Como 'Botas Verdes', congelado há 30 anos no Everest, deve finalmente voltar para casa

Um homem vestindo roupas de proteção no pico de uma montanha coberta de neve segura uma bandeira verde, com uma bandeira indiana menor acima dela.

Crédito, Acervo Pessoal da Família

Legenda da foto, Dorje Morup havia escalado muitas montanhas, incluindo Stok Kangri, o pico mais alto da Cordilheira de Ladakh
    • Author, Jehangir Ali
    • Role, Da BBC News Hindi em Skurbuchan, Ladakh
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  • Tempo de leitura: 8 min

Aviso: Esta reportagem contém a imagem de um cadáver.

Durante 30 anos, um corpo conhecido como "Botas Verdes" (Green Boots, em inglês) permaneceu na neve, aninhado sob uma rocha saliente, não muito longe do cume do Monte Everest.

As botas de montanhismo verde-limão usadas por um alpinista indiano que morreu em 1996 tornaram-se, desde então, um marco sombrio na trilha para muitos alpinistas que tentam escalar o pico mais alto do mundo.

Agora, a Índia está à procura de uma equipe especializada em resgate em grandes altitudes para realizar uma missão complexa e arriscada: recuperar o que eles acreditam ser o corpo de Dorje Morup – possivelmente o mais famoso entre as centenas de pessoas cujos corpos foram deixados congelados na montanha.

O país espera estar prestes a devolver os restos mortais aos amigos e familiares que nunca perderam a esperança de que Morup voltaria para casa.

"Em alguns dias, antes de dormir, eu pensava que alguém bateria na porta naquela noite e que, quando eu abrisse, ele estaria lá", disse a esposa de Morup à BBC.

"Quando ele voltasse para casa, eu lhe perguntaria 'Onde você esteve todos esses anos?'"

O desastre ocorreu durante a descida

Corpo de um alpinista sem vida, deitado de bruços e parcialmente coberto de neve. Suas botas verdes são visíveis nos pés.

Crédito, Foto cedida à BBC

Legenda da foto, O corpo com as botas de montanhismo verdes tornou-se um marco sombrio na jornada rumo ao cume do Everest

Na noite anterior à sua partida para participar de uma expedição histórica indiana ao Everest, Morup estava sentado com sua esposa em sua casa em Ladakh, um território administrado pela Índia em outra parte da região do Himalaia.

Ele fez uma promessa a ela: que voltaria como um herói e deixaria seu país orgulhoso.

"Ele me pediu para cuidar das crianças e ir ao aeroporto recebê-lo em seu retorno", disse Konchak Yangskit à BBC em sua casa.

Morup, de 48 anos, tinha uma patente equivalente à de um cabo na Polícia de Fronteira Indo-Tibetana (ITBP), a força que guarda grande parte da fronteira da Índia com a China, e já tinha experiência em trekking no Himalaia.

Mas Yangskit diz que teve uma estranha sensação de pressentimento naquela noite: "Fiquei pensando se algum dia o veria novamente".

Morup era um dos seis alpinistas da expedição da ITBP que tentava chegar ao topo do Everest, que fica na fronteira entre o Nepal e o território tibetano administrado pela China.

A maioria dos alpinistas opta por subir pelo lado nepalês, mas a equipe de Morup queria escrever seus nomes nos livros de história como a primeira expedição indiana a fazê-lo pelo traiçoeiro lado chinês.

Yangskit, esposa de Morup, vestia um Sulma preto, um robe tradicional de Ladakh, e um colorido lenço de cabeça tricotado, com joias tradicionais ao redor do pescoço, simbolizando a herança de Ladakh e a espiritualidade budista.
Legenda da foto, A esposa de Morup, Yangskit, diz que, como nunca viu o corpo dele, teve dificuldade em acreditar que ele estivesse morto.

Três dos seis membros da expedição tiveram que retornar devido a uma tempestade de neve, mas Morup e outros dois – Tsewang Smanla e Tsewang Paljor – continuaram lutando até chegar ao cume de 8.849 metros.

A tragédia aconteceu quando eles desciam: uma nevasca os atingiu e matou os três.

Assim como muitas das mais de 300 pessoas que morreram na região do Everest desde que os registros começaram, há um século, seus corpos permanecem na montanha.

Dois nunca foram encontrados, mas o terceiro corpo – o de "Botas Verdes" – permanece congelado na neve há três décadas a uma altitude de 8.500 metros.

Durante anos, acreditou-se que "Botas Verdes" fosse outro membro da expedição, Tsewang Paljor.

Mas os depoimentos dos membros sobreviventes da expedição de 1996 e a localização do último contato por rádio com os alpinistas levaram as autoridades a acreditar que os restos mortais pertencem a Morup.

Um certificado emitido pela China atestando que Morup escalou com sucesso o Monte Everest em 10 de maio de 1996.

Crédito, Acervo familiar

Legenda da foto, A família de Morup tem orgulho de mostrar o certificado emitido pelo governo chinês confirmando que ele alcançou com sucesso o topo do Everest

Um oficial da ITBP, falando anonimamente por não estar autorizado a falar com a imprensa, disse ao serviço hindi da BBC que as roupas e o equipamento de escalada de Morup ajudaram as autoridades a identificar o corpo nos últimos anos.

Desde então, eles vêm planejando como trazer seu colega de volta para casa para que possam confirmar sua identidade por meio de testes de DNA e oferecer à sua família um mínimo de conforto.

"Nunca o esquecemos. Era apenas uma questão de tempo", disse o oficial da ITBP.

A difícil operação de resgate

Um mapa do Google Earth mostrando a face norte do Everest, com a rota de subida delineada em vermelho e marcadores indicando vários acampamentos e a localização do Green Boots, próximo ao cume.

Resgatar os corpos daqueles que morreram na montanha é uma tarefa perigosa e árdua e, até a década passada, muito rara.

Muitos dos corpos, como o de Morup, estão no que os alpinistas chamam de zona da morte do Everest – onde as temperaturas podem cair para -40°C e os níveis de oxigênio são cerca de um terço dos encontrados ao nível do mar.

"As condições meteorológicas e de neve serão cruciais", disse Tshiring Jangbu Sherpa, um proeminente alpinista nepalês que participou de outras missões de resgate.

"O lado norte tem menos fendas, mas é mais arriscado. Se algo de ruim acontecer no lado nepalês, você é evacuado rapidamente de helicóptero. Mas não existe esse sistema no lado chinês", disse ele à BBC Hindi.

Um homem segura fotografias antigas nas mãos.
Legenda da foto, Algumas fotos de Morup e alguns de seus pertences ajudaram sua família a manter viva sua memória

O lado chinês do pico – onde está o corpo de Botas Verdes – é mais íngreme e não possui as mesmas estruturas de suporte que a encosta sul, o que é outro fator complicador, disseram fontes sherpas, povo originário da região, ao serviço nepalês da BBC.

"É muito difícil retirar aquele corpo até durante a popular temporada de primavera, quanto mais no outono [quando o clima é mais imprevisível]. Essa é a simples razão pela qual ele continua lá há tantos anos", disse o guia de montanhismo Pemba Ongchu Sherpa.

"Seriam necessários de 10 a 12 alpinistas capazes de chegar ao cume, apenas para fixar as cordas [de sustentação] necessárias para alcançar esse ponto."

O corpo de Botas Verdes também precisará ser carregado até uma altitude onde possa ser recolhido por um helicóptero, ou possivelmente por iaques, um bovino típico da região, e ser transportado de volta para um aeroporto – uma tarefa que também exige muita mão de obra.

Os sherpas dizem que os corpos envoltos em equipamentos de escalada congelados muitas vezes pesam várias vezes mais que um homem médio e frequentemente ficam congelados em posições desconfortáveis, tornando o transporte pelo terreno desafiador ainda mais perigoso. Os restos mortais também podem começar a descongelar e se decompor ao atingirem altitudes mais baixas.

O início da descida com o corpo seria o mais difícil, disse o alpinista indiano Kuntal Joisher à BBC Nepali.

"Vai ser uma empreitada muito, muito arriscada. É um terreno extremamente íngreme com muitas rochas. Do ponto de vista logístico, esses [primeiros] 1 mil metros vão representar um desafio gigantesco."

"O principal é não colocar a vida dos sherpas em risco por causa de um cadáver."

Tudo isso torna a missão de recuperação extremamente cara – especialistas dizem que mesmo as mais simples custam entre 40 mil e 80 mil dólares (de R$ 203 mil a R$ 406 mil), uma quantia que está além das possibilidades da maioria das famílias.

É mais comum que as equipes locais removam os corpos de pessoas mortas da vista do público na montanha: como a exploradora Francys Arsentiev, apelidada de Bela Adormecida do Everest, que em 2007 foi transferida para um local de descanso final mais reservado no Everest, quase uma década após sua morte.

Mas a ITBP – que está financiando a operação de recuperação – quer que o corpo de Morup seja devolvido até setembro e está procurando grupos sherpas de resgate em montanha que possam realizar o trabalho.

Após retornar à Índia, o corpo será submetido a testes de DNA e, se confirmado que se trata de Morup, seus restos mortais serão devolvidos à família.

'Meu coração se recusava a acreditar que ele havia morrido.'

Durante anos, a família de Morup em Ladakh lutou para aceitar seu desaparecimento.

Agora com cerca de 75 anos, Yangskit tem dificuldade em se lembrar até mesmo do dia em que se casou. Mas os dias após a tragédia permanecem gravados em sua memória.

"Eu só sabia que havia uma tempestade na montanha. Mesmo tendo organizado orações em casa, meu coração se recusava a acreditar que ele havia morrido", diz ela com lágrimas escorrendo pelo rosto.

"Eu não vi o corpo dele, então foi difícil para mim acreditar."

Os familiares de Morup estavam reunidos em uma sala. Sua esposa estava sentada em uma cadeira, olhando fotos antigas.
Legenda da foto, A família de Morup continua cautelosa sobre o que a devolução do corpo significará para eles
Punchok Dorjai, o filho mais velho de Morup, olhando para a foto emoldurada de seu pai.
Legenda da foto, O filho mais velho de Morup, Punchok Dorjai, olha para uma foto emoldurada de seu pai

Tudo o que resta de Morup hoje são suas medalhas e troféus, algumas fotos antigas de suas aventuras nas montanhas e, o mais importante, um certificado do governo chinês que atesta que, às 17h30 do dia 10 de maio de 1996, Morup chegou ao topo do Everest.

Caso a missão de resgate seja bem-sucedida, o filho de Morup, Punchok Dorjai, disse à BBC que a família realizará um funeral para ele perto do Parque dos Mártires, em Leh, capital de Ladakh.

"Meu pai deu a vida pelo país e deve ser lembrado como um mártir", disse Dorjai, acrescentando que seus companheiros de equipe que faleceram merecem o mesmo título.

A família também guardará com orgulho um símbolo do legado de Morup em sua casa, junto com sua certificação de cume, disse ele: "Planejamos ficar com as Botas Verdes".

Reportagem adicional de Pradeep Bashyal, da BBC News Nepali.