Maior que a rivalidade com o Brasil? Por que Argentina x Inglaterra é o clássico que os hermanos mais querem vencer

Lionel Messi e Harry Kane

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Para os brasileiros, não há dúvida: o maior rival da Argentina é o Brasil. Do lado de lá, porém, a resposta pode ser outra — e reaparece nesta quarta-feira no caminho dos hermanos.

Em 2002, quando Brasil e Inglaterra se enfrentaram nas quartas de final da Copa do Mundo, uma enquete publicada na imprensa argentina fez a pergunta diretamente aos torcedores do país: "quem você quer que ganhe?".

Entre o arquirrival continental, estampado pelo sorriso de Ronaldo, e a Inglaterra de David Beckham, 57% escolheram o Brasil.

Enquete publicada no Diário Olé em 2002

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Legenda da foto, Enquete publicada no Diário Olé em 2002

Vinte e quatro anos depois, a situação se inverte — e é improvável que a gentileza seja retribuída. Com a seleção brasileira eliminada nas oitavas pela Noruega, coube ao torcedor do Brasil o papel de espectador com interesses: nas redes sociais, a torcida declarada é maciçamente por qualquer um, menos a Argentina — repetindo o fenômeno de 2022, quando a campanha do título argentino no Catar foi acompanhada no Brasil por uma mistura de memes, torcida contra e resignação.

Se em 2002 os hermanos escolheram Ronaldo, em 2026 boa parte do Brasil deve torcer por gols de Harry Kane e Jude Bellingham.

Nesta quarta-feira (15/07), no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, a rivalidade volta ao palco onde nasceu e cresceu: uma Copa do Mundo.

Argentina e Inglaterra disputam uma vaga na final — o primeiro confronto entre as duas em Mundiais desde 2002, e o primeiro da história em uma semifinal. Em jogo, além da decisão de domingo (19/07), em Nova Jersey, estão seis décadas de uma relação que atravessou expulsões lendárias, uma guerra de verdade, o jogo mais famoso de todos os tempos e reviravoltas de vilania e redenção dignas de novela.

Jude Bellingham e Harry Kane

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Legenda da foto, Jude Bellingham e Harry Kane estão, assim como Lionel Messi, entre os maiores artilheiros da Copa do Mundo de 2026

Duas rivalidades, duas naturezas

A comparação entre os dois clássicos ajuda a entender por que, do lado argentino, a Inglaterra ocupa um lugar que nem o Brasil alcança.

Brasil x Argentina é a maior rivalidade do futebol sul-americano — o duelo entre os dois países mais vitoriosos do continente, alimentado por décadas de decisões, provocações e pelo debate eterno sobre Pelé, Maradona e, agora, Messi.

Mas é, na essência, uma rivalidade de futebol: uma disputa entre vizinhos pela supremacia de um esporte que os dois têm como identidade. Fora das quatro linhas, Brasil e Argentina são sócios no Mercosul, aliados diplomáticos históricos e destinos turísticos um do outro. A raiva dura 90 minutos — ou, no caso brasileiro em 2026, o que durar a campanha argentina.

Argentina contra a Inglaterra é outra coisa. Ali, o futebol é a superfície de uma ferida histórica: uma guerra real, com mortos reais, travada em 1982 por um território que a Argentina reivindica há quase dois séculos e que segue, até hoje, como causa nacional em Buenos Aires — as Malvinas estampam a Constituição argentina, placas de rua e o discurso político de todos os espectros.

Contra o Brasil, o argentino quer ganhar o jogo; contra a Inglaterra, historicamente, muitos sentem que há algo mais a resgatar. É por isso que a "Mão de Deus" nunca foi tratada na Argentina como trapaça, mas como uma espécie de justiça poética.

1966: o 'roubo do século' e a palavra que a Argentina não perdoou

A origem do rancor tem data e endereço: 23 de julho de 1966, estádio de Wembley, quartas de final da Copa disputada — e depois vencida — pela Inglaterra.

Naquela tarde, o capitão argentino Antonio Rattín foi expulso pelo árbitro alemão Rudolf Kreitlein por "violência verbal" — embora o juiz não falasse espanhol. Rattín se recusou a deixar o campo e permaneceu no gramado por vários minutos, em um dos impasses mais célebres da história das Copas. No caminho para o vestiário, ainda parou para se sentar no tapete vermelho reservado à rainha Elizabeth 2ª — um gesto de desafio que virou fotografia histórica.

A Inglaterra venceu por 1 a 0 e seguiu rumo ao seu único título mundial. Mas o que ficou daquele jogo foi o depois: o técnico inglês Alf Ramsey impediu seus jogadores de trocar camisas com os argentinos e declarou que a Inglaterra jogaria seu melhor futebol contra adversários "que vêm jogar futebol, e não agir como animais".

A palavra "animais" atravessou gerações. Na Argentina, a partida é chamada até hoje de "el robo del siglo" — o roubo do século.

1982: a guerra das Malvinas

Em 1982, o confronto entre os dois países deixou de ser metáfora esportiva. Em 2 de abril daquele ano, a ditadura militar argentina invadiu as Ilhas Malvinas — Falklands, para os britânicos —, arquipélago no Atlântico Sul sob controle do Reino Unido desde 1833 e reivindicado pela Argentina desde então. A resposta da primeira-ministra Margaret Thatcher foi o envio de uma força-tarefa naval.

A guerra durou 74 dias e terminou com a rendição argentina em 14 de junho. Morreram cerca de 650 militares argentinos e 255 britânicos.

Na Argentina, a derrota apressou o fim da ditadura; a soberania das ilhas segue, até hoje, como questão nacional inegociável para Buenos Aires.

A partir dali, qualquer jogo entre as duas seleções passou a carregar um peso que o futebol sozinho não explica.

1986: a 'Mão de Deus', o Gol do Século — e a 'carteira dos ingleses'

O reencontro veio quatro anos depois da guerra, nas quartas de final da Copa do México, em 22 de junho de 1986, no estádio Azteca. E produziu o jogo mais mitificado da história do futebol.

Em um intervalo de quatro minutos do segundo tempo, Diego Maradona marcou os dois gols mais famosos de todos os tempos — um pelo escândalo, outro pela genialidade.

No primeiro, subiu com o punho escondido junto à cabeça e empurrou a bola por cima do goleiro Peter Shilton: a "Mão de Deus", que o árbitro tunisiano Ali Bennaceur validou sem perceber a infração. No segundo, recebeu no próprio campo, girou sobre dois marcadores e driblou meio time inglês — incluindo o goleiro — antes de tocar para as redes. Em 2002, o lance seria eleito pela Fifa o "Gol do Século".

A Argentina venceu por 2 a 1 e, dias depois, ergueu sua segunda Copa do Mundo. Maradona, anos mais tarde, descreveria em sua autobiografia a sensação do primeiro gol como a de "roubar a carteira dos ingleses" — e nunca escondeu que, para ele e para muitos compatriotas, aquela vitória teve sabor de desforra simbólica pelas Malvinas, ainda que nenhum gol devolva o que uma guerra leva.

O argentino Diego Maradona usa a mão para marcar o primeiro gol de sua equipe durante a partida das quartas de final da Copa do Mundo da FIFA de 1986 entre Argentina e Inglaterra, no Estádio Azteca, em 22 de junho de 1986, na Cidade do México, México. Mais tarde, Maradona afirmou que o gol havia sido marcado pela "Mão de Deus".

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Legenda da foto, O argentino Diego Maradona usa a mão para marcar o primeiro gol de sua equipe durante a partida das quartas de final da Copa do Mundo da FIFA de 1986 entre Argentina e Inglaterra

1998: o chute de Beckham e o boneco no pub

O inglês David Beckham recebe o cartão vermelho e é expulso pelo árbitro Kim Milton Nielsen durante a partida das oitavas de final da Copa do Mundo da FIFA de 1998 entre Argentina e Inglaterra, no estádio Geoffroy-Guichard, em 30 de junho de 1998, em Saint-Étienne, França

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Legenda da foto, O inglês David Beckham recebe o cartão vermelho e é expulso pelo árbitro Kim Milton Nielsen durante a partida das oitavas de final da Copa do Mundo

A geração seguinte ganhou seu próprio capítulo em Saint-Étienne, nas oitavas de final da Copa da França, em 30 de junho de 1998 — para muitos, um dos grandes jogos da história dos Mundiais.

A Inglaterra viu Michael Owen, então com 18 anos, marcar um dos gols mais bonitos do torneio em arrancada da intermediária. Mas o jogo virou pelo detalhe: no início do segundo tempo, derrubado por Diego Simeone, David Beckham — ainda no chão — atingiu o argentino com um leve movimento de perna. Simeone desabou teatralmente, e o árbitro expulsou o inglês. Com o 2 a 2 mantido até o fim da prorrogação, a Argentina avançou nos pênaltis.

Beckham se tornou o homem mais odiado da Inglaterra. A imprensa o tratou como responsável pela eliminação, e um boneco com sua imagem chegou a ser pendurado por uma corda na porta de um pub de Londres. Simeone, anos depois, admitiria que exagerou na queda — e que buscou, com ela, induzir a expulsão.

2002: a redenção — com uma falta de Pochettino

O destino, que tem apreço por simetrias nessa rivalidade, marcou o reencontro para quatro anos depois, na fase de grupos da Copa da Coreia do Sul e do Japão, em Sapporo, em 7 de junho de 2002.

O lance decisivo começou com uma falta sobre Owen cometida por um zagueiro argentino chamado Mauricio Pochettino — que, anos mais tarde, faria carreira no futebol inglês, comandando Tottenham e Chelsea, e que hoje é o técnico da seleção dos Estados Unidos, o país-sede desta Copa.

O inglês Michael Owen sofre falta cometida pelo argentino Mauricio Pochettino durante a partida do Grupo F, válida pela fase de grupos da Copa do Mundo, disputada no Sapporo Dome, em Sapporo, Japão, em 7 de junho de 2002. A Inglaterra venceu o jogo por 1 a 0.

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Legenda da foto, O inglês Michael Owen sofre falta cometida pelo argentino Mauricio Pochettino durante a partida do Grupo F, válida pela fase de grupos da Copa do Mundo, disputada no Sapporo Dome, em Sapporo, Japão, em 7 de junho de 2002. A Inglaterra venceu o jogo por 1 a 0.

Na cobrança do pênalti, quem foi para a bola foi Beckham, então capitão. O vilão de 1998 marcou o gol da vitória por 1 a 0, em uma das redenções mais celebradas da história do futebol inglês. A Argentina, apontada como favorita ao título, caiu ainda na primeira fase.

Era, até esta Copa, o último capítulo do confronto em Mundiais.

24 anos depois, com Messi e valendo vaga na final

Lionel Messi vestindo camisa da Argentina

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Legenda da foto, Lionel Messi tem 39 anos e participa de sua sexta Copa do Mundo

O reencontro desta quarta-feira chega carregado de enredos. Pela primeira vez, as duas seleções se enfrentam em uma semifinal — e o retrospecto em Copas não poderia ser mais simétrico: duas vitórias para cada lado (1966 e 2002 para a Inglaterra; 1986 para a Argentina, além da classificação nos pênaltis em 1998, oficialmente registrada como empate).

De um lado, a atual campeã do mundo, embalada pela vitória por 3 a 1 sobre a Suíça na prorrogação - e pelo que podem ser os últimos jogos de Lionel Messi, aos 39 anos, em Copas do Mundo. Do outro, a Inglaterra de Jude Bellingham, autor dos dois gols que eliminaram a Noruega, time que despachou o Brasil nas oitavas — em busca de algo que persegue há exatas seis décadas: seu segundo título mundial. O único veio em 1966, no mesmo torneio em que essa rivalidade nasceu.

Sessenta anos, uma guerra, dois gols eternos e um boneco enforcado depois, Argentina e Inglaterra voltam a se encontrar com uma final de Copa do Mundo em jogo.

Para o torcedor brasileiro, o duelo carrega uma ironia dupla. A Inglaterra de Bellingham já fez o serviço de vingar o Brasil, eliminando a Noruega — mas agora é a última barreira entre a Argentina e a decisão. E, se os hermanos passarem e vencerem no domingo, será o bicampeonato seguido, o quarto título argentino no total, a um só do pentacampeonato brasileiro que sempre foi o argumento final de qualquer discussão de botequim entre os dois países.