Acompanhe a apuração para presidente e governador em seu Estado e município com o mapa interativo da BBC News Brasil
PF investiga suposto plano de atacar embaixada dos EUA: o que se sabe e como o governo brasileiro avalia

Crédito, Rebeca Figueiredo Amorim/Getty Images
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
- Published
- Tempo de leitura: 5 min
A Polícia Federal cumpriu dois mandados de busca e apreensão nesta sexta-feira (2/10) em São Paulo e ao redor de Brasília durante uma investigação sobre um suposto plano de atos que, segundo a PF, poderiam "colocar em risco instalações diplomáticas dos Estados Unidos no Brasil".
Em nota divulgada nesta tarde, a PF disse que não foram encontrados elementos que indicassem o risco às instalações diplomáticas norte-americanas e também não foram identificados suspeitos de envolvimento com organizações criminosas.
"As medidas pertinentes foram prontamente adotadas, não tendo sido verificados até o momento elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados, tampouco identificados quaisquer suspeitos de envolvimento com organizações criminosas. As investigações prosseguem com a análise dos equipamentos de comunicação e mídias apreendidos e eventuais outras providências necessárias", disse a PF em nota.
A ação da PF aconteceu no mesmo dia em que as embaixadas e consulados dos Estados Unidos e Austrália foram fechadas nesta sexta-feira em todo o Brasil.
Autoridades brasileiras vinham investigando o caso, segundo duas fontes ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado.
Segundo as duas fontes, representantes da Embaixada dos EUA no Brasil procuraram autoridades brasileiras entre quinta e sexta-feira e comunicaram o que foi identificado como "riscos à embaixada".
A decisão chamou atenção por ter ocorrido a dois dias das eleições presidenciais e em meio a rumores sobre a possível interferência política norte-americana sobre a disputa presidencial.
Funcionários das embaixadas e dos consulados dos dois países foram orientados a não irem aos seus locais de trabalho, e os cidadãos norte-americanos e australianos receberam um comunicado informando sobre a paralisação dos trabalhos.
Clique aqui
Fim da Promoção da eleição 2026
"Serviços consulares na Embaixada e consulados dos EUA no Brasil serão suspensos na sexta-feira, 2 de outubro, em função de preocupações de segurança. Cidadãos norte-americanos procurando assistência de emergência durante este período não devem ir à Embaixada, consulados ou outras instalações diplomáticas dos EUA", diz um comunicado da Embaixada norte-americana em suas redes sociais.
Em nota enviada à BBC News Brasil pelo Departamento de Estado norte-americano (equivalente ao Ministério das Relações Exteriores), o governo dos EUA não detalhou que ameaças teriam sido identificadas.
"A Administração Trump não tem prioridade maior do que a segurança e a proteção dos americanos (...) Estamos trabalhando em estreita colaboração com nossas contrapartes brasileiras para tratar das questões de segurança", diz um trecho da nota.
"As embaixadas e consulados dos Estados Unidos no exterior utilizam regularmente o sistema de mensagens STEP, incluindo alertas, para informar os cidadãos americanos sobre ameaças, eventos e mudanças relevantes no contexto local", diz a nota enviada à imprensa.
A reportagem aguarda um posicionamento das autoridades australianas, que informaram em seu site que o fechamento se deu devido a preocupações com a segurança.
Um diplomata com conhecimento do episódio, ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado, disse que, tão logo o governo brasileiro foi informado da suposta ameaça, o caso foi repassado à Polícia Federal para que fosse apurado.

Crédito, Reuters / EPA/Shutterstock / Agência Senado
Cautela no governo
Um auxiliar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse, em caráter reservado, que o governo avalia o episódio com preocupação e cautela.
Segundo ele, o fechamento das embaixada dos Estados Unidos, seguido do anúncio australiano, deixou membros do governo preocupados por conta do histórico recente de iniciativas norte-americanas interpretadas pela administração petista como tentativas de interferência nas eleições presidenciais em favor do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Neste contexto, o fechamento abrupto da embaixada norte-americana poderia enviar uma mensagem à comunidade internacional de que as eleições no Brasil não transcorrem em clima de tranquilidade, caso não os "riscos" apontados pela Embaixada dos EUA não sejam identificados.
Chamou atenção, segundo ele, que a Austrália tenha feito o mesmo movimento sem que houvesse uma comunicação prévia ao governo brasileiro a respeito de eventuais riscos à embaixada do país.
Ele disse, no entanto, que o governo não tratou o assunto como uma possível sabotagem das eleições brasileiras por parte dos norte-americanos e que encaminhou as possíveis ameaças à embaixada norte-americana à Polícia Federal imediatamente.
Segundo ele, somente a investigação conduzida pela PF vai poder indicar se os riscos identificados pelo governo norte-americano eram reais ou não.
Nesta semana, o governo do Reino Unido também emitiu um alerta a seus cidadãos sobre riscos decorrentes do período eleitoral no Brasil.
"Protestos, manifestações e greves podem acontecer em cidades pelo Brasil. Mesmo eventos pacíficos podem se tornar confrontacionais e se tornarem violentos. A policia tem usado balas de borracha e gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes", diz um comunicado no site do governo britânico.
O alerta, no entanto, é semelhante ao que foi feito durante as eleições de 2022.
O clima de desconfiança do governo brasileiro em relação aos Estados Unidos é resultado, segundo o auxiliar ouvido pela BBC News Brasil, de medidas tomadas pela administração do presidente norte-americano, Donald Trump, desde o ano passado, com a imposição de tarifas a produtos brasileiros e sanções a ministros de Estado e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como Alexandre de Moraes, relator do processo que acabou na prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O episódio mais recente de suposta tentativa de interferência dos EUA em assuntos políticos brasileiros teria sido, segundo ele, o repasse de US$ 1 milhão pelo governo norte-americano a grupos que se opõem ao ativismo judicial e censura supostamente praticados pelo STF.
Segundo este auxiliar do presidente Lula, o governo brasileiro vinha monitorando possíveis ações norte-americanas contra instituições brasileiras. O episódio fez com que a Advocacia-Geral da União (AGU) acionou a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR) para apurar o caso.
Na avaliação do governo brasileiro, a administração Trump tem preferência pela vitória de Flávio Bolsonaro, que seria visto como supostamente mais "dócil" aos interesses norte-americanos.
Outro movimento interpretado como uma tentativa de pressionar o governo Lula às vésperas das eleições foi o anúncio feito por 14 países do continente americano para impor medidas contra facções criminosas latino-americanas, entre elas duas brasileiras: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Os países, unidos pelo grupo que se autointitula Escudo das Américas, se comprometeu a impor sanções a essas organizações de modo semelhante à designação feita pelos Estados Unidos que classificou PCC e CV como organizações terroristas internacionais.
A medida gerou críticas do governo brasileiro que vê, na classificação das facções como terroristas, uma tentativa de justificar eventuais ações militares na fronteira do Brasil ou em território brasileiro.
Ontem, Trump disse que está acompanhando "muito de perto" as eleições no Brasil. Ele afirmou ainda que o país e a disputa presidencial atual são muito importantes.
"O Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante", disse Trump, após ser questionado por uma repórter na Casa Branca.
Antes, ao ser questionado se estava seguindo a eleição, ele respondeu que estava acompanhando "muito de perto".






















