O boicote à Copa do Mundo anunciado pela Uefa contra plano da Fifa para 'vender o Mundial'

Espanha comemora a conquista da Copa do Mundo masculina.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A Espanha, vencedora do torneio, foi uma das seis seleções europeias a chegar às quartas de final da Copa
    • Author, Simon Stone
    • Role, Repórter-chefe de notícias de futebol
    • Author, Jack Skelton
    • Role, jornalista sênior da BBC Sport
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  • Tempo de leitura: 8 min

As 55 federações que compõem o futebol europeu votaram a favor do boicote à Copa do Mundo caso a Fifa leve adiante o plano de vender participações nas competições para investidores privados.

A decisão foi tomada em uma reunião de emergência convocada para discutir a proposta anunciada no início desta semana pela entidade, que supervisiona o futebol mundial.

A Concacaf, que rege o futebol na América do Norte e Central e que sediou a Copa do Mundo deste ano, afirmou que suas 41 associações-membros "rejeitaram" a proposta feita pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino, após reunião realizada na quinta-feira (30/7).

Fontes afirmam que as nações da Concacaf também estão perdendo a confiança em Infantino.

A Uefa, que rege o futebol europeu, já havia deixado clara sua oposição ao divulgar duas declarações contundentes — e essa forte opinião foi reafirmada.

"A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento", afirmou na quinta-feira (30/7).

"É um dos maiores legados do futebol. Foi construído ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dele jamais deveria ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda."

O boicote da Uefa abrangeria todas as competições da Fifa, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina e o Mundial de Clubes, e seria colocado em prática caso as propostas de Infantino sejam aprovadas pelas associações-membro.

A primeira vez que essa postura será testada em um torneio será em outubro, quando a repescagem da Copa do Mundo feminina deverá ser realizada.

Quais são os planos de Infantino?

A Fifa quer criar uma subsidiária comercial para gerir os seus principais eventos, incluindo as Copas do Mundo, e investidores externos poderão adquirir participações nessa empresa.

A empresa afirmou que "convidaria terceiros a fazer investimentos minoritários e sem controle" em uma nova subsidiária, a Fifa Forward Enterprise (FFE).

O plano precisa ser aprovado por votação dos 211 membros da Fifa.

Infantino precisa de 106 votos a favor para que a proposta seja aprovada. Os membros da Uefa e da Concacaf, juntos, somam 96 associações, que provavelmente votarão contra.

Infantino escreveu aos membros da Fifa dizendo que eles receberão US$ 40 milhões (R$ 203 milhões) se apoiarem sua proposta controversa. Ele estabeleceu um prazo até 19 de setembro para que as federações aceitem seus planos, caso queiram ter acesso a um montante inicial de US$ 20 milhões (R$101,5 milhões).

Em um vídeo divulgado pela Fifa na quarta-feira (29/7), Infantino defendeu os planos, chamando-os de "uma oferta, não uma obrigação".

Caso a aprovação seja concedida, a Fifa afirma que a Thrive Eternal deverá liderar o grupo de investidores proposto para a FFE.

A Thrive é uma empresa americana de capital de risco fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Trump, genro do presidente americano, Donald Trump.

Fontes da Fifa disseram à BBC Sport que não houve nenhuma discussão sobre Infantino, ou qualquer outra pessoa, se tornar diretor-executivo da FFE.

A Casa Branca afirmou que "não tinha nada" a declarar sobre as propostas de Infantino "no momento".

Qual foi a reação da Uefa?

Em um comunicado divulgado após a reunião de quinta-feira, realizada virtualmente e presidida pelo presidente Aleksander Ceferin, a Uefa afirmou que ela e suas 55 associações-membro "estão unidas".

"Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da Fifa de transferir participações acionárias na Copa do Mundo e em outras competições da Fifa para investidores privados", afirmou a organização.

Na quarta-feira, a Uefa acusou a Fifa de usar o futebol "para enriquecer a si mesma e aos seus amigos".

A declaração emitida na quinta-feira foi ainda mais contundente, classificando como "irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo" e "sem qualquer consulta significativa" com os responsáveis pela gestão do esporte.

"Isto não é apenas uma profunda falha de liderança, mas uma abdicação do dever da Fifa como guardiã do futebol mundial", acrescentou a entidade.

"As federações nacionais de todo o mundo estão agora diante de um ultimato: aceitar a captura irreversível das maiores competições de futebol ou arcar com as consequências", prosseguiu.

"Esta não é uma 'decisão democrática', mas sim uma governança por intimidação — um ato de coerção indigno de uma instituição encarregada da gestão do esporte global."

Embora a Uefa represente apenas um quarto dos membros da Fifa, ela inclui a maioria das equipes mais bem-sucedidas do mundo.

Seis dos oito times que chegaram às quartas de final da Copa do Mundo deste ano, incluindo a Espanha, que foi a campeã, eram europeus. Nas edições de 2022 e 2018, esses números foram cinco e seis, respectivamente.

Das 23 Copas do Mundo realizadas até hoje, 13 foram vencidas por países europeus. As outras 10 foram vencidas por seleções sul-americanas.

A vice-presidente da Uefa, Laura McAllister, afirmou que as propostas da Fifa representam uma "verdadeira ameaça existencial ao futebol".

A ex-jogadora da seleção galesa disse à BBC que esperava que os boicotes não acontecessem, acrescentando: "Estou otimista de que não acontecerão, porque a realidade é que a potência do futebol mundial é a Europa."

McAllister afirmou que havia "verdadeira unidade" entre os membros da Uefa e um "consenso fácil sobre a necessidade de tomar as medidas mais enérgicas possíveis, dada a ameaça existencial que a proposta da Fifa representa para o nosso esporte".

Ela acrescentou: "A realidade é que não tivemos outra escolha a não ser emitir uma ameaça proporcional a esta proposta terrível e catastrófica, que foi aprovada às pressas, sem a devida diligência, sem governança adequada e sem consulta".

O que disseram os outros membros da Fifa?

Uma porta-voz da Federação Inglesa de Futebol (FA) disse que a Inglaterra está "ao lado" de seus colegas europeus e "apoia totalmente a visão coletiva".

Ela acrescentou: "Nós nos opomos aos planos da Fifa — a Copa do Mundo da Fifa pertence ao futebol e sempre pertencerá."

A Federação Escocesa de Futebol (SFA) também manifestou seu apoio, afirmando que seu conselho "concorda inequivocamente com as preocupações levantadas por todos os membros sobre a forma como essas propostas foram apresentadas e o prazo estabelecido, sem um processo de consulta completo ou consideração pelas boas práticas de governança".

O presidente da Federação Escocesa de Futebol, Mike Mulraney, também preside o comitê de finanças da Fifa.

A Concacaf afirmou que seus membros "expressaram profunda preocupação com a falta de devido processo legal em torno da proposta" e com o "prazo artificialmente curto imposto".

O texto também questionou a necessidade de investimento privado após a Copa do Mundo mais lucrativa da história, segundo a Fifa.

A Concacaf acrescentou que incumbiu os membros do seu conselho da Fifa de dialogar com a entidade máxima do futebol da região sobre como utilizar as reservas existentes para financiar o desenvolvimento em toda a região e instruiu Infantino a garantir que os processos de governança adequados sejam seguidos.

Ronan Evain, diretor executivo da Football Supporters' Europe, disse à BBC que a posição da Uefa foi "muito impressionante" e uma "verdadeira demonstração de força".

Ele acrescentou: "Essa é a resposta que o futebol precisava — é a resposta que Gianni Infantino merecia."

A Confederação Asiática de Futebol disse estar "decepcionada" por não ter sido consultada antes que os planos se tornassem públicos.

A Confederação Africana de Futebol afirmou que seu presidente, Patrice Motsepe, convocará uma reunião de seu comitê executivo na próxima semana para "avaliar e analisar" as propostas.

A Associação Mundial de Ligas (WLA, na sigla em inglês) pediu à Fifa que retirasse seu projeto, e a Premier League, que é membro da WLA, disse que "apoia integralmente" essa posição.

O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, e o homólogo da Fifa, Gianni Infantino

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Legenda da foto, O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin (à esquerda), tem sido firmemente contra muitas mudanças impulsionadas pelo homólogo da Fifa, Gianni Infantino (à direita)

O que acontece agora?

A Fifa foi questionada sobre a declaração da Uefa. Não está claro como ela — e Infantino — irão reagir.

Não se sabe quais serão as implicações para a Copa do Mundo Feminina Sub-20, que deve ser realizada na Polônia a partir de 5 de setembro — antes do prazo final da Fifa, de 19 de setembro, para que as associações solicitem um pagamento inicial de US$ 20 milhões até 1º de janeiro.

Também não sabemos qual será o impacto das notícias de quinta-feira sobre o objetivo declarado da Fifa de depositar a primeira parcela do dinheiro proveniente de "investimentos privados" até o final de outubro.

"Acho que, nesta ocasião, Infantino tem que recuar", disse o ex-presidente da FA, David Bernstein, à BBC Sport.

"Este acordo é inaceitável. Se eles querem captar recursos, existem outras maneiras melhores de fazê-lo. Numa organização normal, se ele tivesse que recuar em algo desta magnitude, provavelmente seria demitido", proesseguiu.

"Mas a Fifa não é uma organização normal. Se ele tiver o apoio de um número suficiente de federações nacionais, ele continuará."

Sem algum tipo de resolução, a Uefa ficaria fora da governança global do futebol.

No entanto, Bernstein não acredita que chegará a esse ponto.

"Não acredito que a longo prazo haverá uma cisão, porque seria uma situação em que todos perderiam", disse ele.

"A Fifa não pode se dar ao luxo de não ter seleções europeias participando de suas competições e, francamente, a Europa também não pode se dar ao luxo de ficar de fora."

Análise: É impossível exagerar a importância desta história

A conclusão lógica do envolvimento do investimento privado nas competições da Fifa é que, eventualmente, elas serão expandidas, tanto em termos de tamanho quanto de frequência.

Essa compressão do calendário seria sentida em todas as categorias de base no cenário nacional e afetaria a estrutura do futebol em cada país.

A Uefa, que também já foi criticada por expandir suas competições de clubes, sabe que tem o poder de impedir o plano da Fifa.

Uma Copa do Mundo sem seleções europeias a privaria de três das quatro semifinalistas da competição deste verão e de seis das oito equipes que chegaram às quartas de final.

Três das quatro semifinalistas da última Copa do Mundo Feminina eram europeias. Três das quatro semifinalistas do Mundial de Clubes do ano passado também eram europeias.

Se não houver participantes europeus, é impossível imaginar a Fifa gerando a receita comercial necessária para pagar os valores que está oferecendo.

É impossível exagerar a importância desta história.