'Os socorristas não dão conta. Estão tirando as pessoas com unhas e dentes': o desespero para salvar quem está sob os escombros na Venezuela

    • Author, Cecilia Barría
    • Role, Da BBC News Mundo
  • Published
  • Tempo de leitura: 4 min

As frenéticas operações de resgate continuam na Venezuela após o duplo terremoto que atingiu o país na tarde de quarta-feira (24/6).

Equipes de emergência, moradores e familiares seguem procurando e retirando dos escombros pessoas que ficaram presas em edifícios que desabaram em consequência dos dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que sacudiram o país.

"Os socorristas não dão conta. Estão tirando as pessoas com unhas e dentes", disse o estudante Antoan Marín à BBC News Brasil, o serviço em espanhol da BBC. "Eles não têm maquinário especializado", acrescentou ele, que está em Caracas. "Falta ajuda."

Nesta quinta-feira (25/6), equipes de resgate de diversos países viajavam para a Venezuela para colaborar na busca por sobreviventes em meio à extensa devastação que atingiu Caracas e outras cidades da costa central do país.

Vídeos publicados nas redes sociais mostram edifícios residenciais e comerciais completamente destruídos, principalmente na capital e em La Guaira, enquanto familiares procuram desesperadamente seus entes queridos.

Em La Guaira, moradores denunciaram nas redes sociais nesta quinta-feira que as equipes de resgate ainda não haviam chegado e que havia dezenas de pessoas presas que não podiam ser socorridas por falta de recursos.

O balanço oficial aponta pelo menos 235 mortos e mais de 4,3 mil feridos até a noite desta quinta, mas teme-se que o número de vítimas fatais seja muito maior.

Os terremotos ocorreram com apenas 39 segundos de diferença em uma zona de falhas geológicas, aumentando seu impacto mortal.

'Há famílias inteiras presas'

Román Camacho, jornalista venezuelano, publicou em suas redes sociais imagens devastadoras de La Guaira gravadas na manhã desta quinta-feira, nas quais aparecem pessoas presas sob os escombros em áreas onde as equipes de resgate ainda não haviam chegado.

Nelas, vê-se um jovem, identificado pelo jornalista como Amir Infante, bebendo água e com a parte inferior do corpo esmagada por um bloco de concreto. "Não há maquinário, não há os equipamentos necessários para remover os escombros", explica Camacho em seu vídeo. "Há famílias inteiras presas."

Horas depois, Camacho informou que a mãe de Amir havia comunicado que seu filho tinha morrido.

A poucos metros dali, um jovem gritava "Jesus!" enquanto caminhava sobre os escombros procurando pessoas com vida.

"Aqui há três vivos", relatava, apontando com a mão. "Como você se chama?", perguntava através de um pequeno buraco. "Anthony", respondeu uma voz que mal podia ser ouvida.

Com os olhos cheios de lágrimas, o jovem gritava mais uma vez: "Jesus, irmão, fala comigo."

Bombeiros e paramédicos, relatou o jornalista, "estão de mãos atadas".

'Somos três': crianças são resgatadas dos escombros

Apesar de todos os esforços, a interrupção das comunicações e a falta de recursos dificultaram a resposta inicial à emergência. No entanto, à medida que as horas avançam, as equipes de resgate estão sendo mobilizadas com maior rapidez para as áreas mais críticas.

Os canais de televisão locais não apenas divulgaram os relatos de pessoas desesperadas à procura de seus familiares, mas também as emocionantes imagens de vítimas resgatadas com vida, que dão esperança aos venezuelanos em um momento de tanta dor.

"Deus é grande!", diz a voz de um homem enquanto um bebê que havia ficado sob os escombros é resgatado com vida, segundo as imagens de um vídeo publicado pelo veículo Noticias en Red.

Outro caso que despertou esperança na população venezuelana foi o resgate, em La Guaira, de três irmãos pequenos que saíram dos escombros com o rosto coberto de poeira, segundo imagens exibidas pela televisão estatal e nas redes sociais.

"Vem, meu filho, vem para cá", diz um homem ao primeiro menino que sai com vida de uma abertura entre os blocos de concreto de uma casa que desabou. Em seguida, sai uma menina, e o homem pergunta: "Vocês são irmãos?". Ela responde: "Sim, somos três."

Logo depois, com um pouco mais de dificuldade, a terceira irmã consegue sair, soluçando e com o corpo todo coberto de poeira.

Teme-se que ainda haja centenas de pessoas vivas presas sob os escombros.