Como ficam os preços do petróleo após saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep

Emirados Árabes são um dos maiores produtores de petróleo do mundo

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Emirados Árabes são um dos maiores produtores de petróleo do mundo
Tempo de leitura: 5 min

Os Emirados Árabes Unidos (EAU) anunciaram sua saída dos grupos Opep e Opep+, que reúnem as principais nações produtoras de petróleo, após quase 60 anos.

Os EAU afirmaram que a decisão reflete sua "visão estratégica e econômica de longo prazo e seu perfil energético em evolução".

A decisão é vista como um golpe para o grupo. Um analista descreveu a saída de um dos seus membros mais importantes como "o começo do fim da Opep".

O ministro da Energia do país do Golfo afirmou que, por não ter mais obrigações com os grupos, o país terá mais flexibilidade.

Os Emirados Árabes Unidos aderiram à Opep em 1967 e sua saída deixará o grupo dos produtores de petróleo com 11 membros.

Saul Kavonic, chefe de pesquisa de energia da MST Financial, disse que este é "o começo do fim da Opep".

"Com a saída dos Emirados Árabes Unidos, a Opep perde cerca de 15% de sua capacidade e um de seus membros mais obedientes."

De acordo com os dados mais recentes da Opep, os Emirados Árabes Unidos produzem 2,9 milhões de barris de petróleo por ano. A Arábia Saudita, líder de fato da Opep, produz 9 milhões de barris de petróleo.

"A Arábia Saudita terá dificuldades para manter o restante da Opep unida e, efetivamente, terá que assumir a maior parte do trabalho pesado em relação à conformidade interna e à gestão do mercado sozinha", disse Kavonic, acrescentando que outros membros da Opep podem seguir o mesmo caminho.

"Isso representa uma reconfiguração geopolítica fundamental do Oriente Médio e dos mercados de petróleo", acrescentou.

A Opep foi formada em 1960 por cinco países: Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela. Seu objetivo tem sido coordenar a produção para fornecer receita estável para seus membros.

O número de países no grupo tem flutuado ao longo dos anos, mas, além dos cinco membros fundadores, hoje também fazem parte Argélia, Guiné Equatorial, Gabão, Líbia, Nigéria e República do Congo.

O que pode acontecer com os preços do petróleo?

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Para o editor de economia da BBC, Faisal Islam, a saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep pode redefinir o mercado global de petróleo. Os efeitos podem, a médio prazo, derrubar o preço do barril.

"É um acontecimento muito importante que os Emirados Árabes Unidos tenham anunciado sua saída abrupta", escreve.

No curto prazo, os preços ainda vão estar atrelados à crise no Golfo, especialmente no Estreito de Ormuz. Islam ressalta que o bloqueio marítimo é hoje o principal fator de pressão sobre o mercado.

Mas ele aponta que o cenário pode mudar rapidamente. Caso a situação se normalize, há espaço para uma queda relevante nos preços.

"Isso é uma razão para não descartar a possibilidade de que ele possa estar mais próximo de US$ 50 em algum momento no próximo ano — se a situação no Estreito for resolvida, por exemplo, a tempo das eleições de meio de mandato nos EUA ainda este ano", afirma, mencionando a possibilidade de o barril recuar significativamente em relação aos níveis atuais, próximos de US$ 110.

Fora das cotas da Opep, que limitavam sua produção a 3–3,5 milhões de barris por dia, o país pode expandir sua oferta. "Os Emirados queriam usar a considerável capacidade na qual investiram", afirma.

"Não é apenas o fato de que os EAU, quando puderem colocar totalmente seu petróleo de volta no mercado por mar ou por oleodutos, provavelmente mirarão uma produção de 5 milhões de barris por dia."

A medida também pode provocar reações dentro da organização. "A Arábia Saudita pode responder com uma guerra de preços do petróleo que a economia mais diversificada dos EAU poderia suportar, mas outros membros mais pobres da Opep talvez não."

Islam argumenta que a decisão dos Emirados também reflete uma mudança mais profunda no sistema energético. A Opep perdeu parte de sua influência. Hoje, a organização responde por cerca de metade do petróleo comercializado globalmente, quando já foi responsável por 85%.

"Uma forma de interpretar a ação dos EAU é como um sinal desse mundo de menor dependência do petróleo, e houve alguns outros indícios na atual turbulência: os investimentos da China em eletrificação ajudaram a amortecer o impacto econômico do aumento dos preços do petróleo e do gás."

A eletrificação de carros, caminhões e trens na China já reduziu a demanda por petróleo na segunda maior economia do mundo. E a demanda global pode se estabilizar à medida que essa tendência se acelera.

"Nessa visão, faz sentido arrecadar o máximo possível com as reservas de petróleo o mais rápido possível antes que a demanda despenque."