Nepal confirma 389 mortes e busca mais de 900 desaparecidos em meio a risco de nova enchente

Crédito, Reuters
- Author, Giulia Granchi, Iara Diniz, Luiz Fernando Toledo, Mariana Alvim e Rute Pina
- Role, Com informações da BBC News
- Reporting from, Da BBC News Brasil em Londres e em São Paulo
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- Tempo de leitura: 9 min
Cerca de 24 horas após uma grande enxurrada repentina e um deslizamento de terra atingirem o Nepal e o Tibete, equipes de resgate correm contra o tempo para buscar sobreviventes, recuperar corpos e fornecer assistência a comunidades afetadas pelo desastre.
Ao menos 389 pessoas morreram no Nepal e três no Tibete.
A tragédia ocorreu na quarta-feira (26/8) na fronteira entre o Nepal e o Tibete, controlado pela China. Estima-se que pelo menos 900 pessoas estejam desaparecidas no Nepal e 558 no Tibete.
Segundo o Conselho de Turismo do Nepal (NTB, na sigla em inglês), 540 dos desaparecidos são estrangeiros, de 31 países.
A Índia é o país com o maior número de desaparecidos, com 178 pessoas, seguida pelos Estados Unidos, com 65; Ucrânia, com 53; Malásia, com 51; Austrália, com 35; e Reino Unido, com 33.
A área é bastante procurada por peregrinos e turistas que fazem trilhas.
Mais de 13 mil militares e policiais foram mobilizados para participar das operações de busca.
Acampamentos temporários de assistência foram montados e atendimento médico gratuito está sendo oferecido aos cidadãos feridos.
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, disse que o foco do governo é salvar vidas, procurar as pessoas desaparecidas e prestar assistência aos afetados.
O diretor do Centro de Estudos sobre Desastres da Universidade Tribhuvan, no Nepal, Basanta Raj Adhikari, afirmou à BBC que há risco de mais duas ondas de enchentes entre quinta (27/8) e sexta-feira (28/8).
"Ainda não sabemos", diz ele, acrescentando que continua a discutir a situação com colegas na China que estão monitorando a situação. "Não há chuvas intensas, mas pode ocorrer [um] deslizamento de terra."
Ele acrescenta que vem monitorando os riscos nas montanhas do Himalaia.
"A mudança climática está realmente acontecendo aqui", explica.
"Estamos observando, mas não sabíamos que isso aconteceria em um dia específico."
O Itamaraty publicou uma nota na quarta-feira afirmando que não há, até o momento, registro de brasileiros entre as vítimas.
"O governo brasileiro expressa profundo pesar e solidariedade às famílias das vítimas, ao povo e ao governo do Nepal e da China", diz a nota.
"A Embaixada do Brasil em Katmandu e a Embaixada do Brasil em Pequim acompanham com atenção os desdobramentos da calamidade no país."
Segundo o NTB, uma parte significativa dos visitantes afetados pelo desastre seguia rumo ao Kailash Mansarovar, no Tibete, um local de peregrinação.
A rota afetada também dá acesso ao Parque Nacional de Langtang e ao lago sagrado de Gosainkunda.
O número de mortos e desaparecidos pode aumentar nos próximos dias, à medida que as equipes de resgate consigam avaliar a dimensão da tragédia.
O desastre é considerado o mais devastador no Nepal desde o terremoto de 2015, que matou quase 9 mil pessoas.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), as inundações repentinas deixaram mais de 17 mil crianças precisando de assistência humanitária de urgência.
"As crianças que sobreviveram às inundações agora enfrentam riscos maiores de doenças, desnutrição, violência e exploração", disse Alice Akunga, representante da organização no Nepal.

País 'em choque'
Um porta-voz do governo nepalês disse à BBC que a dimensão da destruição está "além da imaginação".
O distrito de Chitwan registrou o maior número de mortes. Rasuwa e Nuwakot, às margens do rio Bhotekoshi, também foram atingidos.
Houve destruição de estradas, pontes, redes de comunicação e infraestrutura hidrelétrica, incluindo danos ao projeto hidrelétrico de Trishuli.
A polícia diz que está trabalhando para levar moradores de áreas de risco para locais seguros e realizar operações de busca e resgate.
Militares, policiais, trabalhadores do setor de energia e funcionários de alfândega e imigração estão entre as centenas de desaparecidos.
O primeiro-ministro Balendra Shah afirmou que o país está "em choque e profundamente abalado" pela perda de vidas e pelos danos causados pelas enxurradas.
Em uma publicação nas redes sociais, ele classificou o desastre como "repentino" e "de grandes proporções" e prestou condolências às vítimas e suas famílias.
Shah também afirmou que o governo mobilizou imediatamente todos os recursos disponíveis para as operações de resgate.
Ao lado da China e da Índia, o Nepal abriga oito das montanhas mais altas do mundo, incluindo o Monte Everest, conhecido localmente como Sagarmatha.
Como um dos países mais pobres do mundo, a economia do Nepal depende fortemente de ajuda externa e do turismo.
'Grandes perdas de vida' no lado tibetano
A mídia estatal chinesa CCTV relatou três mortos e 558 desaparecidos no Tibete, considerado uma região autônoma da China.
O presidente chinês Xi Jinping ordenou um esforço de resgate "total" para localizar os desaparecidos, além de pedir reforço no monitoramento e nos sistemas de alerta antecipado para evitar novos desastres.
O governo chinês também determinou o envio de equipes à região para operações de busca e resgate.
Yee Liang, empresário chinês baseado em Katmandu, disse à BBC que sua empresa de logística tem sete caminhões na área atingida, todos com motoristas nepaleses, e que perdeu contato com todos eles por falta de sinal.
Segundo ele, não houve alerta prévio, embora deslizamentos ocasionais fossem comuns na estação chuvosa.
Desta vez, disse, a situação "parece muito mais grave".
Já Guan Daoxuan, da província chinesa de Sichuan, relatou à BBC ter perdido contato com a esposa, que trabalha para uma construtora estatal envolvida em obras de estradas e pontes no Tibete.
Segundo ele, autoridades nepalesas tentaram enviar um helicóptero para inspecionar a área, mas ventos fortes dificultaram o acesso.
O Partido Comunista no Tibete, controlado pela China, está convocando seus membros nas bases para ajudar a manter a estabilidade na região após o deslizamento de terra.
O partido teme possíveis manifestações de revolta ou instabilidade em uma região frágil, que tem um histórico de resistência ao governo de Pequim.
Os membros estão sendo orientados a ajudar nos esforços de assistência às vítimas e a oferecer orientação emocional e apoio psicológico aos moradores afetados — especialmente àqueles que perderam pessoas queridas.
O que causou a enchente

Crédito, Prabin RANABHAT / AFP via Getty Images
Inicialmente, porta-vozes do governo do Nepal e de agências de geologia disseram que o gatilho para a enchente havia sido um terremoto. Sensores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) chegaram a registrar um tremor de magnitude 4,4 na mesma região, momentos antes da enxurrada.
Algumas horas depois, porém, o próprio serviço americano se corrigiu: o tremor não teria sido a causa da enchente, mas, sim, uma consequência de um "colapso glacial" — um grande deslocamento de gelo e detritos.
Segundo o USGS, o evento sísmico provocado pelo colapso glacial foi equivalente à magnitude 5,2 e aconteceu perto da fronteira entre Nepal e China às 8h37 da manhã, no horário local — ou 22h52 do dia anterior, no horário de Brasília.
Em outras palavras, uma grande parte de uma geleira se desprendeu em uma região montanhosa e despencou pelo vale, incorporando gelo, pedras e sedimentos pelo caminho. Essa hipótese também é sustentada por observações feitas a partir de imagens de satélite.

Crédito, Navesh Chitrakar/ Reuters
Resgates em andamento
As equipes de resgate correm contra o tempo para encontrar sobreviventes.
EUA, China, União Europeia e Índia, entre outros, prometeram assistência ou já enviaram suprimentos.
Washington prometeu US$ 500 mil (cerca de R$ 2,5 milhões) em ajuda, valor que será usado em abrigos emergenciais, saneamento e outros itens de assistência para as comunidades afetadas.
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, afirmou que seu país está "preparado para fornecer ao Nepal todo tipo possível de assistência humanitária".
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que o bloco está pronto para mobilizar assistência.
Já o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, disse estar "entristecido pelas graves inundações" que "tiraram muitas vidas, deixaram pessoas desaparecidas e causaram destruição generalizada".
"Minha solidariedade está com todos os afetados", afirmou, acrescentando que equipes da ONU e parceiros estão mobilizando suprimentos e funcionários no Nepal para apoiar o governo local.

Crédito, Navesh Chitrakar/Reuters
'Meus familiares foram arrastados diante dos meus olhos'
A BBC tem ouvido relatos de sobreviventes da enchente repentina.
Sonam Dorjee, um guia de trekking para turistas estrangeiros, está com uma irmã desaparecida. Eles são da aldeia de Syafru Besi, em Rasuwa, no Nepal, que foi atingida pela inundação às 9h de quarta-feira em horário local (0h15 em Brasília).
Sonam tinha saído uma hora antes para ir de carro a Katmandu, capital do país. Ele diz que ouviu o som das cheias enquanto se afastava da aldeia de carro.
"Parece um terremoto", diz. "A minha casa desabou."

Crédito, Sonam Dorjee
Ele descreve a inundação como "repentina e devastadora".
"Muitos sobreviventes ficaram agora sem casa e precisam de resgate e evacuação de emergência, bem como de alimentos, alojamento temporário e apoio médico."
Ele reza para que a irmã, Dechen Tamang, possa ser encontrada com vida. Além de Dechen, o marido dela e vários outros familiares também estão desaparecidos.
"Há uma hipótese de 10% que nos dá esperança", afirma.
Kalpana Malla, no distrito nepalês de Nuwakot, diz que a enchente "levou tudo" dela.
"Meus familiares foram arrastados pela enchente diante dos meus olhos", diz.
Ela afirma que seu pai, sua mãe, sua irmã e os filhos de sua irmã foram todos arrastados pela correnteza.
"Eles não conseguiram escapar da enchente; não havia qualquer possibilidade", diz ela. "Essa enchente levou tudo, mas meu filho e eu subimos no telhado de uma casa e sobrevivemos, embora eu não consiga explicar como."
Seu filho, Sugam Malla, diz que salvou a mãe puxando-a pela mão.
"Antes disso, eu tinha dado meu telefone à minha irmã para que ela ficasse em segurança e pudesse pedir ajuda, mas agora não consigo entrar em contato com ela; o celular está desligado. Estou preocupado que ela tenha sido arrastada pela enchente."
A jornalista Shreejana Shrestha, da BBC Nepali, visitou um hospital em Katmandu, para onde alguns sobreviventes estavam sendo levados de helicóptero para receber tratamento.
Familiares estavam reunidos do lado de fora do hospital, na esperança de encontrar seus entes queridos.
Ram Kumari Shrestha disse que procura pelo marido, que havia ido para Rasuwa a trabalho, como motorista. Segundo ela, não tem notícias dele desde a noite anterior.
'Eles escaparam engatinhando como um bebê'

Um homem nepalês que vive em Aberdeen, na Escócia, disse à BBC que perdeu três familiares próximos nas enchentes repentinas que atingiram seu país na quarta-feira.
Barun Lamichhane, de 26 anos, disse que seu irmão, tio e primo morreram no desastre, mas que sua mãe, pai e avó conseguiram escapar.
Lamichhane contou que eles conseguiram fugir "engatinhando como um bebê" pela encosta.
O jovem nasceu no vilarejo de Betrawati, uma das muitas áreas gravemente afetadas. Ele se formou há algumas semanas em Gestão de Eventos Internacionais pela University of the West of Scotland.
"Eu estava dormindo quando minha irmã me acordou e disse: 'No nosso vilarejo não sobrou nada — é como se tudo tivesse desaparecido'. Naquele momento, fiquei sem reação. Não conseguia nem pensar", lembra.
"Eles estão dizendo que nossa casa, tudo, desapareceu. Não sobrou nada."
Lamichhane disse temer ter perdido muitos outros amigos e vizinhos no desastre.
Ele disse que sua mãe, Tulasha Lamichhane, seu pai, Netra Prasad Lamichhane, e sua avó, Krishna Kumari Lamichhane, conseguiram escapar.
Os três estavam em locais diferentes quando a enchente atingiu a região.
Segundo ele, os familiares agora estão abrigados em uma escola que está sendo usada como refúgio para os sobreviventes.
O que mostram as imagens verificadas
A equipe de verificação da BBC (BBC Verify) confirmou a confiabilidade de vídeos que mostram uma ponte sendo arrastada pela correnteza e prédios de vários andares desabando com a força da água, na região de Trishuli Bazaar, distrito de Nuwakot, cerca de 25 km a noroeste de Katmandu.
As imagens mostram o rio Trishuli aumentando rapidamente de volume e velocidade, carregado de sedimentos, até que a ponte se solta de suas bases e é levada pela correnteza — segundos depois, vários prédios desabam.
Um outro vídeo, filmado no mesmo local, mostra o cenário após a enchente: o nível do rio consideravelmente mais alto, árvores e construções anteriormente visíveis já desaparecidas, e diversos imóveis próximos à margem destruídos, parcialmente desmoronados ou cobertos de lama.
Imagens de satélite comparando a região antes e depois da enchente também mostram o rio Trishuli visivelmente mais volumoso e água espalhada pelas áreas ao redor.



























