mantidos por duas empresas da Fifa — Fifa Americas e FWC2026 — que seriam usados posteriormente para buscar as acusações penais na Suíça.
As duas empresas estão sediadas na Flórida.
A Uefa afirma que suas 55 associações-membro poderiam ter sido prejudicadas pelo plano de venda e que poderá iniciar processos penais contra outros dirigentes da Fifa, além de Infantino.
"Uefa e outras partes interessadas estão se preparando para apresentar acusações criminais na Suíça contra Infantino e possivelmente outros dirigentes e assessores da Fifa por gestão criminosa", afirma o documento.
"A estruturação, avaliação, financiamento e comercialização secretos causaram prejuízos diretos e concretos à reputação, à autoridade de governança e às relações comerciais da Fifa, em detrimento da Fifa e de seus 211 membros, incluindo as 55 associações-membro da Uefa."
A Uefa insiste que o plano foi elaborado sem o conhecimento dela ou de outras partes importantes do futebol e que vinha sendo desenvolvido havia muito tempo.
O documento afirma: "Em 28 de julho de 2026, sem consultar o Conselho da Fifa, a Uefa ou qualquer uma das outras confederações, ou qualquer uma das 211 associações-membro da Fifa, Infantino, supostamente agindo em nome da Fifa, anunciou publicamente um plano para colocar os direitos comerciais das Copas do Mundo masculina e feminina e do Mundial de Clubes em uma nova subsidiária: a Fifa Forward Enterprise.
"Esse anúncio de Infantino foi a apresentação pública de um plano que ele e um pequeno círculo de conspiradores haviam concebido e, segundo relatos, desenvolvido em segredo por mais de um ano."
A Uefa afirma no documento que existe "um histórico duradouro de corrupção entre dirigentes da Fifa" e sustenta que a entidade que governa o futebol mundial só recua de seus planos quando sofre pressão externa.
"O poder extraordinário da Fifa sobre o futebol mundial tem operado, em grande parte, sem uma limitação interna significativa, com a responsabilização ocorrendo principalmente por meio de forças externas, incluindo pressão política, escrutínio público e intervenção por meio da aplicação internacional da legislação penal", acrescenta o documento.
A sede da Fifa fica na cidade suíça de Zurique, e a Uefa afirma que seu plano de eventualmente apresentar acusações penais contra Infantino é respaldado pela legislação suíça.
"Advogados suíços confirmaram [...] que o processo está razoavelmente previsto para os fins da legislação suíça e que a Uefa tem legitimidade, como denunciante, para apresentar uma denúncia criminal por gestão criminosa contra Infantino e potencialmente outros dirigentes da Fifa, conforme seja necessário."
A BBC Sport também procurou a Uefa para obter comentários.
Por que o plano de Infantino foi tão controverso?
Infantino ofereceu US$ 40 milhões (mais de R$ 200 milhões) às 211 associações-membro da Fifa caso apoiassem a proposta de investimento privado em seus torneios por meio da FFE, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina.
O suíço tem enfrentado pedidos para deixar o cargo depois de abandonar o controverso plano no início deste mês.
A Uefa liderou a reação negativa à proposta, afirmando que havia perdido a confiança em Infantino, enquanto seus membros votaram a favor de boicotar as Copas do Mundo caso o plano da FFE não fosse abandonado.
Infantino, que busca um quarto mandato como presidente da Fifa em março, foi acusado de quebrar a confiança "por meio de engano" em uma carta aberta emitida pela Uefa, pela Concacaf e pela Confederação Asiática de Futebol.
As associações de futebol de todas as nações britânicas retiraram seu apoio a Infantino, mas ele mantém o respaldo da entidade sul-americana Conmebol e da Caf, a entidade que governa o futebol africano, enquanto algumas nações romperam com suas confederações para declarar apoio ao presidente da Fifa.



























