Por que o polêmico bilionário de tecnologia Peter Thiel se mudou para a Argentina e qual sua ligação com Javier Milei

Peter Thiel se reuniu com o presidente Javier Milei na Casa Rosada em abril passado.

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Legenda da foto, Peter Thiel se reuniu com o presidente Javier Milei na Casa Rosada em abril
    • Author, Ayelén Oliva
    • Role, Da BBC News Mundo
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  • Tempo de leitura: 7 min

A primeira vez que o presidente da Argentina, Javier Milei, se reuniu na Casa Rosada com o bilionário do setor de tecnologia Peter Thiel, a conexão entre os dois foi imediata.

As ideias libertárias funcionaram como um ímã entre o presidente e o fundador da empresa de tecnologia de dados Palantir, segundo disse à BBC Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC) um dos convidados daquele primeiro encontro, que ocorreu em maio de 2024.

"É um anarcocapitalista que encontra outro anarcocapitalista disposto a levar suas ideias à prática — e com resultados", disse Milei, em entrevista ao canal Neura, ao comentar sobre Thiel.

Entusiasmado com as ideias do presidente argentino, Thiel se mudou no início de abril para Buenos Aires de forma temporária com seu marido e seus filhos.

Desde que chegou ao país, o cofundador do PayPal se reuniu com empreendedores argentinos, assistiu ao superclássico do futebol local entre River Plate e Boca Juniors e participou de um torneio amador de xadrez em um clube portenho.

Além disso, segundo informou o jornal Financial Times, Thiel comprou uma mansão de seis quartos em Barrio Parque, a área nobre de Buenos Aires onde se encontram as principais sedes diplomáticas no país.

Javier Milei.

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Legenda da foto, Javier Milei definiu Peter Thiel como um "anarcocapitalista"

Argentina como 'saída'

Peter Thiel é uma das figuras mais influentes e controversas do Vale do Silício.

Nascido na Alemanha e criado nos Estados Unidos, ele fez sua primeira fortuna na Califórnia como cofundador, junto com Elon Musk, do PayPal, a plataforma de pagamentos digitais que mais tarde vendeu para criar a Founders Fund.

Em pouco tempo, Thiel se tornou um dos investidores mais bem-sucedidos do setor tecnológico. Fez investimentos iniciais no Facebook e em pequenos empreendimentos que depois se tornaram gigantes da tecnologia.

Em 2003, ele fundou a Palantir Technologies, uma empresa de dados e software que atualmente presta serviços, entre outros, a diferentes agências do governo dos EUA. Entre elas, a Agência Central de Inteligência (CIA), o FBI e o controverso Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), além de órgãos públicos e privados de países de todo o mundo.

Em fevereiro, a empresa transferiu sua sede de Denver, no Estado do Colorado, para Miami, atraída pelos baixos impostos da Flórida. Thiel mudou sua residência para a cidade no fim de 2025, escapando de um imposto sobre grandes fortunas que está sendo discutido na Califórnia.

Thiel seguiu assim os passos de outros bilionários famosos que nos últimos anos transferiram suas residências de Nova York ou Califórnia para a Flórida, Estado que tem uma carga tributária menor e um ambiente regulatório mais favorável.

Peter Thiel chegou a Buenos Aires no final de abril com sua família

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Legenda da foto, Peter Thiel chegou a Buenos Aires no final de abril com sua família

"Thiel sempre buscou uma rota de fuga. Em um momento, era ir para o mar e construir jurisdições em alto-mar para não pagar impostos. A Argentina faz parte do famoso exit ('saída') que ele vem buscando há muito tempo", disse à BBC Mundo o especialista em tecnologia Santiago Siri, autor do livro Tecnosapiens (2025), no qual analisa como o software livre pode criar uma nova ordem política em escala global.

Com a chegada de Milei à presidência argentina, Thiel viajou a Buenos Aires, onde manteve em maio de 2024 um primeiro encontro com o chefe de Estado. A reunião foi facilitada pelo empresário e investidor tecnológico argentino Alejandro "Alec" Oxenford, que agora é o embaixador da Argentina nos EUA.

No final de abril deste ano, o presidente voltou a receber o empresário na Casa Rosada, desta vez com seu esposo, Matt Danzeisen, que, segundo Santiago Siri, é uma pessoa interessada na cultura argentina e que fala um espanhol perfeito.

Thiel também teria se reunido com empresários argentinos e membros do gabinete de Milei, incluindo o ministro da Economia, Luis Caputo, e o de Desregulação, Federico Sturzenegger.

Thiel é um aliado próximo do presidente Trump, financiando suas campanhas desde 2016

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Legenda da foto, Thiel é um aliado próximo do presidente Trump, financiando suas campanhas desde 2016

O chefe de gabinete de Milei, Manuel Adorni, disse no mês passado perante o Congresso que era um "elogio" que Thiel estivesse no país e que o magnata tecnológico "está interessado nas reformas profundas" que o governo está implementando.

"Os bilionários do mundo que quiserem fugir de países regulados, com impostos mais altos e Estados que perseguem seus cidadãos, são bem-vindos à Argentina, a nova terra da liberdade", disse Adorni.

Essa desregulação é talvez um dos principais atrativos da Argentina para Thiel, que estaria analisando diferentes oportunidades de investimento no país.

Segundo destacou em abril o jornal Buenos Aires Times, a Palantir Technologies — um dos principais fornecedores de software, análise de dados e capacidades de inteligência artificial para governos e exércitos em todo o mundo — já opera na América Latina e provavelmente buscará ampliar sua presença na região desembarcando na Argentina.

Além disso, segundo o mesmo veículo, Javier Milei e seu assessor Demian Reidel expressaram sua intenção de transformar a Argentina em um centro de IA, apoiando-se no programa de energia nuclear do país e nas vantagens da região patagônica para a construção de centros de dados e infraestrutura tecnológica.

A isso se soma que a Argentina poderia representar para o bilionário tecnológico um porto seguro por estar distante de possíveis conflitos no hemisfério norte.

Segundo o New York Times, que citou recentemente uma fonte próxima a Thiel, o bilionário já alertou no passado para o risco de um "Armagedom" — termo que usa para se referir a cenários de colapso social decorrentes da ameaça de uma guerra nuclear.

Aliados ideológicos

No encontro na Casa Rosada que teve em abril passado com Milei, a primeira coisa que Thiel perguntou ao presidente argentino foi como ele pretendia garantir que seu projeto liberal sobrevivesse ao seu mandato.

A história relatada pelo próprio presidente argentino se insere no conjunto de ideias que Thiel desenvolveu em seus numerosos ensaios, nos quais propõe impulsionar a expansão global das ideias libertárias.

Para os investidores tecnológicos, Thiel é um "pioneiro intelectual", que, além de ser um dos homens mais ricos do mundo, conseguiu construir um conjunto de ideias que acompanham suas iniciativas.

Para seus críticos, Thiel é uma figura obscura que, por meio de suas tecnologias de vigilância e análise de dados, busca fundir um poder corporativo ilimitado com uma governança autoritária e antidemocrática incompatível com a liberdade e a democracia.

O presidente Javier Milei, junto ao chanceler Pablo Quirno, recebeu na Casa Rosada o empresário Peter Thiel.

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Legenda da foto, O presidente Javier Milei recebeu Peter Thiel na Casa Rosada em abril

Para Santiago Siri, Thiel é um "antiestatista que atribui a ideia do Anticristo a qualquer um que professe certo grau de estatismo".

"Nesse sentido, Thiel e Milei se identificam", afirma.

A política argentina de oposição Elisa Carrió advertiu em abril passado sobre a presença de Thiel no país e disse que "é terrível que ele se instale na Argentina" porque "vai contra a república, a democracia e as liberdades".

'Sociedades automatizadas'

Após o recente encontro de Milei com Thiel, o ministro da Desregulação, Federico Sturzenegger, anunciou que pretende impulsionar a criação de um regime jurídico para empresas geridas integralmente por inteligência artificial.

Nesse sentido, a iniciativa busca criar "sociedades automatizadas", ou seja, empresas administradas sem a necessidade de contar com funcionários humanos.

"É algo simpático, talvez muito transformador. É preciso olhar para frente, olhar longe, para aproveitar as oportunidades de hoje", disse o ministro.

A iniciativa – que deverá ser aprovada no Congresso – busca beneficiar essas corporações com uma baixa taxa tributária e um marco legal com "termos inigualáveis", segundo informou o governo.

Na mesma linha, Milei apoiou a iniciativa de criação de uma nova categoria jurídica para corporações não humanas em um artigo de opinião publicado no início de junho no Financial Times.

Imagem do edifício do Congresso da Argentina

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Legenda da foto, O Congresso argentino deverá debater a iniciativa do governo de criar "sociedades automatizadas"

No artigo, Milei defendeu a criação de um marco regulatório específico para que a inteligência artificial "seja livre para se desenvolver sem a mão mortal de uma regulação prematura e pouco compreendida".

"A IA nos libertará das limitações do cérebro humano, impulsionando a produtividade além dos nossos sonhos mais ousados", disse o presidente em seu artigo.

A iniciativa chamou a atenção do filósofo israelense Yuval Harari, que alertou sobre o risco de os governos concederem personalidade jurídica aos modelos de IA.

"A personalidade jurídica (da IA) é uma chave de uso geral que também lhes permitiria acessar nossos sistemas financeiros, econômicos e políticos. Isso gera muitas preocupações", disse Harari.

Para Santiago Siri, não existe hoje no mundo um país com jurisdição favorável à inteligência artificial. Por isso, o governo de Milei acredita que a Argentina poderia ocupar esse vazio.

Para o presidente argentino, a chegada de Thiel ao país representa um respaldo ao seu programa de reformas voltado a reduzir a intervenção estatal e aprofundar a inserção internacional da Argentina.

"Durante muito tempo, a Argentina construiu um labirinto de restrições que reduziram o que era uma das nações mais ricas do mundo a uma pobreza relativa. Felizmente, estamos mudando", disse Milei.