Direita radical na Alemanha caminha para vitória estadual inédita desde a 2ª Guerra Mundial

O principal candidato do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), Ulrich Siegmund, junto com os co-líderes do partido, Alice Weidel e Tino Chrupalla, reagem após o encerramento das urnas, no dia das eleições estaduais da Saxônia-Anhalt.

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Uma multidão de apoiadores na sede da festa da AfD na noite da eleição explodiu em comemorações quando as projeções positivas apareceram na tela
    • Author, Paul Kirby
    • Role, BBC News
    • Author, Jessica Parker
    • Role, Correspondente da BBC em Madeburgo
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  • Tempo de leitura: 5 min

O partido alemão AfD caminha para uma grande vitória no estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, muito à frente de seus principais rivais, segundo pesquisas de boca de urna.

Ainda não está claro se isso será suficiente para o partido assumir o poder no Estado, mas a AfD afirma ter conquistado um mandato para governar.

O partido de direita radicial deve chegar a um recorde de 44% dos votos, bem à frente da CDU, de centro-direita, com 17%.

A AfD saudou o resultado como uma "consequência histórica", e o líder do grupo no Estado, Ulrich Siegmund, disse que eles querem começar a governar o quanto antes.

Nenhum partido de direita radical conquistou o controle de um Estado na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial, e governar em nível estadual significaria ter poderes sobre a polícia, a educação local e a cultura.

A Saxônia-Anhalt tem uma pequena população de 2,1 milhões de habitantes (o país tem cerca de 83 milhões de pessoas) e o partido AfD no Estado é avaliado por analistas alemães como "extremista de direita", uma classificação rejeitada por Siegmund.

Ele, junto com os líderes nacionais da legenda, Alice Weidel e Tino Chrupalla, ficaram eufóricos quando as pesquisas de boca de urna revelaram que o partido caminhava para obter mais que o dobro dos números alcançados em 2021.

Comentaristas e adversários políticos classificam o resultado como um divisor de águas e uma ruptura com o passado.

A principal emissora de TV do país, a Das Erste, cancelou seu lendário drama policial Tatort para se concentrar na cobertura da eleição.

"Isso não diz respeito apenas à Saxônia-Anhalt", disse Siegmund aos apoiadores. "É um sinal para toda a Alemanha. Um sinal de autoconfiança."

Repercussão global

O presidente dos EUA, Donald Trump, publicou uma captura de tela da projeção da TV alemã em sua rede social, a Truth Social.

Na sequência, o enviado presidencial russo Kirill Dmitriev fez uma captura da publicação de Trump e elogiou a "vitória histórica da pragmática AfD".

Dmitriev já havia elogiado a AfD, que é simpática à Rússia, como "o partido da esperança e da razão, da cooperação, da verdade e da esperança para a Alemanha".

Antes da eleição federal alemã do ano passado, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, declarou apoio ao partido, em um movimento criticado na Alemanha e taxado de interferência política.

O primeiro-ministro polonês de centro-direita, Donald Tusk, fez comentários em outro sentido, dizendo que "na Polônia, apenas idiotas e traidores podem comemorar o triunfo da AfD".

Sem cadeiras suficientes para formar um governo de maioria, Ulrich Siegmund até agora havia se recusado a liderar um governo minoritário, embora os líderes nacionais do partido considerem essa uma possibilidade.

"Se for preciso, simplesmente haverá novas eleições, e então conseguiríamos 50% ou 55%", disse Siegmund, acrescentando que estava disposto a trabalhar com parlamentares individuais ou com um partido.

Fotografia mostra quatro homens tirando uma selfie com bandeiras da Alemanha ao fundo

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Apoiadores comemoraram e tiraram selfies conforme que a dimensão da vitória da AfD ficou clara

Sem maioria absoluta

A AfD caminha atualmente para conquistar 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual, em vez das 42 necessárias para obter maioria absoluta.

Durante horas, não estava claro se outro partido, o BSW, alcançaria o mínimo de 5% necessário para entrar no Parlamento, mas os resultados provisórios depois mostraram que o partido havia conseguido. Se tivesse ficado abaixo desse limite, as chances de a AfD obter maioria teriam aumentado.

Uma multidão de apoiadores na sede da festa da AfD na noite da eleição explodiu em comemorações quando as projeções positivas apareceram na tela.

Pouco depois, as pessoas começaram a cantar o hino nacional da Alemanha.

"Fizemos história neste estado", disse Siegmund. Seu adversário na CDU, Sven Schulze, reconheceu a vitória enquanto via a votação dos conservadores despencar para menos da metade em relação à eleição anterior.

"Esta foi uma campanha eleitoral extremamente difícil e intensa", disse Schulze, acrescentando que seu partido teria de lidar com o resultado.

O SPD, de centro-esquerda, classificou o resultado como "realmente dramático", e o líder nacional Lars Klingbeil, cujo partido integra o governo federal junto com a CDU, descreveu o resultado como "um sinal para Berlim" e afirmou categoricamente que eles o levariam em consideração.

'Alternativa para a Alemanha'

A AfD, que defende políticas anti-imigração, é a sigla de Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha).

O partido não apenas dominou a campanha eleitoral, como está se consolidando como a força dominante no resultado — e seus apoiadores acreditam que estão avançando.

A participação eleitoral na Saxônia-Anhalt foi particularmente alta, chegando a 76,7%, e apoiadores da AfD em Magdeburgo elogiaram o sucesso de Siegmund em conquistar eleitores.

Um eleitor chamado Ollie disse: "Esse homem nos dá o que ninguém mais pode nos dar."

"Não importa qual seja o governo, todos eles ficam apenas prometendo que as coisas vão melhorar. Este é um partido para as pessoas trabalhadoras. É a alternativa para a Alemanha", disse ele à BBC.

Outro eleitor da AfD, chamado Bert, disse que as pessoas no leste do país conseguiam perceber que as coisas não estavam indo bem: "As coisas precisam melhorar para nós, para a minha família. Eu tenho três filhos. Tenho medo, muito medo de que a segurança piore cada vez mais."

Os outros partidos se recusam a formar coalizões com a AfD, mantendo uma Brandmauer, ou "barreira de proteção", destinada a impedir que a extrema direita chegue ao governo.

Na Saxônia-Anhalt, o BSW se ofereceu para cooperar com a AfD em algumas questões caso consiga entrar no Parlamento estadual.

A AfD lidera as pesquisas de intenção de voto em nível nacional, à frente dos conservadores do chanceler Friedrich Merz, que estão no governo, e dos social-democratas, mas seu principal reduto está nos estados do leste.

O partido também venceu a eleição estadual de 2024 na vizinha Turíngia, mas não conseguiu cadeiras suficientes para chegar ao poder.

Políticas controversas

Entre as políticas da AfD, está um plano altamente controverso de "remigração", termo amplamente entendido como uma referência à deportação em massa de imigrantes, embora o partido diga que se refere à deportação de criminosos e de pessoas que estão ilegalmente no país.

O partido não conseguiria implementar medidas assim governando apenas um dos 16 estados alemães.

Mas, localmente, teria poderes significativos. A AfD tem sido particularmente crítica em relação à escola de design Bauhaus, que os nazistas fecharam na cidade de Dessau, na Saxônia-Anhalt, depois de chegarem ao poder em 1933. A AfD a chamou de "o beco sem saída do modernismo", levando alguns a acusarem o partido de usar uma linguagem semelhante à dos nazistas.

Nikita, uma manifestante que participou de um "Festival da Democracia" contra a AfD em Magdeburgo, na véspera da votação, disse que os alemães precisavam "aprender com a nossa história e não voltar atrás. Não queremos mais os tempos sombrios".

Em reação às notícias da Saxônia-Anhalt, a veterana líder da comunidade judaica de Munique e da Baviera, Charlotte Knobloch, disse que o resultado a assustava. "Em dias como este, tenho dificuldade para reconhecer minha terra natal", afirmou a sobrevivente do Holocausto, de 93 anos, pedindo aos partidos tradicionais que não ficassem parados, permitindo "esse declínio".

Uma das principais figuras da AfD na Saxônia-Anhalt, Hans-Thomas Tillschneider, também foi criticado por sua postura em relação à Rússia.

Questionado sobre por que tinha uma caneca do Exército russo em seu escritório, ele disse que era apenas uma lembrança e que "essa não é a nossa guerra".