Por que inquérito das Fake News gerou tanta polêmica — e o que acontece após Fachin retirar a relatoria de Alexandre de Moraes

Moraes em pé no plenário, com olhar sério

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Moraes (foto) foi designado como relator do inquérito por Dias Toffoli, então presidente do STF
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O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, decidiu nesta quarta-feira (09/09) retirar do ministro Alexandre de Moraes a relatoria do chamado Inquérito das Fake News.

Com isso, Fachin assumirá o polêmico inquérito — salvo as ações penais já instauradas em decorrência do inquérito, que continuarão a cargo de Moraes.

Fachin pediu que, após uma análise da situação da investigação, os autos sejam encaminhados à Polícia Federal e posteriormente à Procuradoria-Geral da República, que deverá decidir pelo arquivamento ou apresentação de denúncias (um primeiro passo para a abertura de um processo judicial).

O chamado Inquérito das Fake News foi criado em 2019 de ofício — ou seja, por decisão do próprio tribunal, sem o pedido do Ministério Público — por decisão do ministro Dias Toffoli, então presidente do STF, que escolheu Moraes como relator.

O inquérito tem como fundamento uma interpretação do regimento interno do STF que possibilita a abertura de investigações de ofício quando o crime ocorre dentro do Tribunal.

O objetivo era apurar ameaças contra ministros do Supremo e "ataques à democracia".

Desde então, o inquérito foi renovado e ampliado — abarcando desde fraudes em cartões de vacinação de autoridades do governo Jair Bolsonaro aos ataques do 8 de Janeiro.

Dois procuradores-gerais da República já haviam pedido encerramento do inquérito, sem sucesso.

O ministro Fachin já havia demonstrado incômodo em relação ao inquérito - e afirmou na semana passada que a meta era encerrá-lo.

Em um evento ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o presidente da Corte disse que a crise atual no tribunal reforçava a necessidade de encerrar o inquérito.

"Os acontecimentos recentes demonstram o acerto e a urgência de três metas da nossa gestão: a adoção de um Código de Ética, o fim do Inquérito das Fake News, e a modernização do sistema de Justiça", afirmou Fachin.

Na sexta-feira (04/09), o presidente do STF já havia anulado uma decisão de Alexandre de Moraes sobre o inquérito.

No dia anterior, na quinta (03/09), Moraes havia usado relatórios da inteligência da Polícia Federal (PF) para acusar seu colega André Mendonça de ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade.

Moraes fez essas acusações no âmbito do Inquérito das Fake News.

Mas Fachin decidiu, depois, retirar as acusações contra Mendonça deste inquérito.

No domingo (6/9), dias depois da fala de Fachin sobre a finalização do Inquérito, o ministro Flávio Dino também comentou o assunto em um post no seu perfil do Instagram. Sem se referir especificamente ao Inquérito das Fake News, Dino escreveu que queria abordar, entre outros temas, a ideia de que "o inquérito X ou Y tem que acabar pois está muito antigo".

"Eu pessoalmente sou a favor da conclusão dos inquéritos, até porque eles foram feitos para terminar mesmo", escreveu o ministro. "[Mas] quem decide o que é 'tramitação longa'? Opiniões pessoais? Ou critérios legais e regimentais?".

O ministro disse ainda que "institucionalidade é um assunto muito sério para ser embaralhado com interesses eleitorais ou com mentiras."

Em entrevista à BBC News Brasil na semana passada, o professor da FGV Direito Rio Thiago Bottino afirmou que o inquérito já extrapolou seus limites "há muito tempo".

"Se esse inquérito existe até hoje, não é responsabilidade só do Alexandre Moraes. É do plenário que ratificou a possibilidade de ter um inquérito existindo mesmo contra a vontade do Ministério Público", criticou Bottino.

Em 2000, a maioria da Corte decidiu que o inquérito era constitucional.