A polêmica decisão da Fifa de anular suspensão de artilheiro americano após cartão vermelho

O presidente americano, Donald Trump, e o presidente da Fifa, o italiano Gianni Infantino, apertam as mãos em evento.

Crédito, Hector Vivas/FIFA via Getty Images

Legenda da foto, O presidente americano, Donald Trump, e o presidente da Fifa, o italiano Gianni Infantino, em evento em dezembro passado
    • Author, Adwaidh Rajan
    • Role, Repórter da BBC Sport
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  • Tempo de leitura: 6 min

Folarin Balogun está disponível para defender os Estados Unidos no confronto das oitavas de final da Copa do Mundo, contra a Bélgica, após a suspensão automática que ele havia recebido em um jogo ter sido revogada pela Fifa.

O jogador de 25 anos, artilheiro da equipe americana, recebeu cartão vermelho por uma falta no zagueiro da Bósnia e Herzegovina, Tarik Muharemovic, durante a vitória por 2 a 0 que garantiu a classificação de sua seleção, uma das anfitriãs do torneio, na fase anterior.

A Fifa informou que a suspensão automática de uma partida ficaria cassada por um ano. Nenhuma justificativa específica foi apresentada para a medida, além da menção a uma regra que permite a suspensão de punições.

A Real Associação Belga de Futebol (RBFA) declarou estar "surpresa" com a decisão da Fifa e afirmou estar "analisando todas as opções possíveis" em resposta.

"Em conformidade com o artigo 27 do Código Disciplinar da Fifa, a aplicação da suspensão da partida fica suspensa por um período probatório de um ano", informou a entidade máxima do futebol mundial em comunicado.

"Caso Folarin Balogun cometa outra infração de natureza e gravidade semelhantes durante o período probatório, a suspensão será revogada e a sanção será aplicada, sem prejuízo de qualquer penalidade adicional imposta pela nova infração."

O presidente dos EUA, Donald Trump, agradeceu à Fifa por "reverter uma grande injustiça" em uma publicação na rede social Truth Social.

Trump, amigo de Gianni Infantino, escreveu: "Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça! Presidente DONALD J. TRUMP."

As agências AFP e Reuters noticiaram que Trump ligou para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, no início desta semana, para pedir a revisão do cartão vermelho. A BBC ainda não confirmou essas informações.

Folarin Balogun, dos Estados Unidos, comemora após marcar um gol.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Folarin Balogun marcou três gols pela seleção dos Estados Unidos — um dos países-sede — nesta Copa do Mundo

O atacante dos EUA, Christian Pulisic, disse que a equipe soube que a suspensão de um jogo havia sido revogada enquanto estava no ônibus a caminho do treino, no domingo, e afirmou que Balogun estava "muito feliz".

Pulisic acrescentou: "Um sorriso enorme no rosto dele e nos nossos também. A falta não justificava aquilo; foi uma punição rigorosa demais."

A RBFA ressaltou que todos os cartões vermelhos aplicados anteriormente nesta Copa do Mundo resultaram automaticamente em suspensão e que a decisão da Fifa está em "direta contradição" com o regulamento da competição, o qual foi "explicitamente reafirmado" pela entidade máxima do futebol a todas as seleções participantes em maio.

A entidade acrescentou: "Para salvaguardar os direitos legítimos de todas as equipes participantes e proteger os princípios fundamentais do jogo honesto em nosso esporte — tanto nesta Copa do Mundo da Fifa quanto em futuras edições do torneio —, a RBFA está analisando todas as opções possíveis."

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, estava entre aqueles que exigiram a revisão da decisão.

Questionado sobre o desempenho dos EUA na Copa durante uma coletiva de imprensa, Rubio disse: "Foi ótimo. Eles foram prejudicados com aquele cartão vermelho. Precisa haver um processo de recurso para isso. Provavelmente já é tarde demais."

De modo geral, nos EUA, houve muita insatisfação entre os torcedores em relação ao cartão vermelho aplicado a um de seus principais jogadores. Muitos veículos de comunicação questionaram a decisão e a forma como o futebol aplica suas regras — especificamente a obrigatoriedade de deixar o campo após receber o cartão vermelho e a consequente suspensão para uma partida futura.

Balogun tem sido uma peça-chave para os EUA na Copa, marcando dois gols pela equipe comandada por Mauricio Pochettino na estreia, uma vitória por 4 a 1 sobre o Paraguai.

O ex-atacante do Arsenal também abriu o placar contra a Bósnia antes de ser expulso aos 64 minutos, após uma disputa de bola pelo alto com Muharemovic.

Enquanto Balogun tentava proteger a bola, Muharemovic conseguiu se posicionar à sua frente; ao descer o pé de volta ao gramado, o atacante acabou pisando na parte de trás do tornozelo do bósnio, provocando uma torção.

O árbitro brasileiro Raphael Claus exibiu o cartão vermelho após ser chamado ao monitor à beira do campo para rever o lance em supercâmera lenta, com a assistência do VAR, o árbitro de vídeo.

Regras e precedentes

De acordo com o regulamento da FIFA, um cartão vermelho "acarreta automaticamente a suspensão da partida seguinte", mas a entidade "pode ​​impor suspensões adicionais e outras medidas disciplinares".

Durante a fase de grupos do torneio, a suspensão de uma partida do meio-campista catariano Assim Madibo foi aumentada para cinco jogos devido à falta cometida contra o canadense Ismael Kone, que sofreu uma fratura na perna.

No entanto, existe um precedente recente de suspensão, pela FIFA, de uma punição aplicada em jogos da Copa do Mundo.

O capitão de Portugal, Cristiano Ronaldo, foi liberado para jogar a partida de estreia de sua seleção no torneio, apesar de ter recebido um cartão vermelho contra a República da Irlanda durante as eliminatórias da Copa.

O jogador, então com 41 anos, foi expulso após atingir as costas de Dara O'Shea com uma cotovelada durante a derrota de Portugal por 2 a 0 nas eliminatórias, em novembro, recebendo inicialmente uma suspensão de três jogos.

Contudo, após cumprir a suspensão em uma partida contra a Armênia, a FIFA suspendeu o restante da punição por um ano em 25 de novembro, permitindo que Ronaldo participasse dos dois primeiros jogos de Portugal na Copa.

Análise | A questão é como a decisão foi tomada

Na quinta-feira, Balogun tornou-se o 12º jogador a receber um cartão vermelho nesta Copa do Mundo. Ele será o primeiro a não cumprir suspensão.

É notável a decisão da Fifa de, na prática, anular o cartão vermelho que ele recebeu contra a Bósnia-Herzegovina.

Ao contrário da Premier League, não existe processo de recurso contra cartão vermelho na Copa, para proteger a integridade do árbitro.

Muitos apontarão o caso de Cristiano Ronaldo, que cumpriu apenas uma partida de uma suspensão de três jogos após ser expulso por conduta violenta nas eliminatórias.

Essa comparação é válida, mas há muitos exemplos de a Fifa demonstrar clemência antes do início de um torneio.

Este caso é diferente. Trata-se de um cartão vermelho durante a Copa.

De repente, o principal jogador do país-sede está disponível para um jogo decisivo de mata-mata. Houve uma grande pressão da mídia nos EUA para que a decisão fosse revertida.

Isso significa que a verdadeira questão agora é: como a decisão foi tomada? A Fifa não está fornecendo detalhes.

Trump agradeceu à Fifa nas redes sociais, afirmando que uma "grande injustiça" foi corrigida.

Dada a relação próxima e bem estabelecida entre a Casa Branca e a Fifa, surgirão questionamentos sobre essa decisão altamente incomum em favor dos coanfitriões.

Veja o caso de Madibo, do Catar, expulso por uma entrada que quebrou a perna do meio-campista canadense Kone.

Pareceu um acidente infeliz, mas Madibo recebeu uma suspensão de cinco jogos.

Isso deixa a impressão de que a Fifa está definindo as regras conforme a situação avança.