Tumor com menos de 1 centímetro fez adolescente ganhar 40 quilos em 6 meses

Crédito, Arquivo pessoal
- Author, André Biernath
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
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Torcedor do Athletico-PR e praticante de muay thai, o adolescente Gustavo de Oliveira, atualmente com 16 anos, viu seu corpo mudar de forma rápida e drástica, mesmo para alguém que está em fase de crescimento.
No começo de 2025, ele tinha menos de 70 quilos. No final desse mesmo ano, o peso dele chegou a bater os 113 kg.
Por trás dessa mudança súbita, havia um pequeno tumor benigno, instalado na base do crânio, que bagunçou completamente a fabricação do cortisol, um hormônio fundamental para o funcionamento do organismo.
E a descoberta desse tumor aconteceu quase que por acaso.
Roxo no tornozelo
A recepcionista Silmara de Oliveira, mãe de Gustavo, percebeu que havia algo de errado com a saúde do filho em junho de 2025.
Ele se queixava de dores de cabeça por alguns dias, então resolveu medir a pressão arterial com um aparelho que a família tem em casa, em Curitiba.
E o resultado mostrou que a pressão dele estava alterada.
"Nós achamos que o aparelho poderia estar com algum defeito", lembra Silmara.
"Mas, ao mesmo tempo, ele já vinha com o aumento de peso e muito apetite, chegava a comer três pratos por refeição."
Após passar por consultas com médicos e nutricionistas, a família fez alguns ajustes na dieta — Gustavo já praticava bastante exercício, e chegava a fazer três aulas de muay thai por semana.
"Só que, quanto mais a gente cuidava da alimentação, mais ele engordava", diz a mãe.
A saúde de Gustavo continuou a piorar, até que um evento aleatório levou Gustavo de volta ao médico: em setembro de 2025, ele sofreu uma lesão no tornozelo durante uma sessão de muay thai.
Como a pele dele ficou bem roxa, a mãe resolveu levá-lo a um pronto-socorro.
"Ele fez uma radiografia, mas não havia nenhuma fratura", relata Silmara.
Mas o quadro de saúde de Gustavo fez a médica do pronto-socorro pedir para mãe e filho voltarem no outro dia, para uma avaliação mais aprofundada.

Crédito, Divulgação/Hospital Pequeno Príncipe
Diagnóstico raro
Eles foram então encaminhados ao Hospital Pequeno Príncipe, que é referência em atendimento pediátrico no Paraná.
Gustavo lembra como estava condição física dele naquela época.
"Eu não conseguia andar na rua, não conseguia fazer nada, porque sentia que ia morrer, não dava para respirar", descreve ele.
No hospital, Gustavo foi submetido a uma série de exames, para que os médicos pudessem confirmar ou descartar as hipóteses que explicariam a situação do adolescente.
Cerca de um mês depois, em meados de outubro, os profissionais de saúde finalmente encontraram a resposta para esse mistério.
Gustavo estava com a doença de Cushing, uma condição considerada rara.
Estimativas internacionais calculam um novo caso da enfermidade para cada 1 milhão de crianças a cada ano.
"Quando os médicos nos informaram sobre o diagnóstico, tudo fez sentido, parece que toda a história se encaixou, sabe?", rememora Silmara.

Crédito, Divulgação/Hospital Pequeno Príncipe
O que é a doença de Cushing?
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Em resumo, a doença de Cushing acontece quando uma pessoa desenvolve um tumor benigno na hipófise, uma glândula que fica na base do cérebro e produz um hormônio chamado ACTH.
O ACTH estimula a fabricação de um outro hormônio, o cortisol, nas glândulas suprarrenais, que ficam em cima dos rins.
Nos pacientes com doença de Cushing, acontece uma produção muito alta de cortisol.
"Esse excesso de cortisol provoca uma série de alterações no paciente. Como a gente viu no caso do Gustavo, acontece um ganho de peso excessivo, um inchaço, o rosto fica mais arredondado, acumula gordura no tórax…", lista o neurocirurgião Carlos Mattozo, do Hospital Pequeno Príncipe.
O médico relata que, em quase 30 anos de carreira, só havia tratado quatro casos dessa enfermidade.
O tratamento padrão nesses casos é a cirurgia, para remover o tumor da hipófise.
Gustavo confessa que a notícia de que precisaria ir para a sala de operação o deixou triste e com medo.
"Porque, quando se fala em cirurgia, a gente pensa que vão abrir a cabeça assim, no meio, para conseguir tirar o tumor", raciocina ele.
A boa notícia é que, nesses casos, a cirurgia que trata a doença de Cushing não envolve um corte sequer: tudo é feito pelos buracos do nariz, com a ajuda de câmeras de fibra ótica e ferramentas pequenas.
"Existe um osso atrás do nariz que se chama esfenoide. Ele é oco, então é possível perfurá-lo e automaticamente já estamos de frente para a região da glândula hipófise", detalha Mattozo.

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Cirurgia e recuperação de Gustavo
A cirurgia de Gustavo foi realizada em dezembro de 2025, durou cerca de duas horas, e foi considerada um sucesso.
Segundo os médicos que fizeram todo o acompanhamento, o adolescente evoluiu bem e teve alguns efeitos colaterais já esperados para casos como esse: além de prostração e um pouco de dor de cabeça, Gustavo também sofreu com uma desregulação dos níveis de cortisol.
"Antes da cirurgia, as glândulas suprarrenais dele estavam sob um comando anormal, que fazia com que ele produzisse um excesso de cortisol. Na hora em que retiramos o tumor, esse estímulo deixou de acontecer, então o organismo ficou um pouco perdido e reduziu subitamente a produção do cortisol", justifica Mattozo.
Agora, Gustavo está fazendo exames e reposições hormonais até que o corpo encontre esse novo equilíbrio entre hipófise e glândulas suprarrenais.
O excesso de peso e de cortisol deixou algumas marcas na saúde dele, principalmente no fígado, nos olhos, no coração e na pressão arterial.
Durante o primeiro semestre de 2026, o adolescente já perdeu cerca de 15 quilos.
Em relação à doença de Cushing, ele é considerado um paciente em remissão.
Na prática, isso significa que ele precisará fazer um acompanhamento uma vez ao ano, para garantir que o tumor não volte e precise ser removido novamente.

Crédito, Divulgação/Hospital Pequeno Príncipe
Demora no diagnóstico
Para Mattozo, casos como o do Gustavo chamam a atenção para a necessidade de os médicos ficarem atentos ao paciente e desconfiarem dos diagnósticos que pareçam mais óbvios.
"Sou professor universitário e oriento meus alunos a estudarem bastante e terem sempre na cabeça várias possibilidades de doença que podem estar por trás daqueles sintomas", diz ele.
"No caso da doença de Cushing, estima-se que os pacientes demorem dois anos para ter o diagnóstico. Nesse meio tempo, eles são submetidos a tratamentos que não vão dar resultado", complementa o neurocirurgião.
Silmara reforça que isso poderia ter acontecido com o próprio Gustavo.
"Se ele não tivesse tido essa lesão no tornozelo, talvez a gente nem soubesse ainda que ele tem hoje em dia", especula ela.
"E isso aconteceu graças à profissional de saúde que teve esse olhar amplo. Ela poderia ter só tratado a perna dele e ignorado todo o resto", complementa a mãe.
Para alguns pacientes, esse tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico correto chega a ser fatal: o ganho de peso, as alterações na pressão arterial e os danos a órgãos vitais, caso do fígado, pode desembocar em desfechos graves, como um infarto.
Por esse e outros motivos, Gustavo decidiu falar abertamente sobre a doença que precisou enfrentar, para alertar pessoas que podem estar diante de algo parecido.
"Espero que outros não precisem passar pelo que eu passei, e possam tratar o tumor antes de aparecerem de os sintomas de ganho de peso e pressão alta piorarem", diz ele.




























