Israel confirma que soldados atiraram contra o carro em que palestina de 5 anos foi morta e abre investigação

Crédito, Family/Reuters
- Author, Yolande Knell
- Author, Lucy Williamson
- Role, Correspondente no Oriente Médio
- Reporting from, Jerusalem
- Published
- Tempo de leitura: 6 min
Pela primeira vez, o exército israelense confirmou que atirou contra um carro que transportava a menina palestina Hind Rajab, de cinco anos, que foi morta junto com seis familiares em Gaza, em 2024.
Hind sobreviveu inicialmente ao ataque e atendeu a uma ligação telefônica na qual pediu ajuda. A ligação durou horas.
Uma ambulância enviada para resgatá-la — em uma operação coordenada com o exército israelense — também foi atingida por disparos, matando dois paramédicos. O corpo de Hind foi encontrado dias depois, junto aos corpos dos demais mortos.
Em um comunicado, as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) informaram que abrirão uma investigação criminal sobre a morte de Hind e de seus familiares, além da morte de 15 palestinos, incluindo profissionais de saúde e um funcionário da ONU, em março de 2025.
Ambos os incidentes provocaram condenação internacional.
Sobre a morte de Hind, as IDF disseram: "Devido a supostas falhas na coordenação do deslocamento da ambulância do Crescente Vermelho Palestino, foi decidido iniciar uma investigação criminal sobre o incidente pela Divisão de Investigação Criminal da Polícia Militar".
E acrescentou que as conclusões de sua apuração "indicam que tropas israelenses dispararam contra um veículo" que estava "trafegando em desacordo com o aviso prévio publicado em um comunicado do porta-voz das IDF aos moradores da região".
Inicialmente, os militares de Israel haviam afirmado que nenhuma de suas tropas estava na região no momento da morte de Hind. No entanto, essa versão foi rapidamente contestada.
Mais tarde, a IDF afirmou ter realizado "incursões contra alvos terroristas", com tropas atuando em diferentes bairros da Cidade de Gaza, incluindo Tel al-Hawa, onde Hind estava.
A ligação de Hind para os paramédicos
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A morte de Hind provocou condenação internacional depois que uma gravação desesperada dela conversando com paramédicos do Crescente Vermelho Palestino foi divulgada.
A voz frágil de Hind, do outro lado da linha naquele dia, permaneceu na memória dos operadores do Crescente Vermelho por muito tempo após sua morte. Ela descrevia os tanques que via diretamente à frente do carro e dizia que eles estavam se aproximando.
"Esconda-se embaixo dos bancos", disseram os operadores. "Não deixe que ninguém veja você."
A operadora Rana Faqih permaneceu na linha com Hind durante horas, enquanto a equipe do Crescente Vermelho pedia ao Exército israelense autorização para que a ambulância pudesse chegar ao local.
Segundo Faqih, a menina pediu repetidamente que alguém fosse até lá para resgatá-la.
"Em determinado momento, ela me disse que estava começando a escurecer", contou Rana à BBC em fevereiro de 2024. "Ela estava com medo. Perguntou a que distância ficava a minha casa. Eu me senti paralisada e impotente."
Três horas após o início da ligação, finalmente foi autorizada a aproximação de uma ambulância à região, que foi enviada para resgatar Hind.
Já havia escurecido quando os integrantes da equipe — Yusuf al-Zeino e Ahmed al-Madhoun — avisaram aos operadores que estavam se aproximando do local e que seriam submetidos a uma verificação pelas forças israelenses antes de receber autorização para entrar.
Foi a última vez que os operadores tiveram notícias deles — ou de Hind.
Depois disso, a comunicação com os dois paramédicos e com a menina que eles haviam ido resgatar foi interrompida.
Mais tarde, o Crescente Vermelho Palestino confirmou que Yusuf al-Zeino e Ahmed al-Madhoun haviam sido mortos quando a ambulância foi bombardeada pelas forças israelenses.
"A ocupação [israelense] atacou deliberadamente a equipe do Crescente Vermelho, apesar de ter obtido autorização prévia para que a ambulância pudesse chegar ao local e resgatar a menina Hind", afirmou a organização em um comunicado.
A história foi transformada no filme indicado ao Oscar The Voice of Hind Rajab (A Voz de Hind Rajab).
A ONU citou o caso de Hind em uma comissão de investigação, acusando Israel de crimes de guerra — acusações que Israel nega.
Após o anúncio do exército israelense, a Hind Rajab Foundation, organização sediada em Bruxelas que busca responsabilizar Israel por supostas violações cometidas em Gaza, afirmou não ter "nenhuma confiança" na investigação.
"Essas investigações anunciadas, mesmo que de fato sejam realizadas, não devem ser confundidas com um verdadeiro passo em direção à justiça", afirmou a organização em um comunicado.
A fundação acrescentou que as investigações internas de Israel eram "fundamentalmente falhas e não podem ser consideradas mecanismos confiáveis de responsabilização".
Em seu comunicado divulgado nesta quarta-feira (19/8), as IDF afirmou: "Há mais de mil dias, as IDF conduz combates intensos em diversas frentes, realizando uma ampla variedade de operações militares em uma realidade operacional excepcionalmente complexa".
"Como parte de suas obrigações previstas pelo direito internacional e pela legislação israelense, as IDF investiga incidentes excepcionais ocorridos durante os combates."
Além da investigação criminal sobre a morte de Hind, de seus familiares e dos paramédicos, as IDF também afirmou que investigaria a morte de 15 palestinos, depois que uma unidade israelense abriu fogo contra ambulâncias, um caminhão de bombeiros e um veículo identificado da ONU na região de Tal al-Sultan, em Rafah, no sul de Gaza, durante uma operação de emergência na manhã de 23 de março de 2025.
Os corpos foram encontrados uma semana depois, enterrados em covas rasas ao lado dos veículos destruídos.
Inicialmente, o Exército israelense afirmou que suas tropas haviam disparado contra "veículos suspeitos" que trafegavam no escuro com os faróis e as luzes de emergência apagados.
Mas, posteriormente, o exército israelense afirmou que essa versão estava "equivocada", depois que um vídeo encontrado no celular de um dos paramédicos mortos, Rifaat Radwan, mostrou que o comboio estava utilizando as luzes de emergência.
No comunicado divulgado nesta quarta-feira, as IDF afirmou: "Após a análise das conclusões e diante da constatação de que os disparos realizados durante o incidente levantam uma suspeita razoável de conduta criminosa, foi decidido iniciar uma investigação criminal sobre o caso."
Em outros três casos, incluindo a morte de sete funcionários da World Central Kitchen, em Deir al-Balah, há dois anos, e a morte de quatro funcionários da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), em dois incidentes distintos, as IDF afirmou não ter encontrado motivos para abrir investigações criminais.
A World Central Kitchen afirmou que "condena veementemente" a versão apresentada pelo procurador militar israelense sobre a morte de seus sete colegas em 2024 e exigiu uma investigação independente.
Esta é a primeira vez que um relatório abrangente das IDF sobre supostos crimes de guerra é divulgado desde o início da guerra em Gaza, desencadeada pelos ataques liderados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023.
Mais de 73 mil pessoas foram mortas em Gaza desde que Israel iniciou sua campanha militar, incluindo cerca de 1.200 desde o anúncio de um cessar-fogo em outubro do ano passado, segundo o Ministério da Saúde do território, administrado pelo Hamas — números considerados confiáveis pela ONU.
As IDF sofre pressão para demonstrar que investiga seus próprios militares, numa tentativa de evitar medidas judiciais internacionais, principalmente por parte do Tribunal Penal Internacional (TPI).
O objetivo é rebater as acusações de que Israel cometeu crimes de guerra e de que suas forças operam em um ambiente de impunidade.
No entanto, organizações israelenses de defesa dos direitos humanos afirmam que investigações criminais contra militares israelenses raramente resultam em condenações.
Ziv Stahl, diretora-executiva da organização israelense de direitos humanos Yesh Din, disse à BBC que "quase nenhuma acusação formal é apresentada em relação ao número de denúncias contra soldados e comandantes por crimes cometidos.
"Nos casos ainda mais raros em que soldados ou comandantes são condenados, eles recebem penas desproporcionalmente brandas, que pouco têm a ver com a gravidade dos crimes."
























