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'Saía de casa pensando que podia ser atacado por uma feminista': como jovem escapou da machosfera
- Author, Redação
- Role, BBC News Mundo
- Published
- Tempo de leitura: 7 min
Durante a adolescência, Will Adolphy foi se isolando cada vez mais da família, seguindo os conselhos de influencers nas redes sociais sobre como um homem de verdade deveria parecer, sentir e agir.
Ele acabou envolvido na chamada machosfera, um espaço online onde homens compartilham a ideia de que as mulheres devem servi-los.
Em entrevista ao programa Ready to Talk with Emma Barnett, da BBC, Will falou sobre as armadilhas que o puxaram para a misoginia digital e como agora ajuda adolescentes e jovens homens a evitarem esse caminho.
A pressão de ser aceito
Na escola, havia uma cultura que Will descreve como "o manual do homem" — um conjunto de regras que, quando ele era garoto, sentiu uma grande pressão para seguir.
"Não seja gay", lembra que pensava. "Não seja um fraco. Não seja mulherzinha. Seja forte. Seja duro. Você deve ser atlético."
"Vem de todos os lados", comenta Will — desde professores, pais, filmes, publicidade até a música popular.
"Essas mensagens chegam a você de forma inconsciente".
Will era um jovem sensível. Queria fazer balé, ser ator, mas sua adolescência foi marcada pelo desejo de ser aceito pelos colegas.
"Ser aceito pelo grupo era a coisa mais importante da minha vida", afirma.
"Não ser aceito pelos outros é algo devastador em qualquer idade, mas quando você é adolescente é questão de vida ou morte. Isso foi parte do que depois me fisgou", acrescenta.
Problemas em casa
Os pais de Will se separaram quando ele tinha 17 anos.
"Foi muito difícil durante muito tempo", diz ele. "Era um lar incrivelmente instável".
Ele passou a morar no escritório do pai, no fundo do jardim, levando sua cama e seu videogame.
"Acho que isso foi mais ou menos a minha forma de me afastar da tensão que eu estava absorvendo em casa", explica. "Houve brigas, houve violência".
Grande parte dos conflitos acontecia por causa do tempo que ele passava jogando videogame.
"O Xbox era o único lugar e momento da minha vida em que eu encontrava algum consolo e alívio do que estava acontecendo na escola, do que estava acontecendo em casa".
Will não falou com ninguém sobre o que estava vivendo.
"Eu não tinha o vocabulário para entender o que estava acontecendo comigo. Era o meu estado normal".
A ideologia do 'Don Juan'
Ele começou a consumir conteúdos dos chamados "Don Juans", que prometiam ensinar homens jovens a terem mais confiança com as mulheres.
Aquilo acabou sendo a porta de entrada para a machosfera e, após a universidade, Will passou a se sentir cada vez mais atraído por esse universo: um ecossistema difuso de influencers, ideologias e plataformas digitais.
"Ainda sentia a pressão de ser um 'homem de verdade' e ter sucesso, e eu estava falhando nisso", afirma Will. "Eu não ganhava muito dinheiro".
"E, por outro lado, também havia toda essa pressão para não ser tóxico, então eu me sentia pressionado dos dois lados".
Quando o movimento #MeToo ganhou força, Will diz ter se sentido frustrado com o que percebia como a narrativa dominante.
Como homem branco e heterossexual, ele relata ter ouvido repetidamente que tinha privilégios e que a vida teria sido mais fácil para ele. Na prática, porém, dizia se sentir péssimo e ter ataques de pânico.
"Eu não queria estar naquela situação", reconhece.
"Passava muito tempo vendo vídeos no meu quarto e acumulando ressentimento contra o mundo".
'O feminismo é o veneno'
"A mensagem era muito clara: o feminismo é o veneno", lembra. "É ruim para os homens e o mundo está sendo manipulado contra os homens".
Ele começou a se sentir validado e achou que entendia as vozes que estava ouvindo online. "Era isso que realmente me atraía na maior parte do tempo", diz.
"Eu estava vendo aquilo principalmente como uma forma de autoajuda, porque me sentia tão deprimido e ansioso… e ali eu tinha um influenciador que me indicava como não me sentir deprimido e ansioso."
Um influenciador em particular se tornou uma espécie de figura paterna para ele.
"Foi tão tranquilizador ter alguém que tinha todas as respostas", afirma.
"Eu tinha uma pintura dele na parede", conta. "Costumava citá-lo em todas as conversas que tinha com as pessoas".
'Desconfiança das mulheres'
"Isso me gerou desconfiança em relação às mulheres que eu conhecia", afirma Will.
"Eu realmente sentia que, como homem, o feminismo estava contra mim. Lembro que saía de casa pensando que podia encontrar uma feminista que iria me atacar, e eu precisava estar preparado."
Isso afetou o relacionamento com sua parceira. "Sentia que era muito difícil me conectar com ela e ter empatia pela experiência dela como mulher".
"À medida que eu via cada vez mais conteúdo, desenvolvia uma visão de um mundo que estava contra mim e de que o mundo era feminista e woke, e que eu precisava me proteger desse mundo e me esconder".
Will e a parceira se separaram. Aconteceu durante a pandemia de Covid-19. Ele não estava trabalhando e ficou imerso em uma depressão.
De repente, um dia, algo mudou, e Will percebeu que precisava fazer algo.
"Ficou claro para mim naquele momento… ou eu teria uma vida horrível ou eu iria me matar", conta.
Um amigo sugeriu que Will passasse um tempo longe de tudo, e ele decidiu passar uma semana no País de Gales.
Foi sem telefone e computador e optou por caminhar, meditar e "enfrentar isso dentro de mim".
Esse foi um momento que Will descreve como "alucinante".
"Comecei a colocar para fora todas essas coisas dentro de mim… sentia dor, mas estava tudo bem".
Isso o ajudou a perceber seu propósito: se formar como terapeuta e ajudar jovens e homens como ele.
Ele acredita estar em uma "posição única" para criar espaços de empatia onde homens e jovens possam falar francamente sobre suas experiências.
Parte do processo foi também aceitar que, nas suas palavras, ele estava "cego para o tipo de dano e trauma que mulheres e meninas sofrem".
Hoje, Will entende de onde vem parte da indignação e hostilidade em relação à masculinidade.
"Não era simplesmente algo que surgia do nada, e eu costumava pensar que não era capaz de ter empatia, mas agora me encontro em uma situação em que posso participar de uma discussão sobre a violência contra mulheres e meninas e realmente escutar".
A 'cura' está na conexão
Will é hoje um palestrante e diz que a chave para ajudar homens e jovens é "focar na conexão", abordá-los de uma forma que não se sintam envergonhados.
"Isso pode acontecer simplesmente tomando uma xícara de chá", comenta.
"Quando se cria um ambiente de segurança e confiança, podemos nos sentir mais dispostos a falar sobre coisas que realmente são úteis de conversar."
"O que você está vendo online? O que você está encontrando? O que você pensa do mundo? O que você gostaria que eu soubesse sobre o que significa ser um adolescente hoje? Essas são apenas algumas das perguntas que podemos fazer."
Will tem isso claro: "Formas inflexíveis de ver a vida se alimentam no isolamento… eu não falava com muita gente por medo e porque isso acabava em brigas".
"Olho para aquela época da minha vida e consigo ver por que parte daqueles conselhos eram realmente persuasivos, realmente úteis. E muitas dessas mensagens prejudiciais conseguiram se infiltrar".
A verdadeira armadilha alerta Will, é quando o ambiente online oferece aos jovens a "camaradagem" e a validação que eles sentem falta.
Para ele, as conexões na vida real são a cura, e ele está ansioso para espalhar essa mensagem.
"Quando comecei a me conectar com o mundo real, com pessoas reais, construir um relacionamento com um influenciador simplesmente perdeu todo o seu apelo e força", concluiu.
*Este texto foi adaptado do programa Ready to Talk with Emma Barnett, da BBC. O episódio completo em inglês "Escaping the Manosphere with Will Adolphy" pode ser ouvido aqui.