Vídeo de Michelle é novo revés para a campanha de Flávio Bolsonaro, diz Financial Times

Michelle sentado em uma mesa com feição séria enquanto fala de Flávio Bolsonaro

Crédito, Reprodução Instagram/Michelle Bolsonaro

Legenda da foto, Vídeos publicados por Michelle Bolsonaro representam revés para a campanha de Flávio, aponta Financial Times
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A guerra aberta nas redes com dois vídeos de Michelle Bolsonaro publicados na quarta-feira (24/06) representa um novo revés na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), afirma reportagem do jornal britânico Financial Times.

O Financial Times destaca que Michelle acusou o filho mais velho do marido de lhe dar uma "apunhalada pelas costas". Nos vídeos, que somam 27 minutos, a mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro responde às cobranças para se empenhar no apoio à pré-candidatura de Flávio.

Em resposta, o senador divulgou um texto em suas redes sociais se desculpando e afirmando que em nenhum momento ofendeu ou teve a intenção de ofender a ex-primeira-dama.

Ainda de acordo com o Financial Times, a briga pública revela uma longa desarmonia entre Michelle e os quatro filhos do ex-presidente, e representa um novo obstáculo para Flávio Bolsonaro.

"Flávio aparecia empatado com Lula em pesquisas até pouco tempo atrás, mas perdeu força após a revelação de que pediu milhões de dólares a um suspeito de fraude para financiar um filme sobre o pai", diz o jornal, ao fazer referência à revelação dos diálogos entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, preso por suspeita de uma fraude bilionária envolvendo o Banco Master.

Flávio Bolsonaro

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Flávio Bolsonaro publicou um pedido de desculpas após vídeo de Michelle

O Financial Times destaca que, embora Jair Bolsonaro ainda seja o principal líder da direita brasileira, Michelle passou a desempenhar um papel político importante.

Ouvido pelo jornal, o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas Eduardo Grin afirma que o episódio é uma "bomba" para Flávio. "O caso mostra que a campanha de Flávio - inclusive em seu núcleo mais próximo - está completamente desunida e fragmentada", avaliou Grin ao jornal britânico.

A agência Bloomberg também destacou o potencial danoso do caso para a campanha de Flávio. A Bloomberg afirma que a briga na família Bolsonaro acontece justamente quando o senador teria uma oportunidade de atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A Bloomberg cita que a briga com Michelle tem potenciais danosos a uma candidatura que precisa consolidar sua presença entre o eleitorado feminino e religioso – justamente duas fatias em que Michelle exerce importante influência.

Segundo a agência, embora aliados do senador tenham tentado minimizar o estrago provocado pelo vídeo, a campanha de Flávio agiu para conter danos e publicou um pedido de desculpas, dizendo que ele jamais desrespeitou mulher e não tinha a intenção de ofender Michelle.

A agência cita que as desavenças entre Michelle e os filhos do ex-presidente não são uma novidade, mas que a briga exposta no vídeo acontece em um momento particularmente inoportuno.

A Bloomberg lembra que, na semana passada o senador Jaques Wagner (PT), aliado do presidente Lula, foi alvo da Polícia Federal em uma operação que também envolve o Banco Master. "Parecia uma oportunidade para Flávio", diz a Bloomberg, ao lembrar a conversa vazada entre o senador e Daniel Vorcaro.

Por fim, a agência cita que a publicação do vídeo de Michelle foi feita no mesmo dia em que Jaques Wagner renunciou ao cargo de líder do governo no Senado, desviando as atenções de um caso que causava desconforto a Lula e voltando os holofotes para a família Bolsonaro.

O que aconteceu?

O desentendimento entre Michelle e Flávio tem origem nas articulações políticas para as eleições no Ceará.

No ano passado, a ex-primeira-dama criticou diretamente a intenção do PL de apoiar Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo governo estadual, decisão que, segundo Flávio Bolsonaro, contaria com a aprovação do pai, dentro de uma estratégia para derrotar o PT no Estado — o governador Elmano de Freitas (PT) disputará a reeleição.

As críticas de Michelle ocorreram em novembro, durante evento de lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao governo do Ceará, político bolsonarista com forte discurso conservador.

No dia seguinte, os irmãos Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro criticaram Michelle, e ela foi chamada de autoritária pelo hoje candidato ao Palácio do Planalto.

Nos vídeos divulgados na quarta pelo Instagram, a ex-primeira-dama disse que sempre atuou com a concordância do marido e chamou as palavras contra ela de "duras" e com "tom agressivo".

"Os irmãos vieram juntos de forma coordenada, com textos bem parecidos uns com os outros. Pareceu combinado, premeditado", continuou.

Segundo Michelle, Flávio não tentou falar com ela antes de criticá-la publicamente e não a atendeu quando ligou para ele após isso.

A presidente do PL Mulher diz que o enteado a telefonou depois que ela pediu publicamente desculpas, ressaltando, na época, ter direito de criticar a aliança com Ciro Gomes, alguém que "sempre se declarou inimigo" de Bolsonaro.

"Algumas horas depois da postagem [de perdão], ele retornou a ligação. Mas sinceramente, para falar o que ele me falou, seria melhor se ele não tivesse ligado. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone, e eu não tinha feito nada contra ele".

"Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço", continuou.

Michelle chegou a ser apontada como possível candidata à vice-presidente numa chapa com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Repúblicanos), antes de Flávio Bolsonaro ser lançado ao Palácio do Planalto.

A expectativa é que ela concorra ao Senado pelo PL no Distrito Federal. Pesquisas de intenção de voto a colocam na liderança, chegando a marcar mais de 30% nas intenções de voto.

Como presidente do PL Mulher, é vista no partido como liderança carismática e importante ativo junto ao público feminino conservador.

Apesar disso, a esposa de Jair Bolsonaro disse que o enteado não fez qualquer movimento de aproximação, após a crise do Ceará, para buscar seu apoio.

"O Flávio vai a minha casa toda semana, mais de uma vez. Se ele realmente quisesse falar comigo, já teria falado. Se considerasse necessário o meu apoio. Já teria conversado. Estou na minha. Continuarei recolhida".

A ex-primeira-dama ressalta ainda no vídeo que, como presidente do PL Mulher desde 2023, tem viajado todo o país articulando lideranças femininas e diz que seu trabalho resultou na eleição de mais mulheres do partido nas eleições de 2024.

"Eu sou a presidente nacional do PL Mulher. Fui convidada pelo meu marido e pelo presidente Valdemar [Costa Neto]. Eu percorri o Brasil inteiro, instalei diretórios em todas as 27 unidades da Federação, ajudei a eleger 1005 mulheres em 2024, um aumento de 45,8% em relação a 2020".

"Mas para ele e alguns que o cercam, eu não entendo de política. Tudo bem, eu me recolhi e, desde esse dia, ele não me procurou mais. Eu também não procurei porque estou respeitando o que ele falou. E é só isso", reforçou.

Para Michelle, seus adversários a tratam como idiota.

"Agora, vou desmentir as narrativas e notícias que circulam na imprensa. Eu sei quem as planta, eu sei quem são as fontes. Eles me tratam como se eu fosse idiota, como se eu fosse alguém que chegou ontem. Mas eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam".

O pedido de desculpas de Flávio

Após os vídeos publicados por Michelle, Flávio pediu desculpas a ela em um texto divulgado também em suas redes sociais.

O senador afirmou que na própria quarta-feira, antes de Michelle publicar suas acusações nas redes sociais, ele tentou ligar para a madrasta para convidá-la "de coração aberto" para uma reunião com lideranças femininas conservadoras, mas não foi atendido.

"Hoje (quarta) pela manhã, eu mesmo fiz questão de ligar para Michelle e convidá-la, pessoalmente. Fiz mais um gesto não correspondido. Não atendeu. Deixei mensagem. Também não retornou", contou.

"Para minha surpresa, na tarde de hoje ela publicou o vídeo."

Segundo Flávio, a reunião com as lideranças femininas está mantida "para tratar justamente das soluções que proporemos para milhões de mulheres brasileiras que acordam cedo, trabalham, cuidam dos filhos e das famílias".

Ainda segundo o senador e pré-candidato à Presidência, "o convite segue de pé e o coração segue aberto, pois temos um Brasil para tirar das mãos do PT".

"O Brasil precisa de maturidade, serenidade e unidade. Vamos concentrar nossas energias naquilo que realmente importa: construir um futuro melhor para todos os brasileiros!", diz no texto.

A disputa no Ceará

Eduardo Girão, Michelle e Priscila Costa rezam em evento político

Crédito, Edilson Freire/BBC

Legenda da foto, Michelle Bolsonaro ao lado de seus aliados, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) e a vereadora de Fortaleza Pricilla Costa (PL-CE), vice-presidente do PL Mulher

Em seus dois vídeos, Michelle dá detalhes sobre a briga do PL do Ceará, que envolve não só a disputa pelo governo do Estado, mas as eleições para o Senado.

Ela defende que, no primeiro turno, o PL apoie Girão para o governo estadual.

"Não é questão de política, é questão de coerência. Ciro Gomes foi o principal responsável pelo processo que levou à inelegibilidade do meu marido durante a pandemia. Numa live com outros esquerdistas, ele incentivou e conclamou as pessoas a chamarem o meu marido de genocida e pediu que repetissem isso o tempo todo. Ele chamou o meu marido de ladrão de galinhas, de corrupto, de burro, de jumento".

"Disse que Bolsonaro roubava a gasolina. Disse que as esposas de Bolsonaro seriam todas ladras. Disse que os filhos do meu marido, os meus enteados, eram corruptos, que eram ladrões, e deu a eles um apelido: ovos de serpentes nazistóides. Essas foram as palavras de Ciro Gomes sobre os filhos do meu marido".

Ela defendeu que eventual aliança com Ciro Gomes ocorra apenas no segundo turno.

"Não estou exigindo que se desfaça nenhuma aliança no Ceará, mas que a adie para o segundo turno. Eu sou contra ela, mas essa é apenas a minha convicção. Se a direita quer se unir para derrotar o PT, tudo bem. Mas a coerência obriga que isso aconteça apenas no segundo turno", defendeu.

Na disputa pelo Senado, a ex-primeira-dama apoia Priscila Costa (PL), vereadora mais votada de Fortaleza em 2024. Seu desejo é que ela dispute uma das duas vagas para o Senado, ao lado de Alcides Fernandes (PL), pai de André Fernandes (PL), deputado federal mais votado no Ceará em 2024.

Dentro da negociação para a aliança com Ciro Gomes, porém, André Fernandes, que preside o PL no Ceará, quer manter a candidatura de seu pai, que disputaria com outro nome indicado por outro partido. Priscila Costa, então, não disputaria o Senado.

"É para se unir a esse homem [Ciro Gomes] que o PL do Ceará está abandonando um candidato legítimo da direita? É para se unir a esse homem que estão perseguindo e tentando retirar da disputa uma mulher nordestina, mãe de quatro filhos, que dedicou tudo ao movimento em defesa da vida?", questiona Michelle.

"Já que a aliança com Ciro é tão boa, por que o André não disponibiliza a vaga do seu próprio pai? Estranho, né? Por que só a mulher tem que ceder? Não dá para aceitar", disse ainda.

A ex-primeira-dama disse ainda que tem apoio do seu marido na oposição à aliança com Ciro e no apoio à Priscila Costa.

"Que fique registrado para sempre. Enquanto ainda estava preso no 19.º batalhão, o meu marido mandou um recado claro que foi repassado à direção do partido e ao senador Rogério Marinho. Ele disse: Priscila será candidata".