Os novos vídeos que indicam possível papel de agente da Arábia Saudita no 11 de Setembro

Um homem usando uma camisa lilás está sentado a uma mesa coberta de documentos.

Crédito, SDNY

Legenda da foto, Bayoumi sentado em seu escritório em uma mesquita em San Diego, que ele fundou com dinheiro de doadores sauditas e apoio do Ministério dos Assuntos Islâmicos
    • Author, Jane McMullen
    • Role, BBC Panorama e Radio 4
  • Published
  • Tempo de leitura: 15 min

O homem no centro de um processo de US$ 1 trilhão movido por familiares das vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 tinha amplas ligações com autoridades do governo da Arábia Saudita e participou de partidas de paintball com um dos futuros líderes da al-Qaeda, revelam vídeos obtidos pela BBC.

As imagens, que o FBI tinha em sua posse poucos dias após os ataques de 2001, contrastam fortemente com os 25 anos de negativas de Omar al-Bayoumi de que ele fosse extremista ou espião saudita.

Bayoumi, que afirmava ser estudante quando esteve nos EUA, aparece em um vídeo abraçando Anwar al-Awlaki, que mais tarde lideraria a al-Qaeda na Península Arábica. Em outro, Bayoumi e Awlaki jogam paintball perto de San Diego com um funcionário do Ministério dos Assuntos Islâmicos da Arábia Saudita.

Os vídeos fazem parte do processo movido pelas famílias das vítimas do 11 de Setembro contra a Arábia Saudita e nunca haviam sido exibidos publicamente.

A ação judicial argumenta que a Arábia Saudita foi cúmplice dos ataques e que Bayoumi ajudou dois dos 19 sequestradores que pilotaram aviões contra o World Trade Center e o Pentágono e outro que caiu na Pensilvânia.

Bayoumi foi preso no Reino Unido pela polícia de Londres poucos dias após os ataques, e os vídeos foram encontrados entre seus pertences, juntamente com outras evidências cruciais.

Entre elas estava um diagrama de um avião acompanhado por uma equação matemática que expressa a descida de voo.

Vários agentes do FBI receberam cópias do diagrama, mas ele nunca foi compartilhado com os investigadores britânicos que interrogaram Bayoumi, embora tivesse sido enviado por mensageiro à delegacia onde ele estava detido.

O diagrama também foi mantido fora do alcance de alguns agentes do FBI que investigavam Bayoumi, bem como da Comissão do 11 de Setembro — a investigação independente sobre o maior assassinato em massa da história dos EUA, no qual quase 3 mil pessoas morreram. Bayoumi jamais foi processado.

Nem ele nem o governo saudita responderam aos pedidos de comentário da BBC, mas ambos sempre negaram qualquer envolvimento ou conhecimento prévio dos ataques. O FBI declarou que não se pronunciaria sobre o caso.

Depois que um juiz decidiu, em 2018, que o processo poderia prosseguir, milhares de documentos, além de vídeos e fotografias, foram apresentados ao tribunal e tiveram o sigilo retirado por meio de uma ordem executiva emitida pelo ex-presidente Joe Biden.

A BBC examinou esses documentos e conversou com dezenas de agentes especiais e investigadores para rastrear as evidências que o FBI reuniu sobre Bayoumi e o suposto envolvimento da Arábia Saudita no 11 de Setembro, e para entender por que elas nunca foram completamente investigadas ao longo de 25 anos.

Nossa investigação também constatou:

  • O diagrama do avião foi enviado ao escritório do FBI em Nova York e analisado, segundo uma fonte do FBI. Mas uma autoridade do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) disse à BBC que nunca lhe foi apresentada uma proposta para processar Bayoumi com base nessa evidência, embora "já tenhamos condenado pessoas por menos".
  • Agentes do FBI em San Diego, onde Bayoumi viveu nos EUA, solicitaram repetidamente cópias de evidências, mas nunca receberam a maior parte delas.
  • Os escritórios do FBI em San Diego e Los Angeles foram impedidos de entrevistar contatos de Bayoumi ligados ao governo saudita.
  • Integrantes da Comissão do 11 de Setembro se opuseram à avaliação de que era "improvável" que Bayoumi tivesse envolvimento com extremistas, o que levou o relatório a esclarecer que essa conclusão refletia a opinião dos "nossos investigadores que lidaram diretamente com ele".

Paintball para 'treinamento para a jihad'

Omar al-Bayoumi chegou a San Diego vindo da Arábia Saudita em 1994. Ele afirmou estar estudando inglês, mas registros judiciais mostram que, após alguns anos, havia na prática abandonado os estudos.

Era mais frequentemente visto organizando eventos religiosos, muitas vezes com uma filmadora colada ao olho.

Um vídeo gravado por Bayoumi de 1997 ou início de 1998 mostra homens, incluindo Anwar al-Awlaki, jogando paintball. Filmado perto de San Diego, o grupo participa de simulações de combate urbano e práticas de tiro ao alvo, muitos usando uniformes militares.

Em determinado momento, alguns homens avançam para a batalha gritando "Allahu Akbar" ("Deus é maior", em árabe). Um xeque saudita visitante está com o grupo, e Bayoumi também pode ser ouvido dirigindo-se a Anwar al-Awlaki pelo título honorífico de "Xeque Anwar".

Quatro imagens quadradas em uma composição, granuladas e de baixa qualidade, de uma sessão de paintball. Há duas imagens (superior esquerda e inferior direita) de grupos de homens. As imagens superior direita e inferior esquerda mostram rostos de homens. O homem na imagem inferior esquerda usa uma máscara.

Crédito, SDNY

Legenda da foto, Imagens granuladas de uma partida de paintball filmada por Bayoumi, com Anwar al-Awlaki no canto superior direito

O paintball se tornou um tema de interesse nas investigações antiterrorismo do FBI após o 11 de Setembro. O Departamento de Justiça utilizou evidências relacionadas ao paintball em diversos processos por terrorismo.

Omar al-Bayoumi e Anwar al-Awlaki participaram de sessões de paintball em San Diego por pelo menos três anos no fim da década de 1990 e no início dos anos 2000.

Quando o FBI investigou o caso após o 11 de Setembro, agentes foram informados de que alguns participantes usavam essas atividades como treinamento para a jihad.

Embora a pregação extremista de Awlaki tenha ganhado mais destaque após o 11 de Setembro, na época em que o vídeo foi gravado ele já tinha ligações com agentes da al-Qaeda e estava prestes a ser investigado pelo FBI. Ele foi morto em um ataque de drone da CIA em 2011.

A Arábia Saudita afirmou que o vídeo do paintball não revela quem o "produziu" ou "gravou".

Quando foi interrogado remotamente no âmbito do processo movido pelas famílias das vítimas do 11 de Setembro, em 2021, Bayoumi insistiu que não conhecia Awlaki. A evidência em vídeo que contradizia sua afirmação só foi disponibilizada confidencialmente ao tribunal um ano depois e incluída nos registros públicos em 4 de setembro deste ano.

Outro vídeo anteriormente não divulgado mostra Bayoumi abraçando Awlaki em janeiro de 1998. Imagens adicionais registram os numerosos encontros de Bayoumi com autoridades e pregadores do Ministério dos Assuntos Islâmicos de Riad. Ele aparece em um vídeo com dois funcionários do ministério, um deles segurando uma prancheta, no SeaWorld. Bayoumi entrega a câmera ao filho e corre para entrar na cena e registrar sua presença ao lado deles.

Uma composição de dois fotogramas de vídeo mostrando dois homens, um de terno e outro com vestimentas árabes. A imagem superior mostra os homens prestes a se abraçar. A inferior mostra o momento do abraço.

Crédito, SDNY

Legenda da foto, Imagens de outro vídeo mostram Bayoumi e Awlaki se abraçando

O Ministério dos Assuntos Islâmicos, criado em 1993, era visto como dominado por clérigos que defendiam uma visão radical do islamismo sunita e a propagavam pelo mundo.

O ministério gastou centenas de milhões de dólares em todo o mundo na construção de mesquitas e enviou dezenas de funcionários aos EUA, alguns dos quais supervisionavam uma rede de pregadores com posições rigorosas.

Diagrama de avião encontrado em Birmingham

Após os ataques de 11 de Setembro, Omar al-Bayoumi surgiu como um dos primeiros suspeitos na investigação do FBI.

Seu nome foi encontrado em um contrato de aluguel assinado pelos dois primeiros sequestradores a chegar aos EUA, Nawaf al-Hazmi e Khalid al-Mihdhar, integrantes de uma equipe de cinco sequestradores que lançou o avião contra o Pentágono.

O FBI localizou Bayoumi em Birmingham, no Reino Unido, para onde ele havia se mudado com a família antes do 11 de Setembro.

Em 21 de setembro de 2001, agentes da unidade de operações especiais da Divisão Antiterrorismo da Polícia Metropolitana (a polícia de Londres) prenderam Bayoumi em uma de suas propriedades.

Ele foi levado com escolta policial até a delegacia de Paddington Green, em Londres, onde detetives começaram a interrogá-lo. Pela legislação britânica da época, os investigadores só podiam mantê-lo detido por sete dias sem apresentar acusação formal.

Imagem estática de um vídeo mostrando uma pequena casa geminada de meados do século XX em Birmingham, com cortinas rendadas e uma antena parabólica. Uma van da polícia está estacionada do lado de fora, bloqueando a porta da frente, e dois policiais estão ao lado do edifício, com os braços cruzados.
Legenda da foto, Bayoumi teve seus endereços em Birmingham revistados pela polícia britânica

Na manhã seguinte, em Birmingham, os policiais iniciaram o meticuloso processo de catalogar e embalar as evidências encontradas em suas propriedades: um acervo de muitas milhares de páginas de documentos, centenas de fotografias, canhotos de passagens aéreas, cartões telefônicos e sacolas e caixas contendo pelo menos 80 fitas de vídeo.

Poucas horas após o início das buscas, vários itens classificados como de máxima prioridade por orientação do FBI foram levados diretamente pela polícia para Paddington Green, onde o FBI havia destacado um agente.

Entre as evidências estavam uma agenda telefônica contendo mais de duas dezenas de nomes de autoridades do governo saudita nos EUA e na Arábia Saudita; software de simulador de voo; passagens e documentos de viagem; e uma folha amarela pautada de um caderno com o esboço de um avião, sobre a qual um policial anotou: "contém notas manuscritas com cálculos matemáticos sobre altura de aviões".

Um pedaço de papel amarelo pautado com anotações manuscritas de grafia rudimentar, mostrando várias equações e um desenho simples de um avião com eixos pontilhados identificados pelas letras h e d. H representa a altura do avião em relação à Terra, em milhas. D representa a distância entre o avião e o horizonte.

Crédito, SDNY

Legenda da foto, Uma nota encontrada na casa de Bayoumi continha cálculos sobre a descida de um avião

Dezoito anos depois, o FBI entregaria a folha do caderno ao tribunal no processo movido pelas famílias das vítimas do 11 de Setembro após uma intimação judicial. A página veio a público em 2022.

"É o cálculo matemático da colisão", disse à BBC Jodi Westbrook Flowers, integrante da equipe jurídica das famílias das vítimas do 11 de Setembro.

"Quando descobrimos do que se tratava, soubemos que era a prova decisiva que estávamos procurando."

A equação, escrita à mão por Omar al-Bayoumi, indica a altura e a distância necessárias para que um piloto conduza um avião até um determinado objeto em solo. Abaixo há um pequeno desenho de um avião e uma sequência de números.

No ano passado, o juiz federal responsável pelo processo concluiu que a página do caderno, à primeira vista, "liga Bayoumi ao conhecimento dos ataques de 11 de Setembro".

Em 2021, ao ser questionado sobre ela pelo tribunal, Bayoumi disse que possuía o diagrama porque gostava de escrever equações e não conseguia se lembrar de quando a havia escrito.

Jodi Westbrook Flowers, uma mulher de cabelos loiros na altura dos ombros, usando um casaco escuro sobre uma blusa escura, fala em seu escritório de advocacia em Charleston, Carolina do Sul. Ao fundo, desfocado, aparecem certificados emoldurados e fotografias sobre as prateleiras.
Legenda da foto, O diagrama do avião foi 'a prova decisiva', afirma a advogada das famílias das vítimas do 11 de Setembro, Jodi Westbrook Flowers

Na noite de 22 de setembro de 2001, cópias do diagrama do avião estavam em Londres nas mãos tanto do FBI quanto da polícia antiterrorismo britânica, a poucos metros da área de custódia onde Omar al-Bayoumi estava sendo interrogado.

Registros mostram que, nos dois dias seguintes, o documento passou pelas mãos de pelo menos outros três agentes do FBI.

Mas é aqui que o mistério começa. O FBI orientou os policiais da Polícia Metropolitana de Londres a questionarem Bayoumi sobre os outros itens de máxima prioridade, mas os detetives responsáveis pelo interrogatório nunca receberam o diagrama do avião nem foram informados sobre ele.

Muitos agentes do FBI nos disseram que o período imediatamente após o 11 de Setembro foi um frenesi ininterrupto. Ainda assim, é difícil entender como uma evidência dessa importância, em um caso tratado com considerável urgência, não foi colocada nas mãos dos detetives encarregados do interrogatório.

O FBI afirmou que não responderia às perguntas da reportagem da BBC. A Polícia Metropolitana de Londres informou que não poderia comentar por causa do processo judicial em andamento.

Sacolas cheias de fitas de vídeo

Pouco depois de o diagrama do avião ter sido enviado para Paddington Green, todos os vídeos de Bayoumi, incluindo as imagens das partidas de paintball, foram levados de Birmingham para a New Scotland Yard, a sede da polícia de Londres, para serem copiados.

Em 24 de setembro, a área de custódia localizada a cerca de um quilômetro de distância, em Paddington Green, já tinha acesso às fitas de vídeo. Os detetives levaram as sacolas com as fitas para a sala onde Bayoumi estava sendo interrogado, e parte das imagens foi exibida a ele.

Ele foi questionado sobre duas fitas que mostravam uma reunião, mas os policiais britânicos não receberam orientação do FBI para interrogá-lo sobre o vídeo da partida de paintball nem sobre sua associação com Anwar al-Awlaki.

No último dia antes de Bayoumi precisar ser formalmente acusado ou libertado, os detetives da Polícia Metropolitana participaram de uma teleconferência com vários altos funcionários do Departamento de Justiça dos EUA e do FBI.

A BBC conversou com dois participantes da reunião. Um deles recorda que os detetives britânicos apresentaram as evidências que acreditavam atender aos requisitos para que os americanos solicitassem a extradição de Bayoumi para responder a acusações nos EUA.

A resposta dos representantes do Departamento de Justiça foi que não haveria pedido de extradição porque as evidências eram insuficientes.

Em 28 de setembro de 2001, Bayoumi foi libertado.

Mas, naquele momento, o FBI ainda não havia enviado aos EUA todas as evidências encontradas em Birmingham, muito menos concluído uma análise exaustiva desse material.

Um memorando do adido jurídico do FBI em Londres enviado duas semanas depois observava que ainda havia "vários vídeos, disquetes e documentos por examinar".

'Já condenamos pessoas por menos'

Após a libertação de Omar al-Bayoumi, os agentes continuaram analisando as evidências contra ele.

A BBC apurou que o diagrama do avião foi enviado de Londres para análise no escritório do FBI em Nova York, que coordenava a investigação do 11 de Setembro.

Mas não conseguimos localizar quaisquer registros dessa análise nem de suas conclusões. Uma ordem presidencial de 2021 exigiu que o FBI retirasse o sigilo de arquivos relacionados às investigações do 11 de Setembro, incluindo aqueles envolvendo Bayoumi.

No entanto, entre os arquivos divulgados, o FBI produziu apenas um documento que menciona o diagrama, apesar de sua importância probatória, e esse documento só foi elaborado 11 anos após a descoberta inicial do diagrama, em 2001.

O diagrama parece ter desaparecido em um buraco negro.

Ele não foi encaminhado para San Diego, onde Bayoumi havia vivido nos EUA e onde o escritório local do FBI também o investigava.

Na verdade, San Diego — onde os agentes entrevistavam seus colegas e colaboradores, revistavam sua mesquita e analisavam seus registros telefônicos e extratos bancários — não recebeu quase nenhuma das volumosas evidências apreendidas pela Polícia Metropolitana em Birmingham.

Rick Lambert, que comandava a investigação do FBI em San Diego, disse à BBC que seu escritório fez repetidos pedidos a Nova York para que enviassem cópias de todas as evidências.

"A posição deles era: estamos encarregados do caso; enviaremos o material quando terminarmos a análise."

Lambert afirmou que Nova York não atendeu aos pedidos de seu escritório.

"Acredito que existe a possibilidade de que, se tivéssemos recebido essas evidências e as analisado, teríamos conseguido montar as peças do quebra-cabeça muito mais rapidamente."

Documentos mostram que, na primavera de 2002, o escritório de San Diego conseguiu obter cópias de algumas fitas de vídeo não por meio de Nova York, mas através do representante do FBI em Londres.

O que aconteceu com o vídeo de paintball é igualmente curioso.

Uma cópia da fita foi enviada ao escritório do FBI em Nova York, onde foi assistida, segundo nos contou um agente. Mas ela não foi incluída nos resumos do escritório que documentavam as ligações extremistas de Bayoumi.

Memorandos do FBI e do Departamento de Justiça de 2002 consultados pela BBC discutiam materiais apreendidos nas casas de Bayoumi em Birmingham que poderiam "demonstrar os sentimentos e crenças antiamericanos de Omar al-Bayoumi" e escritos do próprio Bayoumi que "podem ser interpretados como jihadistas".

Mas não havia qualquer menção ao vídeo de paintball nem à ligação de Bayoumi com Anwar al-Awlaki.

Jeffrey Breinholt, um homem com cabelos grisalhos nas laterais da cabeça e uma barba cavanhaque grisalha, usando terno azul-escuro e camisa azul-clara aberta no pescoço, reclina-se na cadeira durante uma entrevista.
Legenda da foto, Jeffrey Breinholt, que supervisionava os promotores ligados às investigações do 11 de Setembro, disse que Bayoumi parecia ser uma das 'principais possibilidades' para apresentação de acusações

Jeffrey Breinholt, então diretor-adjunto de contraterrorismo do Departamento de Justiça, responsável por supervisionar os promotores que trabalhavam em acusações de terrorismo após o 11 de Setembro, disse à BBC que o nome de Bayoumi havia surgido "como uma das principais possibilidades para apresentação de acusações".

Mas ele afirmou que o escritório da Promotoria Federal de Nova York jamais enviou acusações para ele ou seus colegas aprovarem. Caso isso tivesse acontecido, o diagrama do avião teria sido uma evidência significativa contra Bayoumi, disse.

"Já condenamos pessoas por menos."

O vídeo de paintball, acrescentou Breinholt, é outra "evidência muito reveladora", e a presença de Anwar al-Awlaki é "extremamente significativa".

"Como gestor que analisou muitas propostas de processos por terrorismo ao longo dos anos, posso dizer que isso teria chamado muita atenção. Acho que haveria uma acusação por apoio material contra Bayoumi."

Nenhuma acusação foi apresentada contra Bayoumi.

Rick Lambert, um homem com cabelos grisalhos nas laterais da cabeça e óculos ovais sem aro, fotografado em close com profundidade de campo reduzida, usando um terno escuro e gravata, olhando para baixo diante de uma parede sem adornos.
Legenda da foto, Rick Lambert, que comandou a investigação do FBI sobre o 11 de Setembro em San Diego, afirmou que foi impedido de entrevistar autoridades sauditas

Os agentes que tentaram investigar Omar al-Bayoumi encontraram outros obstáculos.

Em outubro de 2001, em San Diego, Lambert e seus colegas queriam entrevistar várias autoridades sauditas nos EUA, muitas delas ligadas ao Ministério dos Assuntos Islâmicos, que eles suspeitavam ter coordenado a ajuda que Bayoumi prestou a dois dos sequestradores, Nawaf al-Hazmi e Khalid al-Mihdhar.

Como diplomatas possuem um status especial de proteção, os agentes precisavam de autorização da sede do FBI e do Departamento de Estado.

"A resposta foi: 'não, vocês não vão fazer isso'", contou Lambert, que hoje atua como consultor das famílias das vítimas do 11 de Setembro em sua ação judicial.

Agentes em Los Angeles tiveram experiência semelhante no ano seguinte, quando solicitaram autorização para entrevistar um diplomata religioso saudita com quem Bayoumi havia se encontrado imediatamente após seu primeiro contato com Hazmi e Mihdhar na cidade.

"Batemos em uma barreira tão forte que todos nós parecíamos ter ficado com 'marcas de airbag'", disse Steve Moore, que supervisionou a investigação do FBI sobre o 11 de Setembro em Los Angeles.

Moore afirma que sua equipe fez repetidos pedidos para entrevistar a autoridade, mas a autorização nunca foi concedida.

Assim como o FBI, o Departamento de Estado afirmou à BBC que não se pronuncaria.

Jantar com a polícia secreta saudita

Em outubro de 2003, a Comissão do 11 de Setembro, criada pelo Congresso para fornecer um relato "completo e abrangente" dos ataques, entrevistou Omar al-Bayoumi em Riad. Ele havia retornado à Arábia Saudita nos meses seguintes à sua libertação pela polícia britânica.

A entrevista foi conduzida na presença da polícia secreta saudita pelo diretor executivo da Comissão, Philip Zelikow, ex-assessor do presidente George W. Bush, juntamente com um funcionário graduado da comissão e um agente da sede do FBI.

As anotações da Comissão da época indicam que Bayoumi recebeu garantias incomuns durante o depoimento. Segundo os registros, ele "foi informado de que ninguém acreditava que tivesse ajudado conscientemente os sequestradores a levar adiante seu plano terrorista".

Bayoumi respondeu indignado, dizendo que era um homem pacífico que havia se tornado "uma vítima das vítimas". Durante a entrevista, a delegação interrompeu os trabalhos para participar de um jantar com vários pratos oferecido pelo Mabahith, a polícia secreta saudita, sem a presença de Bayoumi.

Após o término da entrevista, o Mabahith disse à delegação americana que "gostaria de vê-lo inocentado". Os americanos responderam que nenhuma absolvição seria possível antes da publicação do relatório.

Quando o Relatório da Comissão do 11 de Setembro foi publicado, em julho de 2004, Bayoumi foi, na prática, inocentado. O documento o descreveu como "prestativo e sociável" e afirmou que não havia evidências de que tivesse visões extremistas.

Mas alguns integrantes da comissão não estavam convencidos da inocência de Bayoumi e consideravam provável que ele soubesse que Hazmi e Mihdhar eram integrantes da al-Qaeda.

A BBC revelou que esses integrantes se opuseram a uma frase do relatório que concluía que ele era "um candidato improvável para envolvimento clandestino com extremistas islamistas".

Ao final, chegou-se a um acordo intermediário, e essa conclusão foi atribuída a "nossos investigadores que lidaram diretamente com ele e estudaram seu histórico".

Uma imagem composta mostra as fotografias das carteiras de motorista de Nawaf al-Hazmi e Khalid al-Mihdhar.

Crédito, SDNY

Legenda da foto, Nawaf al-Hazmi e Khalid al-Mihdhar

A frase foi redigida com base nas quatro horas e meia que a delegação da comissão passou com Bayoumi, incluindo a interrupção para o jantar.

A comissão nunca teve acesso ao diagrama do avião, ao vídeo do paintball, às evidências escritas do suposto extremismo de Bayoumi nem a grande parte das demais provas apreendidas pela Polícia Metropolitana.

Philip Zelikow não respondeu às perguntas que lhe fizemos. Ele disse à BBC que as conclusões da Comissão do 11 de Setembro foram objeto de duas revisões governamentais, em 2015 e 2021, e que a comissão foi "transparente sobre nossas suspeitas e incertezas. Tivemos cuidado ao apontar cumplicidade em assassinato em massa".

O Departamento de Justiça afirmou que não podia comentar questões e decisões de 25 anos atrás envolvendo funcionários que já não trabalham no órgão.

A chefe da investigação do FBI sobre o 11 de Setembro, Mary Galligan, declarou anteriormente que a comissão teve "acesso a tudo".

Tentamos entrar em contato com Omar al-Bayoumi por intermédio do governo saudita, mas ele não respondeu. Anteriormente, ele negou saber que Hazmi e Mihdhar eram sequestradores, negou ter sido um espião saudita e negou qualquer envolvimento no 11 de Setembro.

O Reino da Arábia Saudita não respondeu ao nosso pedido de comentário. Em ocasiões anteriores, afirmou que qualquer alegação de que a Arábia Saudita ou seus funcionários tenham sido cúmplices dos ataques de 11 de Setembro é categoricamente falsa.