Farmacêutico relata como era salto de rope jump em ponte onde Maria Eduarda morreu: 'Poderia ter sido eu'

Crédito, Arquivo pessoal/Rodrigo Ratochinski
O farmacêutico Rodrigo Ratochinski, de 28 anos, levou um susto ao saber do acidente que matou uma jovem durante um salto de rope jump — um tipo de salto com corda — em Limeira, no interior de São Paulo.
O rope jump é uma atividade radical em que o praticante pula de um lugar elevado com cordas de baixa elasticidade, o que gera um efeito de "pêndulo humano", em um balanço horizontal.
Um mês antes, ele havia feito o mesmo salto, no mesmo local e com o mesmo grupo de instrutores.
A experiência aconteceu a convite do irmão, que encontrou a atividade em uma página do Instagram. Cada um pagou R$ 180.
Ratochinski conta que já havia praticado outras atividades de risco, como saltar de paraquedas, e que costuma checar os responsáveis pelas avaliações de clientes e pelas redes sociais.
Neste caso, porém, a página nem sequer pertencia a uma empresa formal, e a atividade não era autorizada no local. Semanas depois da visita dele, o acidente: a polícia prendeu três pessoas envolvidas na operação dos saltos.

Segundo o boletim de ocorrência, os instrutores deixaram de prender a corda de segurança e arremessaram Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, de uma altura de cerca de 30 metros. Ela morreu no local.
Para as autoridades, o grupo que oferecia os saltos "não detinha nenhum padrão ou protocolo de gerenciamento dos riscos da operação que praticava".
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"No momento em que eu vi as notícias, eu falei: 'nossa, poderia ter sido eu'", afirmou Ratochinski.
O agendamento havia sido feito pelo WhatsApp, e os pagamentos, por Pix, para uma pessoa física.
O farmacêutico calcula que pelo menos outras 40 pessoas saltaram no mesmo dia, só na parte da manhã. Ele afirma que não assinou nenhum termo de responsabilidade, nem recebeu alerta sobre os riscos.
Mesmo assim, diz, a atividade parecia confiável quando ele chegou à ponte. "Eu vi que o pessoal estava uniformizado, as equipes informaram que havia bombeiros lá. Tinha todo um equipamento. Quando colocaram o equipamento em mim, parecia de qualidade, na minha visão. Senti uma segurança a partir desse momento."
A única conferência feita pelos instrutores, segundo ele, era se a pessoa realmente havia agendado o salto: o cliente se identificava e recebia uma senha.
Por medo, Ratochinski decidiu checar o próprio equipamento. "No momento do salto é quando a gente fica com mais medo, mais adrenalina. Eu estava muito inseguro, então fiz a dupla checagem com as outras pessoas — vi se o cinto e a corda estavam bem presos. Me deu muito medo, mas, ao mesmo tempo, a equipe me passou segurança na hora."
Ele também estranhou o ritmo. Entre um salto e outro, diz, o intervalo era curto: havia uma primeira chamada para colocar o equipamento, depois o cliente voltava para o fim da fila e então saltava.
"Eram muitas pessoas saltando ali. Provavelmente eles já estavam fazendo isso o dia inteiro. Eu não vi um procedimento de dupla checagem, que seria importante nesse momento."

Crédito, Prefeitura de Limeira
Falta de fiscalização beneficia infratores, diz associação
Evandro Schütz, gerente técnico da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta), diz que o Brasil tem uma série de normas técnicas de turismo de aventura. Uma delas trata especificamente do gerenciamento de riscos dessas atividades.
"A estrutura jurídica e normativa no Brasil é muito forte. São 51 normas técnicas tanto para gestão de segurança, quanto para requisitos para produtos ou competência de condutores de algumas atividades específicas", diz.
Ele cita ainda o Código do Consumidor, bem como a Lei Geral do Turismo, que também garantem a segurança das atividades.
Apesar dessas normas, diz, falta fiscalização no país.
"O Brasil tem grandes gargalos na cobrança pela legalidade. É papel do poder público. União, Estados, municípios. Nós não temos a fiscalização da prestação de serviços. Não há pessoas nem estruturas competentes que sejam capazes de fiscalizar a quantidade de pessoas e atividades e empresas e pseudoempresas que oferecem atividades de turismo no Brasil."
Outro problema, avalia, é a informalidade, como no caso do grupo envolvido no acidente, que não possuía um CNPJ.
"Eu preciso ter um cadastro, formalizar esse processo de constituição de uma empresa e também cumprir com as legislações. Mas ao não haver fiscalização, qualquer pessoa pode descumprir. Qual o incentivo para se regularizar e se estabelecer como negócio?"

Crédito, Arquivo pessoal
O acidente
Três homens que operavam a atividade em Limeira foram presos em flagrante por homicídio após a morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos.
O boletim de ocorrência registrou que a corda de proteção não estava fixada no momento do salto.
As autoridades registraram que dois indivíduos que se identificaram como integrantes da empresa fugiram em direção a uma área de vegetação quando um policial se afastou para auxiliar no resgate. Eles também teriam trocado suas roupas.
Uma testemunha que aguardava na fila para participar da atividade, descrita no processo como profissional de enfermagem, filmou o momento.
O vídeo, segundo a polícia, "evidencia de forma inequívoca o lançamento da vítima sem qualquer proteção".
O caso é investigado como homicídio doloso na modalidade de dolo eventual, já que a polícia viu indícios de que os acusados assumiram um risco, ainda que sem intenção.
O juiz Paulo Henrique Stahlbert Natal afirmou que os indiciados "não adotaram as cautelas mínimas necessárias e indispensáveis" para realizar uma atividade perigosa, e que o procedimento padrão exigia a colocação de uma corda de segurança no peitoral da vítima antes do arremesso, seguida de uma dupla checagem pelos operadores, o que não ocorreu.
A prisão dos suspeitos foi mantida.
Ao programa Fantástico, da TV Globo, o advogado de defesa dos três suspeitos, Rafael Gomes dos Santos, disse que os clientes não sabiam explicar como a mulher foi lançada sem estar presa à corda de segurança, que os instrutores estão abalados, que faziam isso há anos e que nunca houve evento semelhante.
A BBC News Brasil tentou contato com o advogado, mas não obteve resposta.

Crédito, Arquivo pessoal
Prefeitura diz que vai processar governo federal
A responsabilidade pela fiscalização, manutenção e controle do acesso à ponte é hoje da União. A Prefeitura de Limeira disse, no sábado, 13/06, que processaria o governo federal por omissão.
Já a Secretaria de Patrimônio da União (SPU), vinculada ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) informou, em nota, que a ponte pertencia a um trecho nunca implementado de uma rede ferroviária federal, no interior de propriedades particulares, e que nunca autorizou quaisquer atividades esportivas ou de outra natureza no local.
Afirmou ainda que a incorporação da ponte ao seu patrimônio só foi autorizada neste ano e que, desde 2024, pede apoio às prefeituras para bloquear o acesso à ponte, mas que o acesso teria sido liberado.




























