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'Completamente louco': a tensa ligação telefônica entre Trump e Netanyahu que complica negociações com o Irã
- Author, Bernd Debusmann Jr
- Role, Correspondente da BBC na Casa Branca
- Published
- Tempo de leitura: 6 min
O presidente americano, Donald Trump, entrou em confronto com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, devido às ações militares israelenses no Líbano que causaram uma crise nas conversas entre os governos dos EUA e do Irã para o fim da guerra.
O Irã respondeu aos ataques de Israel contra o Líbano ameaçando suspender as conversas com os EUA, um possível revés para os esforços de Trump de se desvincular do impopular conflito no Oriente Médio.
Um jornalista perguntou a Trump sobre uma informação do portal de notícias americano Axios que afirmava que, durante uma ligação telefônica na segunda-feira (1/6), o presidente havia dito a Netanyahu que ele estava "completamente louco" e o acusara de ingratidão.
"Eu disse", assumiu Trump ao podcast Pod Force One, em uma entrevista exibida na quarta-feira (3/6).
"Não diria que estava irritado. Estava um pouco incomodado com seu constante conflito com o Líbano".
E acrescentou: "Gosto muito do Bibi [apelido de Benjamin Netanyahu]. E trabalho muito bem com ele".
Trump está longe de ser o único presidente americano a ter atritos com o primeiro-ministro israelense.
Netanyahu tem um longo histórico de testar a paciência da Casa Branca, mas também de sobreviver politicamente a quaisquer consequências que isso implique.
Este mais recente confronto ocorre em um momento em que Trump avalia um acordo que ampliaria o cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã e abriria caminho para conversas sobre o futuro do programa nuclear de Teerã.
Também está em jogo a reabertura do estreito de Ormuz, uma via marítima vital para o transporte de combustível global.
'Grandes amigos'
Netanyahu descartou com uma risada qualquer sugestão de tensões com seu aliado americano.
"Às vezes temos — como acontece nas melhores famílias — esse tipo de desacordo tático", declarou à emissora america CNBC em uma entrevista na quarta-feira. "Sempre encontramos uma maneira de resolvê-los, e o fazemos como grandes amigos".
Ele acrescentou que ambos podem "discordar pela manhã" e chegar a um acordo à tarde.
No entanto, especialistas advertiram que a ligação pode ser um indício de certa frustração na Casa Branca em relação ao alinhamento dos objetivos militares e políticos dos Estados Unidos e de Israel, quase 100 dias após ambos os países terem lançado ataques contra alvos no Irã.
"Netanyahu tem um longo histórico de agir em seu próprio ritmo, independentemente do que tenha ouvido de Washington", disse à BBC Brett Bruen, ex-diplomata e presidente da agência de comunicação de crise Global Situation Room.
"Trump decidiu embarcar nessa ao lado dele e agora está aprendendo uma lição dura sobre o que acontece quando se entra em guerra ao lado de um líder bastante volátil, cuja agenda nem sempre coincide com suas prioridades", acrescentou.
Diminui o apoio a Israel
Em termos gerais, Netanyahu e Trump concordam com o objetivo central dos Estados Unidos de impedir que o Irã produza ou possua uma arma nuclear.
No Líbano, no entanto, esses interesses divergem parcialmente, dado que Israel prometeu atacar a milícia do Hezbollah — apoiada pelo Irã — mesmo enquanto prosseguem as conversas entre Estados Unidos e Irã.
Teerã tem insistido que qualquer cessar-fogo deve incluir também o Líbano.
Isso ocorre em um momento em que uma parcela crescente da opinião pública americana tem se tornado crítica ao apoio de longa data que os Estados Unidos oferecem a Israel.
Uma pesquisa do instituto Pew Research Center publicada em abril revelou que 60% dos americanos entrevistados têm agora uma visão negativa de Israel. Antes do início da guerra com o Hamas em Gaza, em 2023, 42% tinham uma visão negativa.
Várias figuras conservadoras proeminentes também se manifestaram publicamente contra o suposto papel de Israel em convencer Trump a entrar em guerra contra o Irã, algo que tanto a Casa Branca quanto Netanyahu negam.
Entre os críticos destacados da guerra está Joe Kent, que dirigiu o Centro Nacional de Contraterrorismo antes de renunciar em março, alegando sua convicção de que "iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby nos Estados Unidos".
O Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos-Israel (Aipac, na sigla em inglês), um poderoso grupo de lobby pró-Israel, respondeu à renúncia de Kent republicando uma declaração em que o acusava de recorrer a "velhos estereótipos antissemitas".
Nesse clima político, alguns analistas acreditam que Trump tem um incentivo para divergir de Netanyahu a fim de apaziguar seus críticos no cenário interno dos Estados Unidos.
"Acho que agora existe uma necessidade política de marcar distância entre Israel e Estados Unidos", afirmou Brett Bruen.
"Seja no Líbano ou em Gaza, há ações que Netanyahu decidiu empreender que são politicamente problemáticas, mesmo para Trump ou para os republicanos", disse o especialista.
Relações historicamente tensas
Outros presidentes americanos se viram frustrados por Netanyahu.
O primeiro-ministro israelense protagonizou um confronto marcante com o ex-presidente Bill Clinton a respeito da implementação dos Acordos de Paz de Oslo, entre israelenses e palestinos, de 1993.
Manteve uma relação ainda mais difícil com o ex-presidente Barack Obama, particularmente após um discurso perante o Congresso em março de 2015 — centrado na política em relação ao Irã — que foi agendado sem o conhecimento da Casa Branca.
A relação de Netanyahu com Joe Biden também pareceu se deteriorar depois que ele acusou os Estados Unidos de reter armas e munições; comentários que autoridades da Casa Branca classificaram como "irritantes" e "profundamente decepcionantes".
"Ele manteve relações extremamente tensas com os presidentes americanos", diz Natan Sacks, especialista em relações entre Estados Unidos e Israel do Instituto do Oriente Médio, com sede em Washington.
Netanyahu "é um negociador muito difícil; não apenas por ser duro, mas também por ser muito desconfiado", acrescenta Sacks.
Trump já havia expressado anteriormente sua frustração com Netanyahu e, no ano passado, fez um comentário grosseiro diante das câmeras e na frente de jornalistas, depois que ataques israelenses contra o Irã colocaram em risco um frágil cessar-fogo ao final da chamada "guerra de 12 dias" com Teerã.
Mas, em termos gerais, sua relação tem sido majoritariamente positiva, e Netanyahu tem descrito repetidamente Trump como o "melhor amigo de Israel" na história dos Estados Unidos.
"Com Trump, ele [Netanyahu] encontrou alguém disposto a romper os padrões na forma como os assuntos do Oriente Médio são conduzidos", afirmou Sacks.
"Isso é algo com o qual Netanyahu se identificou com muita facilidade. Ele queria mudar as regras do jogo, assim como a disposição dos Estados Unidos e de Israel de confrontar militarmente o eixo iraniano".
No entanto, não está claro se seu recente e aparente desacordo alterará essa relação cordial no longo prazo.
"Pode ser algo significativo. Não sabemos se foi um incidente isolado ou o prenúncio de acontecimentos de maior dimensão", apontou Sacks.
"Eu não descartaria isso. O presidente mudou de opinião em relação a muitas pessoas no passado".