A agonia das famílias de milhares de pessoas que permanecem desaparecidas na Faixa de Gaza

Ahmed al Madhoun, que tem síndrome de Down, sustenta uma bicicleta e veste uma jaqueta preta.

Crédito, Família de Ahmed al Madhoun

Legenda da foto, Ahmed al Madhoun tem síndrome de Down e está desaparecido desde maio de 2025
    • Author, Jon Donnison
    • Role, BBC News
  • Published
  • Tempo de leitura: 6 min

Ahmed al Madhoun parecia alguém que, apesar das dificuldades, amava a vida. Um menino baixinho e travesso, com um sorriso exuberante.

Da sua casa parcialmente destruída, na cidade de Gaza, sua mãe, Majdiya, mostra seus vídeos no celular.

Em um deles, al Madhoun abraça um gatinho. Ele mostra a língua e solta gritos de alegria.

Em outro, ele se joga de barriga em uma piscina e, depois, emerge da água sorrindo de orelha a orelha.

"Todos eram seus amigos", conta Majdiya à BBC. "Ele era querido onde quer que fosse e sempre tinha um sorriso no rosto."

Ahmed al Madhoun tem síndrome de Down e está desaparecido. O rastro do jovem de 21 anos foi perdido em maio de 2025, quando ele saiu por um momento para uma loja perto de casa.

Naquela época, a guerra na Faixa de Gaza entre o Hamas e Israel estava no auge.

Houve naquele dia ataques israelenses na região, e Majdiya teme que seu filho tenha sido morto. Mas ela não tem certeza.

"Meu Deus, não tenho paz", ela conta. "Não perdi a esperança, mas só quando o encontrarem, vivo ou morto, enterrado sob os escombros, poderei ficar em paz."

Mães de todo o território sentem a mesma dor de Majdiya.

Mais de 73 mil pessoas morreram na Faixa de Gaza, desde que Israel lançou sua campanha militar na região.

Este número inclui cerca de 1,2 mil mortos desde o anúncio do cessar-fogo, em outubro passado, segundo o Ministério da Saúde do território, administrado pelo Hamas.

A ONU considera que estes números são confiáveis, e a imprensa israelense noticiou em janeiro que uma fonte de segurança israelense afirmou que o exército do país considera os dados precisos.

Mas o número real de palestinos mortos pode ser consideravelmente maior.

O balanço de mortos do Ministério da Saúde de Gaza não inclui os corpos enterrados sob os escombros. Ou seja, muitas pessoas desaparecidas não fazem parte desta contagem.

Ahmed al Madhoun, de jaqueta preta, dirige uma bicicleta com a mão enquanto caminha pela Faixa de Gaza.

Crédito, Família de Ahmed Al Madhoun

Legenda da foto, O paradeiro de Ahmed al Madhoun é desconhecido há meses

Os desaparecidos

A Cruz Vermelha afirma ter recebido mais de 5 mil pedidos de localização de pessoas desaparecidas, que podem estar sepultadas em meio aos escombros.

A Defesa Civil de Gaza acredita que o número de desaparecidos seja de mais de 8 mil pessoas. E, a cada dia, são descobertos mais corpos.

No início deste mês, foi realizado um funeral coletivo na cidade de Gaza para mais de uma centena de pessoas mortas em um ataque israelense ocorrido em 2023. Seus restos foram recuperados e identificados apenas recentemente, o que permitiu o sepultamento.

A Cruz Vermelha destaca que a recuperação de corpos é difícil, devido à gravidade da destruição e à falta de escavadeiras.

Em muitos casos, identificar os restos mortais é outro desafio, pois as pessoas morreram há muito tempo e existe falta de testes de DNA, devido às restrições israelenses sobre quais materiais podem entrar na Faixa de Gaza.

A família de Ahmed al Madhoun sabe que, provavelmente, ele está morto. Mas eles também temem que o jovem possa ter sido detido pelas forças de segurança israelenses.

Ao longo de quase três anos de guerra, as forças de Israel detiveram cerca de 7 mil palestinos de Gaza. Destes, mais de 5 mil foram liberados posteriormente, sem serem formalmente acusados de nenhum delito, segundo o Comitê Público contra a Tortura, sediado em Israel.

A mãe de Ahmed al Madhoun, com um manto vermelho sobre a cabeça e uma foto de seu filho, na sala de casa.
Legenda da foto, Majdiya al Madhoun procura seu filho há mais de um ano

Neste mês, cerca de 1,3 mil detidos procedentes de Gaza permaneciam em prisões de Israel, sem acusações nem julgamento, segundo a organização israelense de direitos humanos HaMoked.

O grupo destaca que estes números não incluem pessoas de Gaza detidas diretamente pelo exército de Israel.

A HaMoked e outras entidades defensoras dos direitos humanos afirmam que, em muitos casos, Israel não notificou as famílias palestinas sobre a detenção ou o paradeiro dos seus entes queridos. Esta situação obriga muitas delas a depender de ONGs e advogados para tentar localizá-los.

A BBC questionou as Forças de Defesa de Israel (FDI) e o Serviço Penitenciário do país sobre a suposta falta de contato com os familiares das pessoas detidas.

As autoridades israelenses já haviam afirmado anteriormente que as detenções prolongadas se devem a motivos de segurança relacionados à guerra, rejeitando as acusações de arbitrariedade.

Aida al Drimli em casa, com uma foto emoldurada do filho na parede.
Legenda da foto, O filho de Aida al Drimli desapareceu em 2024

Aida al Drimli, moradora do bairro de Sabra, na cidade de Gaza, mostra uma fotografia do seu filho Mahmoud, um rapaz com rosto jovem envolvido em uma kufiya (lenço tradicional da Palestina).

"Ele era um jovem calmo de boas maneiras", conta a mãe. "Ele amava a todos e todos o amavam."

Mahmoud desapareceu em 2024 e sua família receava que ele tivesse sido morto em um ataque de Israel.

"Seu pai ia aos hospitais e verificava os corpos", segundo ela. "Mas eu não conseguia. Estava totalmente devastada."

No verão de 2026, surgiu nas redes sociais uma fotografia de dois soldados israelenses posando ao lado de um prisioneiro palestino, com os olhos vendados e as mãos amarradas. Aida al Drimli está convencida de que se trata do seu filho Mahmoud.

"Pelos seus traços, pela sua fronte, sua boca, seu nariz, a forma como está sentado, a forma em que fecha a boca, suas mãos, suas pernas", explica ela. "Ele tem exatamente os mesmos traços do meu filho."

Mas ela sabe que, com uma única fotografia, não é possível ter certeza.

"Quando meu marido se sentou e me mostrou a foto, fiquei aliviada", relembra ela.

"Mas, ao mesmo tempo, me senti muito mal e partiu meu coração ver meu filho naquele estado. Foi humilhante."

Foto de um homem e um jovem em um quarto, um deles com roupas militares. Os rostos estão borrados.

Crédito, Redes Sociais

Legenda da foto, Aida al Drimli acredita que esta fotografia mostra seu filho Mahmoud

As famílias al Drimli e al Madhoun afirmam que nem eles, nem seus filhos, possuem afiliação ao Hamas, nem a nenhum dos grupos armados da Faixa de Gaza.

A BBC perguntou ao Serviço Penitenciário de Israel sobre os dois jovens. O organismo respondeu que não tem registro da detenção de nenhum dos dois.

Apresentamos a mesma questão ao exército israelense, que também gerencia prisões e centros de detenção. Mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Israel não permite o acesso independente de jornalistas internacionais à Faixa de Gaza, incluindo a BBC.

Dificuldades de localização

A família al Drimli pediu à Cruz Vermelha que tentasse verificar se Mahmoud foi detido, mas Israel não permite que a entidade tenha acesso aos seus registros penitenciários.

A diretora-executiva da HaMoked, Tal Steiner, e uma advogada israelense que trabalha na localização de palestinos que possam ter sido detidos por Israel declararam à BBC que "o 7 de Outubro mudou tudo".

"A proibição imposta à Cruz Vermelha de visitar as prisões e o fato de que a entidade não dispõe de listas das pessoas detidas por Israel significam que precisamos rastreá-las individualmente, uma a uma, a pedido das suas famílias", explica ela.

"Isso representa atualmente um enorme fardo para a capacidade de encontrar essas pessoas."

Steiner afirma que, para as famílias, o mais difícil é a incerteza.

"É uma ferida aberta. Ela não cicatriza. Eles não têm descanso porque sequer sabem se seu familiar está vivo ou morto."

Ela destaca que, nos últimos três anos, Israel dificultou ainda mais a localização de possíveis detidos palestinos.

"Para aqueles que não sabem onde estão seus familiares, isso traz mais sofrimento para uma situação que já é dolorosa. É uma situação psicológica muito difícil, que pode se prolongar por meses e até anos."