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A 'caixa-preta' do filme de Bolsonaro - e por que orçamento ligado a Flávio e Vorcaro é difícil de ser analisado
A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu a Daniel Vorcaro, do Banco Master, dinheiro para a produção do filme Dark Horse, em homenagem a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, provocou discussões sobre quanto custa produzir um longa-metragem e se o valor que teria sido solicitado ao banqueiro é alto ou baixo.
Segundo revelou o site The Intercept Brasil, o pedido foi de R$ 134 milhões, e R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos por Vorcaro, mas a Go Up Entertainment, produtora do longa-metragem, e o deputado Mario Frias (PL-SP), roteirista da obra, disseram que não tiveram acesso à verba do banqueiro.
Vorcaro está preso, e sua defesa não esclareceu as doações até o momento. A Go Up afirmou ainda que não pode revelar de onde veio seu orçamento, senão quebraria contratos de confidencialidade com os envolvidos no projeto.
Profissionais ligados a grandes produções de cinema afirmam à BBC News Brasil, sob condição de anonimato, que R$ 134 milhões podem ser considerados exagerados para o orçamento de Dark Horse.
Eles argumentam que os artistas envolvidos no projeto nunca ocuparam o panteão de Hollywood e, apesar de terem tido alguma relevância décadas atrás, estiveram relegados, nos últimos anos, a obras de menor relevo, a maioria delas de viés religioso ou patriótico americano.
É o caso de Jim Caviezel, que interpreta o ex-presidente. Seu projeto mais famoso foi Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson, no qual interpretou Jesus. O longa-metragem arrecadou US$ 612,1 milhões nas bilheterias em 2004.
Desde então, no entanto, a carreira de Caviezel foi marcada por papéis e projetos menores. A exceção foi O Som da Liberdade, em 2023, que no Brasilmobilizou sobretudo evangélicos e bolsonaristas, mas que ainda assim teve uma bilheteria bem menor do que Paixão de Cristo, de US$ 250,5 milhões.
Em outras palavras, é difícil imaginar, na visão dos especialistas ouvidos pela BBC, que Caviezel tenha recebido um cachê multimilionário para interpretar Bolsonaro.
Um dos profissionais que conversaram com a reportagem, acostumado a contratar atores do primeiro escalão de Hollywood, diz que pagou recentemente a uma estrela de filmes de super-heróis US$ 2 milhões por um filme de repercussão internacional, com circulação em festivais e mostras.
Produtora de Meu Passado me Condena e De Pernas pro Ar, arrasa-quarteirões nos anos 2000, a diretora Mariza Leão faz coro ao que dizem esses profissionais e acrescenta que uma boa maneira de avaliar a adequação do orçamento de um filme é pensar no que ele pode render nas bilheterias.
Ela lembra que sucessos recentes como Ainda Estou Aqui arrecadou pouco mais de R$ 100 milhões, alavancado pelo marco de ter vencido o primeiro Oscar do Brasil, ou seja, bem menos do que o valor que Flávio Bolsonaro pediu a Vorcaro para produzir Dark Horse.
Outro parâmetro de comparação seria a bilheteria somada de todos os 205 filmes lançados no ano passado, algo na ordem de R$ 215 milhões. "Não há parâmetro de nada igual na história do cinema brasileiro. Supondo que o mercado brasileiro seja o foco principal para recuperar esse investimento, estamos falando de uma conta que não fecha", diz a cineasta.
Avaliar o orçamento de Dark Horse, no entanto, não é uma tarefa fácil. Há uma série de minúcias relacionadas à produção que precisariam ser analisadas, e a maior parte delas pode ser impossível de descobrir, já que a feitura de um filme, principalmente daqueles que não se valem de recursos públicos, é um processo cheio de segredos, guardados por acordos de confidencialidade que, se quebrados, podem implicar multas milionárias.
As gravações do longa-metragem aconteceram nos Estados Unidos e no Brasil e foram encerradas em dezembro. Segundo a Go Up, o longa-metragem foi todo filmado em inglês e agora está em edição nos EUA. Não há previsão de estreia.
Dark Horse custou mais caro do que filmes brasileiros do Oscar: o que isso significa?
Muitas comparações têm sido feitas entre o orçamento de Dark Horse e o de outros filmes brasileiros, principalmente Ainda Estou Aqui, que venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional no ano passado, e O Agente Secreto, que concorreu a quatro estatuetas neste ano.
O primeiro longa-metragem, estrelado por Fernanda Torres, custou cerca de R$ 45 milhões, e o segundo, protagonizado por Wagner Moura, saiu por aproximadamente R$ 28 milhões.
São valores muito inferiores, é fato. Mas isso pode não dizer muita coisa, na visão dos profissionais ouvidos pela BBC.
Isso porque o Oscar busca premiar as obras de maior qualidade feitas no ano, e isso nem sempre tem relação com o orçamento das produções. Fazer um filme custa caro, mas uma boa história — ou a melhor história — não necessariamente é a que custou mais caro. Essa é uma máxima que rege a indústria do cinema.
Uma comparação entre Moonlight: Sob a Luz do Luar e Titanic, que venceram a categoria de Melhor Filme no Oscar em 2017 e 1998, pode ilustrar essa equação.
O primeiro, sobre um jovem negro que cresce em um bairro pobre de Miami enquanto tenta entender sua identidade e sexualidade, custou US$ 1,5 milhão, considerado o menor orçamento da história entre os vencedores da estatueta mais importante da premiação americana.
Já o segundo, que narra o maior naufrágio da história sob a ótica do romance improvável entre uma jovem rica, Rose, e um garoto pobre, Jack, custou US$ 200 milhões, considerado até hoje o orçamento mais caro de um vencedor da principal estatueta do Oscar.
Comparações mais recentes podem reforçar essa ideia. O vencedor da categoria de Melhor Filme deste ano, Uma Batalha Após a Outra, não foi o filme mais caro entre os dez títulos indicados. O longa premiado saiu por US$ 130 milhões, enquanto F1, sobre um piloto da Fórmula 1, que também concorria ao prêmio, teve orçamento estimado em US$ 300 milhões.
Essa discrepância ilustra que usar o Oscar para avaliar se um filme custou muito ou pouco — isto é, se seu orçamento está adequado ou não — pode não ser a melhor alternativa.
A 'caixa-preta' do cinema e por que é difícil avaliar um orçamento
O orçamento de um filme pode ser influenciado por uma série de fatores, a começar pelo cachê de cada um dos envolvidos, mas também pelo local das filmagens e pelo valor empenhado na divulgação, que muitas vezes se iguala ou até supera o custo de produção — cifras que, via de regra, são mantidas em segredo.
Muitos cachês, aliás, podem nem sequer ser fixos. Os principais nomes por trás de uma película frequentemente têm contratos que preveem o pagamento de um valor inicial, mas que podem crescer com o recebimento de uma porcentagem da bilheteria, por exemplo. Assim, às vezes nem o protagonista de um filme sabe qual será seu pagamento definitivo.
É preciso ainda avaliar se Dark Horse é uma produção americana ou brasileira. Isso tem impacto direto nos custos, haja vista que cachês em dólar custam mais caro do que em real, assim como gravar nos EUA.
A produtora Go Up Entertainment se limita a dizer que o filme teve cenas gravadas em ambos os países, mas não informa quantos por cento da película foi rodada em cada um deles — no cinema, os cálculos muitas vezes são feitos por diárias de gravação.
A BBC questionou a produtora sobre os detalhes do projeto, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.
Seria preciso saber ainda em qual cidade americana aconteceram as filmagens, porque os custos variam muito de um Estado para outro, devido a inúmeros fatores, desde impostos até o custo com seguros de saúde da equipe envolvida.
A jornalista Ana Paula Sousa, que já foi parecerista do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), avaliando a viabilidade de projetos que buscavam recursos públicos da Agência Nacional do Cinema (Ancine), explica que essas lacunas de informação são primordiais para analisar a adequação do orçamento, assim como a origem dele — o que a produtora se nega a responder.
"Quem são os donos do filme, ou seja, quem detém os direitos sobre ele? Essas pessoas investiram por que motivo? Para receber lucro de volta ou porque acreditam na causa que ele defende? Ou por vaidade? Essas são questões pertinentes quando pensamos em uma produção honesta, sem considerar artimanhas financeiras", diz.
Quanto custa, afinal, um filme?
Os profissionais do setor ouvidos pela BBC dizem que, no Brasil, um filme como esse custaria de R$ 40 milhões, se o orçamento fosse otimizado, até R$ 70 milhões, caso a produção não tivesse muita preocupação em economizar. Nesse caso, seria possível afirmar que os R$ 134 milhões pedidos a Vorcaro seriam um exagero.
Lula, O Filho do Brasil, a cinebiografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), toda filmada no Brasil, custou R$ 17 milhões em 2009, o que hoje seria equivalente a R$ 51,4 milhões, se aplicado o IPG-M, o Índice Geral de Preços ao Mercado.
Mas, nos EUA, uma produção como essa poderia facilmente custar mais de US$ 20 milhões, equivalentes a R$ 100 milhões, e portanto a doação solicitada ao banqueiro não seria um exagero.
Os segredos que envolvem a produção de um filme não são uma particularidade de Dark Horse, mas uma tradição da indústria cinematográfica. A menos que algum ator, diretor ou produtor quebre o silêncio e decida revelar quanto ganhou por seu trabalho, os cachês, por exemplo, permanecem secretos.
O que se sabe, em geral, é o orçamento total de uma produção. Mas mesmo esse valor costuma ser divulgado apenas no caso de filmes feitos para o cinema e são estimados. Produções realizadas por plataformas de streaming não têm nem seu custo total revelado.
Também é muito raro que sejam divulgados os valores gastos com um roteirista, com a pós-produção ou com a divulgação da obra, um orçamento que pode ser equivalente ao valor empenhado na produção ou até mais alto.
A edição, aliás, pode envolver não uma, mas dezenas de empresas. Grandes produções cinematográficas costumam entregar a edição de diferentes sequências para companhias distintas, que podem lapidar o material bruto até o corte final ou cuidar apenas de aspectos específicos, como a coloração.
Os efeitos especiais são um capítulo à parte na planilha de custos. Não raro, uma única cena demanda a contratação de várias empresas, cada uma especializada em uma tarefa, desde aspectos mais amplos — como a inserção de cenários quando a gravação foi feita sobre fundo verde (o chamado chroma key) — até detalhes extremamente específicos, como a alteração de uma parte do corpo de um ator. Isso pode ser feito para baratear custos, mas também para evitar vazamentos.