Surto de Ebola pode estar se espalhando mais rápido que o esperado, alerta médica da OMS

    • Author, Sofia Ferreira Santos
    • Role, BBC News
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  • Tempo de leitura: 6 min

Moradores próximos do epicentro do surto mortal de Ebola no continente africano confessaram seus temores à BBC, após o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que os casos podem estar se espalhando com mais rapidez do que se pensava anteriormente.

Um homem da província de Ituri, na região nordeste da República Democrática do Congo (o epicentro do surto), contou que as pessoas infectadas estão morrendo "com muita rapidez".

"O Ebola está nos torturando", lamenta ele.

O vírus teria matado 136 pessoas na República Democrática do Congo. As autoridades do país relatam mais de 514 casos suspeitos e uma morte no outro lado da fronteira, em Uganda.

A médica da OMS Anne Ancia declarou à BBC que, à medida que a agência investiga o surto, fica cada vez mais claro que os casos de Ebola se espalharam para outras regiões.

Modelos publicados na segunda-feira (18/5) pelo Centro MRC de Análise de Doenças Infecciosas Globais, com sede em Londres, indicam que houve subnotificação "substancial" e não é possível descartar que já possam existir mais de mil casos.

O estudo indica que o surto atual é "maior do que o avaliado atualmente" e sua "real magnitude permanece desconhecida".

Um homem que se identificou como Bigboy contou à BBC News que as pessoas estão "muito assustadas" e fazendo o que podem para se proteger.

Ele afirmou que os moradores locais estão tomando precauções como lavar as mãos com água limpa, mas que ele desejaria poder ter acesso a outros materiais de proteção, como máscaras faciais.

Outro morador de Ituri, Alfred Giza, declarou que as pessoas da comunidade estão conscientes da ameaça e desejam receber máscaras faciais para se proteger, mas ele não saberia o que fazer se um amigo ou familiar contraísse a doença.

A Cruz Vermelha alertou que o surto pode se intensificar rapidamente se os casos não forem identificados no seu início, se as comunidades não tiverem informações e se os sistemas de saúde estiverem sobrecarregados.

"Estamos observando todas estas condições" no surto atual, afirma a organização.

O presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, realizou uma reunião de crise na noite de segunda-feira (18/5). No dia seguinte, ele pediu "calma" e orientou seus cidadãos a permanecerem vigilantes.

O diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou o surto como emergência internacional na semana passada. Ele afirmou estar "profundamente preocupado com a escala e a velocidade da epidemia".

Ghebreyesus declarou emergência no final da noite de sábado (16/5). O comitê de emergência da OMS deve se reunir em breve para avaliar a situação e recomendar intervenções médicas prioritárias.

Mesmo contando com poucos recursos, a organização já liberou quase US$ 4 milhões (cerca de R$ 20,2 milhões) para o combate ao Ebola, mas muito mais dinheiro pode ser necessário.

O surto ocorre em uma região que já enfrenta anos de conflitos. Hospitais e clínicas foram danificados ou destruídos e milhões de pessoas fugiram de suas casas. A maioria delas mora em condições insalubres.

Existem também mais de 11 mil refugiados que fugiram dos combates no Sudão do Sul e grandes movimentos populacionais entre as pessoas que procuram trabalho nas minas de ouro da região.

Rápida disseminação

O receio é que o surto possa ter se desenvolvido por várias semanas antes de ser detectado pela primeira vez, em 24 de abril.

Não há vacina para a cepa do vírus de Ebola causadora do recente aumento dos casos. Mas a OMS está avaliando se outras medicações podem fornecer proteção às pessoas.

Em entrevista ao programa de rádio Newsday, do Serviço Mundial da BBC, Ancia declarou que a província de Ituri é uma "região muito insegura, com grandes movimentos populacionais". Isso dificulta para a agência investigar e ajudar a controlar a doença.

"Quanto mais investigamos este surto, mais percebemos que ele já se disseminou ao menos um pouco através da fronteira e também para outras províncias", explica a médica da OMS.

O surto na República Democrática do Congo já se propagou para a província de Kivu do Sul, onde uma crise humanitária atinge a população há vários anos, segundo Ancia.

Foi também registrado um caso em Goma, a maior cidade do leste do país. Sua população é de cerca de 850 mil pessoas e a cidade está sob o controle dos rebeldes apoiados por Ruanda.

Os altos níveis de insegurança em diversas províncias levam as pessoas a se deslocarem com frequência, o que aumenta o risco e a propagação do vírus, explica a médica.

Diversos países africanos estão tomando precauções, aumentando os controles nas fronteiras e preparando centros de saúde.

A vizinha Ruanda fechou suas fronteiras com a República Democrática do Congo, enquanto Uganda orientou as pessoas a evitar abraços e apertos de mãos.

Um cidadão americano está sendo evacuado da República Democrática do Congo, depois de desenvolver sintomas no fim de semana passado (16-17/5).

O Ministério da Saúde da Alemanha informou à BBC que um cidadão americano estava sendo levado para tratamento no país. E os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) declararam que estão trabalhando para evacuar pelo menos outros seis cidadãos americanos que foram expostos ao vírus.

A OMS e outras agências vêm trabalhando junto aos governos e comunidades locais para tentar impedir a difusão do vírus. Elas pedem aos moradores que adotem medidas de prevenção e informem a unidade de saúde mais próxima, caso apresentem qualquer sintoma.

O que é o Ebola e como ele se propaga?

O Ebola é causado por um vírus. Seus sintomas iniciais são similares aos da gripe, como febre, dor de cabeça e cansaço.

Conforme a progressão da doença, surgem vômitos e diarreia. Certos órgãos podem sofrer insuficiência e alguns pacientes, mas não todos, apresentam sangramento interno e externo.

O vírus é transmitido de uma pessoa para outra pelo contato com fluidos corporais infectados, como sangue e vômitos.

A cepa Bundibugyo, responsável pelo atual aumento dos casos, é rara. Ela só havia causado dois surtos até aqui, matando cerca de um terço das pessoas infectadas.

Entre 2014 e 2016, mais de 28,6 mil pessoas foram infectadas com Ebola no oeste africano. Foi o maior surto do vírus desde a sua descoberta, em 1976.

Naquela ocasião, o surto foi causado pela cepa Zaire, que tem vacina aprovada. A doença se espalhou para uma série de países da África ocidental e outras regiões, como a Guiné, Serra Leoa, EUA, Itália e Reino Unido, matando 11.325 pessoas.