Por que polêmica envolvendo Israel pode mudar o Eurovision para sempre

    • Author, Daniel Rosney
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Momentos depois de a Áustria ultrapassar Israel e vencer o Eurovision, tradicional festival europeu da canção, em maio do ano passado — garantindo o direito de sediar a edição de 2026 — os espectadores britânicos ouviram o comentarista Graham Norton dizer que os organizadores "devem estar respirando aliviados por não terem de lidar com uma final em Tel Aviv [capital de Israel] no próximo ano".

A final da edição de 2026 do Eurovision acontecerá no sábado (16/5), com 25 países na disputa pelo título.

Os protestos contra Israel ganharam força nos últimos dias, mas eles começaram bem antes e levaram ao maior boicote da história do concurso.

Em uma manifestação com algumas centenas de pessoas na Basileia, na Suíça, onde a final de 2025 foi realizada, manifestantes carregavam bandeiras palestinas e espalhavam sangue falso pelo corpo para simbolizar as mortes em Gaza.

Durante a final, a cantora israelense Yuval Raphael foi alvo de um protesto quando duas pessoas tentaram invadir o palco e atiraram tinta, atingindo um integrante da equipe do Eurovision.

O clima na arena durante a apuração dos votos foi o mais tenso que já vivi em anos cobrindo o festival.

Havia pessoas rezando. Algumas choravam. E a plateia gritava "Áustria, Áustria" enquanto aguardava o resultado final.

Se parte da plateia parecia não querer a vitória de Israel, o voto popular mostrou outra realidade. Yuval Raphael, que havia recebido pontuações medianas dos jurados do Eurovision Song Contest, terminou à frente de todos os outros participantes na votação do público.

O resultado levou várias emissoras a questionarem a posição alcançada por Israel no ranking final. Elas destacaram que as contas oficiais ligadas ao governo israelense nas redes sociais, incluindo a do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, incentivaram o público a votar até 20 vezes na representante do país, o limite máximo permitido pelo concurso.

A insinuação era de que o resultado do voto popular refletia menos um apoio amplo à artista Yuval Raphael e mais uma mobilização organizada para votar repetidamente no país.

O governo israelense afirma com frequência ser alvo de uma campanha internacional de difamação.

Por outro lado, algumas emissoras passaram a pedir uma auditoria do processo de votação no Eurovision. Também surgiram cobranças por mudanças no sistema de votação, em vigor há anos, para garantir, nas palavras da emissora pública flamenga VRT, "uma representação justa da opinião de telespectadores e ouvintes".

Em resposta, a União Europeia de Radiodifusão, responsável pelo Eurovision, afirmou que a votação passou por auditoria e verificação independentes e que não havia evidências de que a possibilidade de votar até 20 vezes "afetasse de forma desproporcional o resultado final".

Mais tarde, a entidade acrescentou que o resultado era "válido e robusto".

A quase vitória de Israel, que participa do Eurovision desde 1973 e já venceu o festival quatro vezes, acirrou um debate que há anos circula nos bastidores sobre o peso da geopolítica e dos conflitos internacionais na votação do concurso.

O maior boicote da história do concurso

O Eurovision enfrenta o maior boicote de seus 70 anos de história.

Apesar da participação de 35 países na edição de 2026, emissoras da Espanha, Irlanda, Holanda, Islândia e Eslovênia decidiram não participar do evento desta semana em protesto contra a presença de Israel.

As justificativas variam e nem sempre são apresentadas de forma explícita. Algumas emissoras afirmam que o boicote à edição de 2026 é uma reação à ofensiva militar israelense em Gaza, iniciada em 2023, que já matou mais de 72 mil pessoas, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. Os dados de mortes em Gaza são considerados confiáveis pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A ofensiva israelense começou depois que o grupo militante Hamas atacou Israel em 7 de outubro de 2023, matando cerca de 1.200 pessoas e fazendo 251 reféns.

Algumas emissoras também acusam o governo israelense de genocídio, acusação rejeitada com veemência por Israel. Em 2025, uma comissão de inquérito da ONU concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza ao identificar que 4 dos 5 atos genocidas previstos no direito internacional foram cometidos por Israel.

Chama atenção o fato de que a maior parte das emissoras que aderiram ao boicote está alinhada, em linhas gerais, às posições de seus governos. Algumas pertencem a países cujos governos criticaram publicamente e de forma contundente o Estado de Israel.

No mês passado, políticos da Espanha, da Eslovênia e da Irlanda tentaram, sem sucesso, pressionar a União Europeia a suspender acordos comerciais preferenciais com Israel.

As emissoras, porém, afirmam que tomaram decisões independentes.

Anteriormente, algumas emissoras já haviam manifestado publicamente preocupação com a participação de Israel desde o início da ofensiva militar, mas nenhuma havia abandonado as edições de 2024 e 2025 do concurso.

Com o aumento dos pedidos de boicote, o ministro da Cultura e dos Esportes de Israel, Miki Zohar, afirmou: "O Eurovision é uma celebração da música, da cultura e da fraternidade entre nações, não uma plataforma para disputa política." Ele classificou um possível boicote como "vergonhoso e hipócrita".

De certa forma, a política sempre influenciou as votações do Eurovision. Países historicamente próximos frequentemente trocam pontos no voto popular.

Mas algumas emissoras avaliam que, embora a União Europeia de Radiodifusão sustente que a votação de 2025 foi legítima, a presença de Israel e os padrões de votação associados ao país estariam comprometendo a ideia de que o Eurovision seja uma competição decidida apenas pela música.

A insatisfação com o que aconteceu no ano passado chegou a tal ponto que algumas pessoas passaram a defender que nenhum país em guerra deveria participar do concurso. Há quem diga que até a Ucrânia deveria ficar de fora, para preservar o que consideram a integridade da votação do Eurovision.

Isso levanta uma questão: o Eurovision deveria mudar suas regras? Ou uma tentativa de reformar o festival acabaria criando ainda mais controvérsia?

Unidos pela música

O Eurovision não é uma disputa entre governos, mas entre integrantes da União Europeia de Radiodifusão, comunidade de emissoras públicas que inclui a BBC, do Reino Unido, cuja principal função é compartilhar imagens de eventos jornalísticos.

Ao longo das décadas, a União Europeia de Radiodifusão expandiu sua presença para além da Europa. O slogan do Eurovision é "unidos pela música".

O atual boicote, portanto, não ocorre entre países, mas entre emissoras públicas, em protesto contra a participação de Israel ou, mais especificamente, da emissora pública israelense Kan.

Ainda assim, o Eurovision jamais esteve totalmente separado da política. O concurso afirma que valores como "universalidade, inclusão e celebração da diversidade" fazem parte de sua identidade e "dialogam com o público dos países participantes".

Dean Vuletic, autor de Postwar Europe and the Eurovision Song Contest (A Europa do Pós-Guerra e o Concurso de Música Eurovision, em tradução livre), afirma que, historicamente, o festival foi usado por alguns países para sinalizar o fim de períodos de isolamento internacional ou demonstrar proximidade com o Ocidente.

Segundo Vuletic, isso remonta "a 1961, quando estrearam no concurso a Espanha de Francisco Franco e também a Iugoslávia de Josip Broz Tito, que foi o único país do Leste Europeu a participar do Eurovision durante a Guerra Fria por integrar o grupo dos não alinhados".

Conflitos entre países já afetaram o Eurovision em outras ocasiões, embora geralmente de forma temporária e restrita a determinadas regiões.

Em 1975, a Grécia boicotou o festival após a invasão turca do Chipre (1974). No ano seguinte, foi a vez da Turquia não participar. Já em 2012, a Armênia se recusou a participar da edição realizada no vizinho Azerbaijão por causa das tensões envolvendo o conflito em Nagorno-Karabakh.

O Líbano faria sua estreia no Eurovision em 2005, mas as leis do país praticamente impediam a transmissão da apresentação de Israel. O Líbano acabou desistindo depois que a União Europeia de Radiodifusão informou que seria obrigatório exibir o programa completo.

O Marrocos participou do Eurovision apenas uma vez, em 1980, justamente no ano em que Israel ficou fora da competição. É amplamente aceito que essa tenha sido a razão para a participação isolada da emissora marroquina.

O boicote deste ano levanta agora uma questão mais ampla: a União Europeia de Radiodifusão ainda consegue impedir que a geopolítica tome conta do Eurovision?

"Recebemos muitos protestos de fãs do Eurovision dizendo que não deveríamos dividir o palco com Israel", afirmou Natalija Gorščak, presidente do conselho de gestão da emissora eslovena RTV Slovenija. "Como emissora pública, entendemos que nossa posição ética deveria ser a defesa da paz."

A emissora islandesa RÚV afirmou, antes de anunciar o boicote, ter "sérias dúvidas sobre a atuação tanto da emissora pública israelense quanto do governo israelense" em relação às regras da competição.

Já a emissora holandesa Avrotos citou "interferência política" na edição de 2025 e afirmou que participar do evento contrariaria "valores públicos fundamentais para nossa organização".

Também se pode argumentar que as cinco emissoras que aderiram ao boicote estão usando o concurso como forma de pressão política para enviar uma mensagem direta ao governo de Israel.

Duas delas já colocaram em dúvida publicamente a permanência futura da Ucrânia no festival, e representantes de outras emissoras europeias vêm fazendo comentários semelhantes nos bastidores.

Emissoras e artistas que participam da edição deste ano estão impedidos de fazer declarações públicas que possam prejudicar a reputação do Eurovision.

Raphael, a cantora israelense, foi escolhida para representar Israel após sobreviver ao ataque do Hamas ao festival de música Nova durante os ataques de 7 de outubro de 2023 contra Israel.

Ela passou horas escondida sob uma pilha de corpos até ser resgatada e se apresentou no Eurovision ainda com estilhaços da explosão alojados na perna.

A União Europeia de Radiodifusão afirmou que a artista cumpria todos os requisitos exigidos pelo concurso, incluindo a regra que proíbe manifestações políticas.

"A música não era diretamente política, mas era simbólica, e a cantora também era simbólica", afirma Gorščak, da emissora eslovena RTV Slovenija. "Continuamos considerando aquilo político, mesmo que, pelas regras da União Europeia de Radiodifusão, não fosse."

As publicações feitas por contas ligadas ao governo de Israel estavam dentro das regras do Eurovision, e políticos de outros países também incentivaram votos para seus representantes nacionais. No entanto, críticos do concurso afirmam que a dimensão da campanha israelense foi diferente e acabou tornando o país um caso à parte.

A União Europeia de Radiodifusão tentou responder às preocupações levantadas por Gorščak e outros executivos reduzindo, neste ano, o limite de votos por pessoa para dez.

A entidade também afirmou que pretende "desencorajar campanhas promocionais excessivas, especialmente quando conduzidas ou apoiadas por terceiros, incluindo governos e órgãos públicos".

Mas, no fim de semana, a emissora israelense Kan recebeu uma advertência formal da União Europeia de Radiodifusão.

Segundo a entidade, "chegou ao nosso conhecimento que vídeos com a mensagem na tela 'vote 10 vezes em Israel' foram publicados e divulgados" pela representante israelense deste ano, Noam Bettan.

Antes do início do evento, na primeira semifinal ao vivo, na terça-feira (12/5), os organizadores pediram que a Kan removesse o conteúdo das redes sociais, solicitação que a emissora atendeu.

O Eurovision afirmou que as publicações não estavam de acordo com o "espírito da competição" e declarou que "continuará monitorando de perto atividades promocionais e adotará medidas apropriadas quando necessário".

Bandeiras em disputa

Alguns analistas apontam que a escalada das tensões começou em fevereiro de 2022, quando a União Europeia de Radiodifusão decidiu excluir a Rússia do Eurovision após a invasão da Ucrânia.

Na época, a entidade afirmou, após consultar seus membros, que a presença russa "traria descrédito à competição". Hoje, nenhuma emissora russa integra a União Europeia de Radiodifusão.

O grupo ucraniano Kalush Orchestra, autorizado a deixar o país para competir no Eurovision apesar da lei marcial, recebeu o maior número de votos do público da história do festival. O vencedor foi confirmado nos momentos finais da edição de 2022, deixando o britânico Sam Ryder em segundo lugar.

A vitória da Ucrânia foi amplamente celebrada, e o Eurovision sustenta que a apresentação do país em 2022 não violou nenhuma regra do concurso.

Mas a emissora eslovena RTV Slovenija avalia que parte do público votou na Ucrânia como demonstração de solidariedade política, o que, em sua visão, comprometeu a essência do Eurovision como competição musical.

"Isso foi político e achamos que não deveria ter acontecido", afirma Gorščak. "Não deveríamos aceitar ativismo político dessa forma. Além de inadequado, isso não é justo. Quando um país é visto como vítima, as pessoas tendem a votar nele. E então um artista como o do Reino Unido, que era excelente, acaba ficando para trás."

"Quando existe um conflito político, precisamos discutir seriamente como representantes do país agressor e do país atacado devem participar, e até se devem participar. Esse é o debate que o Eurovision precisa enfrentar."

A posição de Gorščak, de que artistas de países em guerra não deveriam participar do concurso, parece ser compartilhada também pela emissora pública da Espanha.

Durante uma audiência parlamentar realizada em fevereiro deste ano, o presidente da RTVE, José Pablo López, afirmou: "Precisamos abrir, de uma vez por todas, um debate sério sobre a reforma dos estatutos da União Europeia de Radiodifusão para impedir a participação de países em conflito nas próximas edições do Eurovision."

No ano passado, os membros da União Europeia de Radiodifusão decidiram manter a regra em vigor há sete décadas que permite a participação de qualquer emissora integrante da entidade. Na prática, isso mantém Israel e Ucrânia aptos a disputar o Eurovision.

Ainda assim, apurei que outras emissoras compartilham preocupações semelhantes às levantadas por Espanha e Eslovênia, sobretudo em relação ao receio de que apoiadores de Ucrânia e Israel estejam organizando campanhas de votação em massa para favorecer seus representantes.

"Um país envolvido em um conflito acaba criando um problema ainda maior para o concurso", afirmou à reportagem uma fonte de alto escalão de uma emissora que não aderiu ao boicote. "As coisas precisam ser ajustadas para que exista igualdade de condições, porque atualmente isso não existe."

Mas outros consideram esse argumento injusto por natureza.

Dana International, vencedora do Eurovision por Israel em 1998, escreveu nas redes sociais: "Você não pune um país inteiro porque discorda politicamente de seu governo... Anunciar uma retirada do Eurovision prejudica a própria ideia de paz, prejudica Israel e prejudica o próprio concurso."

A emissora israelense Kan já afirmou que uma eventual desclassificação "teria consequências amplas para a competição e para os valores defendidos pela União Europeia de Radiodifusão" e que isso seria "especialmente preocupante às vésperas da 70ª edição do concurso, criado como símbolo de unidade, solidariedade e fraternidade".

Uma fonte da emissora afirmou à reportagem que a Kan não violou regras da União Europeia de Radiodifusão e, portanto, não haveria motivo para questionar sua permanência no concurso.

Nos últimos 18 meses, a própria União Europeia de Radiodifusão também saiu em defesa da Kan contra o que chamou de "ataques políticos contínuos" vindos do próprio governo israelense, que colocariam em risco não apenas a independência da emissora, mas sua própria existência futura.

O ministro das Comunicações de Israel, Shlomo Karhi, afirmou que as reformas propostas refletem a visão de que emissoras públicas financiadas pelo Estado já não desempenham o mesmo papel de antes.

Representantes do Eurovision afirmam que o festival "há 70 anos serve como plataforma para reforçar a importância da paz e da unidade em um mundo dividido". Mas o que ficou evidente agora é que algumas emissoras já não enxergam o maior programa de entretenimento do mundo como uma competição justa.

Fontes de diferentes emissoras afirmam que, neste ano, foi mais difícil convencer os músicos a participar do concurso. Nos bastidores, a avaliação recorrente é de que os artistas temem desgaste de imagem diante de um Eurovision cada vez mais polarizado.

Enquanto Viena se prepara para receber a 70ª edição do festival nesta semana, o Eurovision mais uma vez se vê incapaz de focar apenas nas músicas, nos efeitos de palco, nas coreografias, no brilho e nas festas.

Em vez disso, o concurso volta a ser cercado por petições e protestos.

As regras do Eurovision determinam que a competição não pode ser usada "como plataforma ou espaço para expressão política, ativismo, controvérsia ou promoção de causas e agendas externas".

A questão agora é o que acontecerá com o festival se cada vez mais países, emissoras, artistas e espectadores passarem a enxergá-lo não como uma celebração acima da política, mas como um evento inevitavelmente moldado por ela.

O concurso musical Eurovision acontece no sábado, 16/5, com 25 países na disputa pelo título. Antes disso, o festival realiza duas semifinais ao vivo, na terça-feira, 12/5, e na quinta-feira, 14/5. Em cada uma delas, dez países avançam para a final e se juntam aos cinco já classificados. A cerimônia poderá ser acompanhada, dentre outras formas, por meio do canal oficial do Eurovision no YouTube.