Como Ahmadinejad, ex-presidente do Irã, virou um dos maiores mistérios da guerra?

    • Author, Saeid Jafari
    • Role, Analista Político
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  • Tempo de leitura: 8 min

"Vocês precisam entender que esse regime odiado [Israel] caminha para o colapso e, pela graça de Deus, irá cair. Nada será capaz de salvá-lo. Esse regime chegou ao fim e em breve desaparecerá do mapa."

Durante anos, declarações como essa fizeram do ex-presidente iranianoMahmoud Ahmadinejad (2005-2013) um dos principais símbolos do discurso anti-Israel no mundo. Ele questionou o Holocausto, chamou Israel de "regime fabricado" e defendeu o avanço do programa nuclear iraniano apesar das sanções, posições frequentemente usadas por autoridades israelenses para sustentar a ideia de que o Irã representava uma ameaça real.

Ainda assim, o jornal americano The New York Times informou que, nos "planos para o pós-guerra", Estados Unidos e Israel chegaram a considerar a possibilidade de Ahmadinejad romper com o aparato de segurança iraniano e se apresentar como um possível futuro líder do país.

Mas, segundo o jornal, a iniciativa teria fracassado porque um ataque destinado a libertar Ahmadinejad da prisão domiciliar, no início da guerra, acabou deixando o ex-presidente ferido.

Ahmadinejad e seus aliados não comentaram as alegações, e seu paradeiro segue desconhecido.

A reportagem foi recebida com ceticismo por muitos analistas americanos e israelenses, que questionam por que os dois países cogitariam se aproximar de alguém associado durante tantos anos a um discurso extremista anti-Israel.

A aparente contradição também reacendeu dúvidas sobre se a figura pública de Ahmadinejad sempre escondeu mais complexidade do que aparentava.

Um inimigo útil para Israel?

Para entender a sensibilidade dessa questão, é preciso voltar aos anos em que Ahmadinejad começou a ascender na política iraniana. Em 2003, ele foi eleito prefeito de Teerã, capital do Irã, embora ainda fosse uma figura pouco conhecida no cenário nacional. Dois anos depois, em 2005, assumiu a presidência com o aparente apoio do então líder supremo do Irã, Ali Khamenei.

Na campanha presidencial, Ahmadinejad apostou em discursos sobre justiça social, simplicidade e combate à corrupção. Mas ganhou projeção internacional não por suas políticas internas, e sim pelas declarações sobre Israel, os EUA e o Holocausto.

Em outubro de 2005, durante a conferência intitulada "O mundo sem o sionismo", realizada em Teerã, Ahmadinejad declarou que "um mundo sem a América e o sionismo é possível".

Cerca de um ano depois, a capital iraniana sediou a controversa Conferência Internacional de Revisão da Visão Global do Holocausto, encontro que reuniu conhecidos negacionistas do Holocausto e provocou forte reação internacional.

Anos mais tarde, autoridades e analistas israelenses passaram a dizer publicamente que Ahmadinejad, com sua retórica agressiva e as declarações negacionistas sobre o Holocausto, acabou beneficiando Israel politicamente.

Em 2008, Efraim Halevy, ex-chefe do Mossad, a agência de inteligência israelense, chamou Ahmadinejad de "o maior presente do Irã para Israel" e afirmou que suas declarações ajudavam a reforçar, diante do mundo, a percepção de que o Irã representava uma ameaça real.

Os apoiadores de Ahmadinejad rejeitam essa leitura e afirmam que ele apenas adotou uma política agressiva e ideológica de enfrentamento a Israel e ao Ocidente.

Mudança de imagem após deixar o poder

Depois de deixar a presidência, em 2013, Ahmadinejad passou a bater de frente com o líder supremo Ali Khamenei e com setores do aparato de segurança iraniano, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica. Mais tarde, o Conselho dos Guardiões do Irã barrou diversas tentativas dele de disputar novamente a presidência.

Em uma publicação na rede social X sobre a reportagem do The New York Times, Raz Zimmt, diretor do programa sobre Irã e Eixo Xiita do Instituto de Estudos em Segurança Nacional de Israel, afirmou que Ahmadinejad frequentemente adotava posições contraditórias e inesperadas.

"Durante o seu governo, Ahmadinejad foi uma combinação de populismo e oportunismo", escreveu Zimmt.

Nos últimos anos, Ahmadinejad também reconstruiu a sua imagem internacional nas redes sociais. Passou a publicar mensagens em inglês, parabenizou o time de futebol americano da Universidade de Michigan, nos EUA, e chegou a citar o rapper americano Tupac Shakur. Em outro momento, elogiou o presidente americano, Donald Trump, por "combater a corrupção política nos EUA".

Embora reconheça esse esforço para construir uma imagem mais moderada, tanto dentro do Irã quanto diante do público ocidental, Zimmt afirma que Ahmadinejad jamais teve apoio suficiente para voltar ao poder em um país com mais de 90 milhões de habitantes.

Ceticismo entre especialistas americanos

Três especialistas americanos ouvidos pela BBC Persa também colocaram em dúvida a existência de um "plano operacional sério" para recolocar Ahmadinejad no poder.

Max Abrahms, professor de ciência política da Universidade Northeastern, nos EUA, e pesquisador de contraterrorismo, afirma que essa história deve ser tratada com "grande ceticismo", diante do volume de desinformação em torno da guerra. Segundo Abrahms, é improvável que Israel aceitasse a volta de Ahmadinejad, considerando seu histórico de negacionismo do Holocausto e seu papel no avanço do programa nuclear iraniano. Na visão de Abrahms, Ahmadinejad também não se encaixaria, para Donald Trump, na narrativa de uma mudança de regime bem-sucedida.

Ilan Berman, do American Foreign Policy Council, também considera improvável que EUA e Israel tenham elaborado um plano consistente nesse sentido. Segundo Berman, mesmo que o nome de Ahmadinejad tenha surgido entre possíveis lideranças, dificilmente seria a principal opção.

Já Michael Rubin, do American Enterprise Institute, considerou o relato como "fantasioso" e afirmou que o The New York Times depende demais de fontes anônimas. Ainda assim, ele argumenta que muitos no Ocidente continuam sem entender por que Ahmadinejad conquistou apoio em parte da sociedade iraniana.

No entanto, o jornal The New York Times afirmou na rede social X que "confia plenamente" na reportagem e disse que ela foi baseada em conversas com autoridades americanas, israelenses e iranianas, além de outras fontes familiarizadas com o assunto.

A reação dentro de Israel

Alguns especialistas israelenses em segurança concentraram as críticas no que esse cenário revelaria sobre a visão de Israel a respeito do Irã.

Danny Citrinowicz, do Instituto de Estudos em Segurança Nacional, escreveu na rede social X que qualquer tentativa de "coroar" Ahmadinejad demonstraria uma profunda incompreensão do sistema político iraniano. Segundo Citrinowicz, Ahmadinejad não tem uma base real de poder e jamais contaria com o apoio da Guarda Revolucionária Islâmica, principal força militar de elite do país. Assim, ele só conseguiria chegar ao comando caso toda a atual estrutura de poder iraniana desmoronasse, algo que, segundo Citrinowicz, os ataques americanos e israelenses não conseguiram provocar.

Yossi Melman, veterano analista israelense de segurança, também escreveu no X: "Essa história é absurda em vários níveis." Para Melman, a ideia de que seria possível derrubar o regime por meio de levantes de minorias e ataques aéreos mostraria que os responsáveis pelo planejamento em Israel e nos EUA "viviam em um mundo de fantasia".

Por que o nome de Ahmadinejad apareceu?

Diante de tantas dúvidas, permanece a pergunta: por que Ahmadinejad?

A resposta pode estar na combinação incomum de três características: fama, experiência de dentro do sistema e distanciamento do líder supremo.

Ahmadinejad é uma figura conhecida no Irã, tem experiência à frente do governo, sabe dialogar com parte das camadas populares e conhece os mecanismos de poder da República Islâmica. Ao mesmo tempo, seus conflitos com Khamenei fazem com que ele não seja visto apenas como alguém alinhado ao regime.

Para alguns especialistas em política externa, esse conjunto de características poderia transformá-lo em uma figura útil em um cenário de instabilidade, não como aliado, mas como alguém capaz de ampliar divisões dentro da elite de poder iraniana.

Quem é Ahmadinejad afinal?

Alguns críticos e comentaristas iranianos afirmam que o comportamento de Ahmadinejad ao longo dos anos, da presidência às controversas viagens internacionais, passando pelo silêncio durante a guerra recente, levantou novas dúvidas sobre seu posicionamento político.

Segundo esses críticos, suas políticas contribuíram para o isolamento internacional do Irã, agravaram a crise nuclear e acabaram oferecendo a Israel alguns de seus argumentos mais eficazes contra o Irã. A reportagem do jornal The New York Times reacendeu esse debate.

E essa não seria a primeira vez.

Durante o seu governo, Ahmadinejad consolidou parte de sua legitimidade acusando importantes figuras reformistas e ex-integrantes do alto escalão iraniano de sedição, referência aos protestos em massa que seguiram a contestada eleição de 2009. Depois de deixar o poder, no entanto, a imprensa iraniana noticiou que ele tentou se reconciliar justamente com essas mesmas figuras, chegando até a buscar um encontro com um de seus antecessores, embora a iniciativa nunca tenha se concretizado.

Essa aparente facilidade para mudar de posição e redefinir alianças, em vez de seguir linhas ideológicas rígidas, pode refletir apenas uma tentativa de se movimentar nas disputas internas de poder, e não necessariamente indicar vínculos ocultos com potências estrangeiras. Não há, de fato, nenhuma evidência concreta que ligue Ahmadinejad a Israel ou aos EUA.

Ainda assim, a contradição permanece: um político por anos identificado por sua retórica ferozmente anti-Israel aparece agora, em alguns relatos, como uma possível alternativa para o futuro do Irã, reacendendo uma das dúvidas mais persistentes da política iraniana sobre quem Ahmadinejad realmente é.