Como crime cometido por madrasta foi desmascarado quase 50 anos depois com revelação de segredo

    • Author, Sonja Jessup
    • Role, Correspondente da BBC para assuntos internos
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  • Tempo de leitura: 7 min

Em um domingo de setembro de 2022, um homem entrou em uma delegacia em Croydon, no sul de Londres, no Reino Unido, e disse aos policiais que precisava revelar um segredo terrível guardado havia quase 50 anos.

Desmond Bernard relatou que, em 1978, a madrasta matou sua irmã Andrea, de cinco anos, ao colocá-la em uma banheira com água escaldante na casa da família em Thornton Heath, também no sul da capital britânica.

A morte da menina sempre foi tratada como um acidente. Mas Bernard, que tinha oito anos na época, afirmou à polícia que Janice Nix o obrigou a mentir sobre o que realmente havia acontecido.

Segundo Bernard, os irmãos viviam aterrorizados com os castigos impostos por Nix, que incluíam espancamentos e até a obrigação de comer comida de gato.

Na terça-feira (26/5), um júri do Tribunal da Coroa de Isleworth considerou Nix, de 67 anos, culpada pela morte de Andrea e por crueldade infantil contra Bernard.

Aviso: esta reportagem contém detalhes que podem ser perturbadores para alguns leitores

Os policiais responsáveis pela investigação afirmam que Nix provavelmente nunca teria sido responsabilizada se Bernard não tivesse decidido revelar o caso décadas depois.

Fran Homer, detetive da equipe de casos arquivados da Polícia Metropolitana de Londres, disse que foi "devastador" ouvir Bernard falar sobre a culpa que carregou durante anos, apesar de não ter tido qualquer responsabilidade pela morte da irmã.

Segundo Homer, Bernard procurou a polícia porque queria "dar a Andrea a voz que ela nunca teve" e porque já não conseguia mais conviver com aquele segredo.

Mesmo assim, provar a responsabilidade de Nix seria um grande desafio, já que quase não restavam registros do caso.

Homer afirmou que Nix não demonstrava nervosismo quando chegou à delegacia para prestar o primeiro depoimento à polícia, em novembro de 2022. A princípio, respondeu "sem comentários" a todas as perguntas.

"Tive a impressão de que ela sabia muito bem o que estava fazendo", disse Homer. "Ela acreditava que ficaria tudo bem porque seria a palavra de uma adulta contra a de uma criança."

Nix já tinha antecedentes criminais. Anos antes, ela publicou um livro de memórias sobre o período em que atuou como uma conhecida traficante de drogas de Londres, sob o apelido de Mama J.

Em 2021, ela falou à BBC sobre essa trajetória e contou que abandonou o crime para trabalhar como agente de liberdade condicional.

Segundo Nix, quando saiu da prisão pela primeira vez, há cerca de 20 anos, enfrentou depressão após ter dificuldades para conseguir e manter empregos por causa dos antecedentes criminais.

Em dezembro de 2016, Nix foi chamada para depor como testemunha em uma comissão parlamentar no Reino Unido, onde falou sobre as dificuldades enfrentadas por ex-presidiários para conseguir trabalho.

"Eu sentia que a sociedade não perdoava, mesmo quando a pessoa fazia de tudo para mostrar que havia mudado", afirmou.

'Diferenças impressionantes'

A polícia afirmou que, logo no início da investigação, percebeu contradições na versão apresentada por Nix sobre o que havia acontecido com Andrea na tarde de 6 de junho de 1978.

Andrea morreu no hospital em 13 de julho, cinco semanas após sofrer queimaduras graves em metade do corpo.

Na época, o caso não foi investigado pela polícia. David Malone, vice-chefe da Promotoria da Coroa em Londres, afirmou que o inquérito sobre a morte da menina durou apenas meio dia.

"Hoje, investigações de homicídio são conduzidas de forma totalmente diferente", afirmou.

"Analisamos dados de celulares, imagens de câmeras de segurança, gravações de áudio. Existe uma enorme quantidade de provas documentais. E, claro, quando se volta tantas décadas no tempo, muitas testemunhas já morreram."

Homer afirmou que os registros hospitalares não haviam sido preservados e contou que os investigadores chegaram a procurar documentos em arquivos de museus locais para tentar encontrar qualquer material relacionado ao caso. A polícia também tentou localizar antigos vizinhos, mas ninguém tinha informações relevantes para a investigação.

Mesmo assim, segundo Homer, os investigadores conseguiram encontrar um breve relatório do legista com um depoimento dado por Nix na época da morte de Andrea. O documento trazia "diferenças impressionantes" em relação à versão apresentada por ela agora, inconsistências que, segundo Homer, Nix não soube explicar.

Nix foi presa no aeroporto em fevereiro de 2025, ao desembarcar em Londres após uma viagem a Antigua. No mesmo dia, foi acusada de homicídio culposo pela morte de Andrea e de crueldade contra Bernard entre outubro de 1975 e junho de 1978.

Segundo Homer, Nix parecia em choque.

"Acho que ela nunca imaginou que isso voltaria para assombrá-la", afirmou a detetive.

'Eu só queria que as agressões parassem'

Os jurados ouviram durante o julgamento que, em 1978, Nix afirmou inicialmente que Andrea havia tomado banho sozinha e depois reclamado de "coceira nas pernas" antes de desmaiar.

Nix admitiu ter dado uma versão falsa dos acontecimentos ao legista, mas disse que entrou "em pânico" por não ter supervisionado a menina.

Ela atribuiu isso à própria "negligência" aos 19 anos e afirmou aos jurados que estava no jardim quando ouviu os gritos de Andrea e correu para tirá-la da banheira.

Segundo Homer, Nix apresentou diversas explicações consideradas "sem sentido" e posteriormente desmentidas por especialistas. Entre elas, a versão de que Andrea teria conseguido conversar após sofrer queimaduras tão graves e a alegação de que a água da banheira teria esquentado demais por causa de um defeito no aquecedor da casa.

No tribunal, Nix insistiu que nunca foi violenta com as crianças. Mas Desmond, hoje com 56 anos, descreveu aos jurados uma rotina marcada por abusos dentro de casa.

Ele afirmou que Nix agredia as crianças com frequência, o queimou com um cigarro e o obrigava a comer comida de gato.

Segundo Bernard, na tarde de 6 de junho, Andrea contou que estava sendo castigada por não ajudar na limpeza da casa.

Ele contou ao tribunal que Nix gritou com a irmã mais nova e a agrediu. Disse também ter ouvido Andrea dizer: "A água está muito quente, mamãe", enquanto Nix mandava que ela entrasse na banheira. Logo depois, ouviu o barulho da água e os gritos da menina.

Bernard afirmou que, depois disso, Nix disse que, se ele afirmasse que tudo havia sido um acidente, "ela nunca mais bateria" nele.

Questionado pela promotora Kerry Broome sobre por que mentiu, respondeu: "Porque eu não me sentia protegido. Eu só queria que aquilo parasse."

"Eles viviam apavorados por causa dela", afirmou Homer, que descreveu os abusos sofridos pelas duas crianças como "abomináveis".

A detetive descreveu Bernard como "um ser humano extraordinário" e afirmou que foi muito difícil para ele ver a madrasta "subir ao banco das testemunhas, mentir e tentar desqualificá-lo".

A inspetora-chefe Louise Caveen disse esperar que o caso mostre às vítimas que elas serão ouvidas, mesmo muitos anos depois.

"Sem [Bernard], não existiria caso. Andrea nunca teria respostas", afirmou.