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'Tenho mais medo da gordura': o mercado irregular de canetas emagrecedoras que leva brasileiros ao Paraguai
Quando a agente da Receita Federal na fronteira entre o Brasil e o Paraguai sinalizou ao mototaxista que parasse, o nervosismo de Mariane, na garupa, já chamava atenção.
Suando e com as costas curvadas, a advogada de 42 anos explicava na Alfândega de Foz do Iguaçu, no Paraná, que só tinha comprado no país vizinho um pote grande de Nutella. Ela estava mentindo.
Por trás de um casaco roxo amarrado na cintura, colado com fitas adesivas no seu cóccix, estavam sete canetas emagrecedoras escondidas.
A embalagem apontava serem de retatrutida, uma molécula experimental em fase de testes que ainda não foi aprovada para uso humano ou para ser vendida em lugar nenhum no mundo.
Mas produtos que dizem ter o novo medicamento já são vendidos livremente no Paraguai, de onde são trazidos em grandes quantidades para o Brasil. Também é fácil encontrar formas de comprar pelas redes sociais.
"Tenho mais medo da gordura do que de aplicar esse medicamento em mim", afirmou Mariane à BBC News Brasil ao ser flagrada com o produto. Seu nome real foi preservado nesta reportagem.
A advogada conta que começou a usar canetas do Paraguai há seis meses e que já conseguiu perder mais de 20 kg.
Ela diz que comprava de um vendedor que conheceu nas redes sociais e que entregava em sua casa, em São Paulo, mas resolveu ir por conta própria pela primeira vez ao Paraguai. Assim, conseguiria economizar mais de R$ 300 por unidade.
"Com o preço no Brasil, eu não consigo manter meu tratamento. Agora, vou ver o que fazer", disse Mariane, antes de ser autuada pela Receita e liberada para fazer o caminho de volta à capital paulista.
Na Alfândega de Foz do Iguaçu há apreensões diárias de "retatrutida" feitas pelos agentes da Receita Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Elas se somam às apreensões de vários tipos de canetas e ampolas de medicamentos emagrecedores com outros princípios ativos — especialmente, a tirzepatida—, que são proibidas pela Anvisa de entrar no Brasil.
Nos três primeiros meses de 2026, as apreensões de canetas emagrecedoras já superam, em valor, todo o ano de 2025 no Paraná, Estado onde as autoridades brasileiras realizaram o maior número de operações para tentar conter a entrada ilegal destes medicamentos no país. Foram mais de R$ 11 milhões em apreensões em três meses do ano.
Confira mais sobre esse comércio irregular no vídeo.
Leia também a reportagem em texto.