Veja as estimativas de intenção de voto no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil
O cálculo de Lula para não ir ao debate da Globo

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- Author, Iara Diniz
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
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- Tempo de leitura: 6 min
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não vai ao debate presidencial desta quinta-feira (1/10), organizado pela TV Globo.
A informação foi confirmada por fontes ouvidas pela BBC News Brasil e pela assessoria da emissora. A campanha do petista, contudo, ainda não se manifestou oficialmente.
A decisão repete uma estratégia adotada por Lula em 2006, quando ele também não participou de nenhum debate no primeiro turno.
O cenário, contudo, era outro. Naquele ano, Lula tinha ampla vantagem nas pesquisas em relação aos demais candidatos e acabou vencendo Geraldo Alckmin — hoje vice-presidente — no segundo turno.
Desta vez, Lula chega ao debate em uma disputa apertada com Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário. Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC, a distância entre os dois caiu no primeiro turno, enquanto eles aparecem empatados no segundo turno.
Mesmo assim, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que a decisão pode fazer parte de uma estratégia para preservar Lula de uma exposição que oferece mais riscos do que benefícios.
Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a principal razão seria evitar que Lula se torne alvo de ataques e poupá-lo para um eventual segundo turno.
"Ir ao debate seria se expor desnecessariamente ao ataque coordenado de vários políticos ao mesmo tempo, de formas diferentes, então Lula preserva, pelo menos no primeiro turno, a sua imagem", pondera.
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
"É uma eleição que está disputadíssima. Se por ventura tiram ele do sério, ele dá uma escorregada, ele pode perder voto. E, perdendo voto, ele pode perder a eleição", acrescenta.
A cientista política Graziella Testa, doutora em Ciência Política pela USP e professora da Universidade Federal do Paraná, também considera que a decisão pode ser compreendida do ponto de vista estratégico, embora ressalte que ela foge ao padrão mais comum das campanhas.
Segundo ela, historicamente, candidatos tendem a evitar debates por considerar que têm mais a perder do que a ganhar quando lideram as pesquisas com uma vantagem significativa— o que não é a situação de Lula atualmente.
Para Testa, parte desse cálculo da campanha do petista está relacionada não apenas ao que acontece durante o debate, mas ao que se fala sobre ele depois, especialmente nas redes sociais.
"De duas eleições para cá, importa mais os cortes, os pequenos enxertos do que foi dito, em vez do que foi debatido de forma mais profunda", diz.
Segundo ela, um trecho isolado de uma fala de Lula poderia ser usado para construir uma narrativa mais ampla, inclusive relacionada à idade do presidente, que poderia ser explorada pela campanha de Flávio Bolsonaro.
"Eu acho que tem uma avaliação de que uma coisa pequena pode virar decisiva nesse momento", afirma.

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A estratégia, porém, tem um custo, afirma Marco Antonio Teixeira, professor de Ciência Política da FGV São Paulo.
Para ele, apesar da campanha de Lula avaliar que ele tende a ganhar mais do que perder com a ausência no confronto, "não pega bem para o candidato faltar ao escrutínio público".
"E fica claro que ir ou não ao debate depende de estratégia de campanha, e não de dar ao eleitor mais elementos para fazer sua escolha", lamenta.
Na visão de Teixeira, por mais que Lula esteja mantendo um padrão na campanha — não participou de nenhum debate até agora —, ele erra ao adotar essa estratégia neste momento.
"Acho arriscado. Lula perde uma ótima oportunidade de mostrar suas diferenças em relação aos outros candidatos, principalmente a Flávio Bolsonaro. E obviamente sua ausência vai ser explorada", destaca.
O debate pode influenciar na disputa?
Outro elemento considerado pelos especialistas no cálculo da campanha de Lula é o impacto que o debate pode ter sobre uma eleição em que parte significativa do eleitorado já parece ter definido sua escolha.
Prando, por exemplo, não espera que a ausência do petista produza mudanças no voto do eleitor, em razão do alto grau de cristalização apontado pelas pesquisas.
"Praticamente 87% dos eleitores já cristalizaram o seu voto e não devem mudar de jeito nenhum. Dos eleitores do Lula, 92% dizem que não vão mudar a sua escolha. E do Flávio Bolsonaro são 91%, segundo as pesquisas", pondera.
"Não acredito que haja impacto considerável à campanha do Lula por conta daquilo que pode ser dito ou falado sobre ele na ausência dele", acrescenta.
Cila Schulman, especialista em marketing político e CEO da Idea, também considera limitado o potencial de mudança do debate.
De acordo com ela, a não ser que aconteça alguma coisa "muito fora do script", o quadro permanecerá polarizado entre Lula e Flávio.
"Se houver segundo turno, aí sim acho que os debates vão ser mais mandatórios para ambos, e aí a gente vai ter essa demanda do eleitor", destaca.
O fator Renan Santos
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, foram convidados para o debate Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). O critério utilizado pela Globo considera a representação dos partidos no Congresso após as eleições de 2022, conforme as regras eleitorais para participação em debates.
Flávio havia dito que participaria mesmo sem Lula. A participação de Caiado e Augusto Cury também está prevista.
A Globo informou às campanhas que poderia convidar outro candidato caso um dos nomes originalmente convocados não participasse. Isso, porém, não significa que a substituição seja automática, segundo a emissora.
Renan Santos (Missão) é um dos nomes que passaram a ser mencionados diante da ausência de Lula. Entre os candidatos que não foram convidados originalmente, ele aparece com a maior intenção de voto nas pesquisas divulgadas até o momento.
A Globo ainda não se manifestou sobre a possibilidade de convidá-lo.
Renan convocou sua militância para uma manifestação em frente à Globo na quinta-feira caso ele não seja convidado para o debate.
Nesta quarta-feira (30/9), o partido dele, Missão, também entrou com um pedido junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para poder participar do confronto.
O Missão argumenta que "a emissora criou legítima expectativa de participação ao convidar Renan Santos, desde março deste ano, para o conjunto de atividades ligadas à cobertura da eleição presidencial — debates, sabatinas e entrevistas."
Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, uma eventual participação de Renan Santos poderia mudar o tom do debate, especialmente por aumentar o número de candidatos dispostos a confrontar Flávio Bolsonaro.
"O Renan tem sido o crítico mais ácido do Flávio no chamado campo da direita. Inclusive com um nível de agressividade muito grande", pontua Marco Antônio Teixeira.
A presença do candidato do Missão também poderia afetar a decisão de Flávio de participar do confronto, na avaliação de Cila Schulman.
"O Flávio anunciou essa ida, pode ter sido uma forma de mudar a pauta no final de semana, que estava mais positiva para o presidente Lula do que para ele, por conta desse ruído todo em torno da religião, e também porque o presidente Lula tinha anunciado ali o fim das bets. Então eu não tenho certeza se ele [Flávio] irá... principalmente se o Renan for."
Para Teixeira, o debate provavelmente terá um tom acusatório. E embora espera-se que a ausência de Lula seja explorada pelos adversários, ele aposta que Flávio Bolsonaro se tornará a principal "vidraça" do debate.
"Não temos visto nessa campanha um debate de propostas, de projetos de país. O que está acontecendo é uma troca de acusações e não tenho dúvida de que vai ser esse o tom do debate, principalmente em relação ao Flávio Bolsonaro diante das últimas repercussões na mídia", afirma.



























