Estados Unidos e Arábia Saudita assinam acordo nuclear histórico; o que se sabe

Trump e Mohammad bin Salman

Crédito, Stefani Reynolds/Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto, Trump e Mohammad bin Salman têm relação próxima
    • Author, Redação
    • Role, BBC News
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Os Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira (22/7) que chegaram a um acordo histórico que permitirá a Arábia Saudita desenvolver energia nuclear pela primeira vez.

Segundo o Departamento de Energia dos EUA, os dois países assinaram um acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos, juntamente com um acordo bilateral complementar de salvaguardas.

Os acordos assinados com a Arábia Saudita estabelecem a "base legal" para uma "parceria de várias décadas e de bilhões de dólares", disse o governo americano.

O departamento de energia afirmou ainda que o acordo proporcionará "amplo acesso" às empresas americanas no programa saudita de energia nuclear e "reforçará os padrões globais de não proliferação" de armas nucleares.

"Agora, o acordo será encaminhado ao Congresso para análise", acrescenta o comunicado.

Ainda não estão claros todos os detalhes do acordo.

Mas reportagens publicadas na imprensa americanas nesta quarta haviam noticiado que empresas americanas poderão operar centrais nucleares em território saudita, fazendo com que o país enriqueça seu próprio combustível para reatores nucleares, em vez de depender de combustível importado.

Em 2023, segundo dados da Administração de Informação sobre Energia dos EUA (EIA), 62% da energia produzida na Arábia Saudita foram provenientes de gás natural, 38% de petróleo e menos de 1% de fontes renováveis.

Segundo especialistas em energia, mesmo com o acordo, provavelmente levará pelo menos uma década para que a Arábia Saudita coloque em operação usinas nucleares para geração de energia civil.

O receio das armas nucleares

A assinatura do acordo, porém, já gera preocupação no Oriente Médio.

O ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Liberman, pediu ao governo israelense para "agir com determinação" para impedir o acordo.

"O programa nuclear civil da Arábia Saudita acabará resultando em armas nucleares", escreveu Liberman no X, acrescentando que isso levaria a uma "corrida armamentista insana em todo o Oriente Médio".

O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, líder de fato da Arábia Saudita, chegou a afirmar no passado que buscará desenvolver armas nucleares caso o Irã, rival histórico dos sauditas, faça o mesmo.

Mas, segundo análise de Frank Gardner, correspondente de segurança da BBC, o acordo de agora não significa que os sauditas buscarão uma bomba nuclear, pelo menos nas condições atuais.

"Mas esse é o receio que inevitavelmente cerca este acordo. O Irã enriqueceu seu próprio urânio e veja o que aconteceu por lá", disse.

Nas profundezas de suas montanhas desérticas, longe da observação dos satélites americanos, o Irã prosseguiu com o enriquecimento de 441 kg de urânio a 60% de pureza, muito acima dos 3,67% necessários para a geração de energia nuclear para fins civis e a apenas um curto passo do urânio altamente enriquecido em grau militar, necessário para construir uma bomba.

Acredita-se que esse urânio ainda esteja nos túneis que foram bombardeados no ano passado pelos Estados Unidos.

"Não há nada que sugira que a Arábia Saudita tenha a intenção de fazer o mesmo que o Irã ou de desviar seu incipiente programa nuclear civil para fins militares. Mas os sauditas vivem em uma vizinhança perigosa e, se o Irã viesse a adquirir uma arma nuclear, eles certamente desejariam ter uma própria como forma de dissuasão", seguiu Gardner.

A aproximação EUA-Arábia Saudita

A razão pela qual os EUA finalizaram o acordo é dupla. Há um interesse comercial, porque empresas americanas vão ganhar dinheiro com isso.

Mas, em parte, trata-se de manter a Arábia Saudita dentro da sua esfera estratégica de interesse, analisa Gardner.

Se Washington recusasse um pedido saudita de ajuda para o seu programa nuclear civil, então os sauditas poderiam recorrer aos chineses para os ajudar.

O acordo mostra também um alinhamento cada vez mais próximo entre os dois países.

Desde o seu regresso à Casa Branca, o presidente Donald Trump tem trabalhado para cultivar uma relação mais próxima. Uma das suas primeiras grandes viagens ao exterior foi à Arábia Saudita, em maio de 2025, quando empresas sauditas se comprometeram, segundo relatos, a investir 600 mil milhões de dólares nos EUA.

Em novembro, Trump recebeu calorosamente o príncipe Mohammad bin Salman na Casa Branca.

Ele foi recebido com uma saudação pessoal sobre um tapete vermelho, um desfile aéreo militar e uma visita à residência presidencial. O presidente também fala de forma muito elogiosa dos líderes sauditas, afirmando frequentemente que o rei Salman bin Abdulaziz lhe disse que os EUA eram "um país morto" sob a gestão anterior, de Joe Biden.

Conversas desde 2008

As negociações para a cooperação entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita num programa nuclear civil remontam a 2008.

Durante o governo George W. Bush, os dois países assinaram um memorando de entendimento não vinculativo, no qual os EUA afirmaram que ajudariam o reino do Golfo a desenvolver energia nuclear para fins civis, mas a Arábia Saudita declarou que pretendia importar combustível nuclear e não procuraria "tecnologias nucleares sensíveis".

De 2017 a 2019, os EUA concederam a sete empresas americanas autorização para participar em "discussões nucleares civis" com a Arábia Saudita.

Contudo, em 2020, o Congresso informou que os dois países "não tinham feito progressos significativos" devido a "divergências persistentes" sobre condições que incluíam restrições ao enriquecimento.

Em 2022, os EUA e a Arábia Saudita assinaram um novo memorando de entendimento sobre "troca de informação técnica e cooperação em matérias de segurança nuclear".

Em 2023, o Wall Street Journal informou que os EUA estavam considerandio uma operação de enriquecimento de urânio administrada pelo país dentro da Arábia Saudita.

Por fim, em novembro de 2025, os EUA e a Arábia Saudita assinaram uma declaração conjunta que, segundo a administração Trump, "estabelece a base jurídica para uma parceria em energia nuclear de várias décadas e de vários milhares de milhões de dólares".