Os 'icebergs de gordura' que estão se espalhando pelos esgotos das cidades e preocupando os cientistas

Robô em testes dentro de um cano

Crédito, Projeto Pipeon

    • Author, Laurie Clarke
    • Role, BBC Future
  • Published
  • Tempo de leitura: 9 min

Bem abaixo do burburinho dos pedestres e do tráfego de veículos da Whitechapel Road, na zona leste de Londres, algo realmente apavorante estava tomando forma.

Um monstro subterrâneo, pesando mais de 130 toneladas (o peso de 11 dos famosos ônibus vermelhos de dois andares da capital britânica), respirava gases tóxicos nos esgotos londrinos.

Ele cresceu sem ser notado na rede da era vitoriana que passa embaixo daquela rua de grande movimento, até que um grupo de trabalhadores encontrou sua lateral, dura como uma rocha, durante uma inspeção de rotina.

Agora, uma equipe armada de picaretas e jatos d'água de alta pressão, vestindo roupas de proteção da cabeça aos pés, se prepara para enfrentar aquela fera em putrefação.

Seu inimigo é um aglomerado de virar o estômago, composto de gordura, óleo, graxa, lenços molhados, absorventes higiênicos e preservativos, conhecido em inglês como fatberg — um iceberg de gordura.

Esta diabólica mistura forma uma "composição mágica" que endurece como concreto, segundo Richard Martin, chefe de melhoria de tratamento da Southern Water, a empresa de água responsável pelos esgotos do sudeste da Inglaterra.

Blocos medonhos como este ameaçam cidades de todo o mundo. Eles podem surgir de maneira rápida e imprevisível.

Formados com material lançado ao esgoto pelas empresas e residências, eles bloqueiam os sistemas de esgoto, causando alagamentos e levando poluição até os rios próximos.

As famílias e empresas podem ver o esgoto retornando para seus imóveis ou fluindo para as ruas no lado externo, se os icebergs de gordura maiores não forem controlados.

Os trabalhadores da Thames Water (responsável pelo sistema de esgotos de Londres) levaram nove semanas para retirar aquela massa coagulada nos subterrâneos de Whitechapel em 2017.

E, no final de 2025, foi descoberto que ela havia retornado, crescendo novamente até atingir mais de 100 toneladas.

As companhias de água do Reino Unido enfrentam cerca de 300 mil desses acúmulos de gordura, óleo e graxa solidificada todos os anos.

Em Nova York, nos Estados Unidos, 40% dos acúmulos no esgoto são formados por graxa. A cidade gasta cerca de US$ 18,8 milhões (cerca de R$ 92 milhões) anuais, retirando a graxa e abrindo os bloqueios dos esgotos que passam por baixo das suas ruas.

Esses mastodontes que concorrem com o espécime encontrado em Londres se formam com frequência alarmante.

Icebergs de gordura gigantes já foram descobertos ocultos no subsolo de subúrbios de cidades como Detroit e Baltimore, nos Estados Unidos; Oxford e Liverpool, no Reino Unido; e em Melbourne e Sydney, na Austrália.

O grande desafio é detectar os blocos antes que eles atinjam proporções gigantescas.

Ocultos nas úmidas profundezas das cidades, os fatbergs se formam totalmente fora da nossa visão, com materiais que fazemos questão de esquecer, assim que os lançamos no esgoto.

Agora, as companhias de saneamento estão adotando novas tecnologias para ajudá-las nas suas batalhas subterrâneas contra os icebergs de gordura. Elas empregam inteligência artificial para ajudá-las a identificar os sinais dos acúmulos de gordura e intervir a tempo.

Sinais precoces

No Reino Unido, a Southern Water instalou cerca de 34 mil sensores nos seus esgotos. Eles são fixados às tampas dos bueiros e emitem sinais de radar, que são refletidos pela água do esgoto, para verificar seu nível.

Estas medições alimentam um algoritmo de aprendizado de máquina (uma forma de IA). Elas são combinadas com informações sobre dados climáticos e precipitação, para calcular qual deveria ser o nível normal da água em cada dia específico.

E, "se a leitura estiver fora daquela faixa, precisamos entrar em ação", explica Martin.

Trabalhador com roupas de proteção faz a inspeção e limpeza de um cano de esgoto com paredes de tijolos vermelhos

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A graxa e a gordura que descem pelo esgoto das residências e das empresas é um problema persistente no envelhecido sistema de esgoto de Londres

Historicamente, as empresas de água e esgoto usavam as indicações dos clientes ou inspeções de rotina para descobrir os icebergs de gordura. Mas, com as informações da IA, ficou muito mais fácil liberar bloqueios antes que eles cresçam e se solidifiquem.

A tecnologia permite que as empresas tenham mais tempo para combater o problema e menos vazamentos de esgoto para o meio ambiente.

Outra vantagem é que os trabalhadores podem ser mantidos longe da sujeira da rede subterrânea pelo máximo de tempo possível.

"Não é um ambiente muito agradável", descreve Martin.

Os trabalhadores precisam usar equipamento de respiração, devido aos altos níveis de metano, dióxido de carbono e sulfeto de hidrogênio, um gás tóxico que produz cheiro de ovo estragado. E eles também se arriscam a ficar expostos a vírus, bactérias e parasitas.

A Southern Water já limpou 700 bloqueios usando IA, nestes primeiros meses de 2026. No ano passado, ao todo, foram cerca de 3,5 mil a 4 mil bloqueios.

"Muitos deles poderiam ter resultado em alagamentos internos e externos, além de liberarem poluição", explica Martin.

Mesmo com este trabalho, a companhia ainda sofreu mais de 15,5 mil vazamentos em redes de esgoto bloqueadas ou sobrecarregadas em 2025. Mas este número representa uma redução de 47%, em relação ao ano anterior.

Fragmentos de um 'iceberg' de gordura encontrado nos esgotos de Londres em 2025

Crédito, Thames Water

Legenda da foto, Em 2025, um 'iceberg' de gordura, com peso estimado de mais de 100 toneladas, foi encontrado bloqueando os esgotos da zona leste de Londres

Os icebergs de gordura têm muitas formas e tamanhos.

Em 2021, um "monstro" de 300 toneladas foi escavado em Birmingham, na Inglaterra. Ele tinha apenas 90 cm de altura, mas se estendia por 1 km de pura imundície.

Já o encontrado em Londres, em 2017, tinha 1,80 metro de altura e 250 metros de comprimento. O cheiro? Carne podre, misturada com um banheiro malcheiroso.

Foi encontrado recentemente um enorme fatberg em Sydney, lançando "bolas de cocô" com odor pestilento. Elas acabaram nas praias do Estado australiano de Nova Gales do Sul.

Surpreendentemente, alguns desses icebergs de gordura se tornaram elas próprias uma atração.

Pedaços do fatberg encontrado em Londres em 2017 foram expostos em um museu da cidade, atraindo um número recorde de visitantes. E os cientistas também ficaram ansiosos para pôr suas mãos neles.

Pedaços de queijo

De um grande tubo de ensaio em uma prateleira atrás da sua mesa, Raffaella Villa retira um pedaço do iceberg de gordura londrino de 2017, que ela guarda de recordação.

Villa é chefe da Escola de Engenharia da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e participou da análise do fatberg para o Museu de Londres.

Ela esmigalha aquela substância branca e seca entre seus dedos.

"É muito duro", descreve ela. "A textura é similar ao sabão; é bastante gorduroso."

Villa coloca o "souvenir" de lado e procura o higienizador. "Deixe-me limpar as mãos."

Pedaço do iceberg de gordura encontrado em 2017, em exibição no Museu de Londres

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Um pedaço do iceberg de gordura encontrado em 2017 está até hoje em exibição no Museu de Londres, revelando a durabilidade da gordura endurecida

Villa conta que os processos químicos específicos que são responsáveis pela formação dos icebergs de gordura precisam ser estudados com maior profundidade.

Ela suspeita que, além da gordura, graxa e óleo, também o leite possa ajudar a coagular essa mistura nada apetitosa.

"Enquanto eu esperava meu cappuccino em uma cafeteria, vi baristas despejando muito leite na pia", ela conta.

"Ao lado dela, fica uma lavadora de pratos que lança água quente com pH muito alto, formando as condições necessárias para a produção de queijo."

"Se isso acontecer no esgoto, pode gerar o fatberg", explica ela.

Villa destaca que o queijo é mole no início da produção e endurece com a maturação. E "os fatbergs são muito parecidos".

Já se sabe que as ruas que concentram pequenas lanchonetes de kebab são pontos de formação de blocos de gordura. Nelas, panelas de óleo quente costumam ser despejadas no esgoto de forma inadequada.

Villa se pergunta se as cafeterias podem acrescentar seus próprios ingredientes àquele caldo nocivo em infusão bem embaixo dos nossos pés.

Os mistérios dos icebergs de gordura poderão ser mais conhecidos se usarmos a IA para pesquisá-los.

Villa solicitou financiamento para um estudo que irá retirar amostras dos esgotos e usar aprendizado de máquina para mostrar às companhias onde estão os fatbergs mais "maduros" e que não podem ser movidos, para que sejam eliminados em primeiro lugar.

Grupos de robôs autônomos também poderão ajudar a manter os icebergs de gordura sob controle. Cidades dos EUA e do Reino Unido já enviam há tempos robôs simples, equipados com câmeras, para examinar suas redes de esgoto.

Eles capturam imagens que podem ser empregadas para identificar sinais de problemas, como fatbergs em estágio inicial. Eles costumam ser controlados manualmente por operadores remotos.

Pessoa com roupas de proteção, segurando uma corda, aponta para um pedaço de gordura solidificada retirado do esgoto

Crédito, Thames Water

Legenda da foto, Gordura, graxa e óleo, misturados com detritos lançados ao esgoto, podem endurecer e formar um material parecido com concreto

Nos últimos tempos, aumentaram as tentativas de equipar esses robôs com mais sensores e meios de lidar com os bloqueios, reduzindo a necessidade de que seres humanos desçam pelos bueiros com roupas de proteção.

Um dia, os robôs poderão funcionar de forma totalmente autônoma, formando um sistema de limpeza autossustentável em operação fora da nossa visão.

Os robôs do esgoto

Um projeto de US$ 9 milhões (cerca de R$ 44 milhões), financiado pela União Europeia, reuniu um consórcio de universidades para desenvolver exatamente esta tecnologia.

O protótipo de robô em desenvolvimento na Universidade de Tallinn, na Estônia, foi apelidado de "tardígrado", o invertebrado aquático microscópico de oito patas conhecido por ser a criatura mais resistente do planeta.

"Com suas capacidades sensoras, o robô pode encontrar sua localização dentro da rede de esgoto", explica a professora de controle e processamento de sinais Lyudmila Mihaylova, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, participante do projeto da UE.

"Ele pode inspecionar e deter os bloqueios", segundo ela. "O plano é incluir até um braço que poderá agarrá-los e retirá-los."

O robô é equipado com câmeras ópticas, sensores acústicos, tecnologia LiDAR (da sigla em inglês Light Detection and Ranging, ou seja, detecção e medição com luz) e unidades de medição inercial, para rastrear o dinâmico mundo dos esgotos.

"Estamos desenvolvendo algoritmos de aprendizado de máquina, que oferecem aos robôs as ferramentas necessárias para trabalhar nesses ambientes complexos", explica Mihaylova.

Robô com sensores em teste entra em um tubo que simula um cano de esgoto

Crédito, Projeto Pipeon

Legenda da foto, Robôs equipados com uma série de sensores podem detectar os primeiros sinais de bloqueios de gordura e, talvez, até limpá-los de forma autônoma

As quantidades cada vez maiores de dados gerados por sensores e robôs equipados com câmeras exigem cada vez mais a IA para podermos decifrá-los.

"Passei provavelmente grande parte da minha carreira assistindo a vídeos de dentro dos esgotos", conta o diretor de desenvolvimento estratégico da empresa americana SewerAI, Eric Sullivan.

"Na maior parte das filmagens, quase não acontece nada. Este é exatamente o problema que estamos enfrentando."

Tradicionalmente, seres humanos analisam estas filmagens. É um trabalho árduo e maçante. Mas a SewerAI automatizou o processo, que passou a ser mais rápido e eficiente.

"O que fazemos, provavelmente, está mais perto da radiologia que dos encanamentos... interpretamos essas imagens para encontrar sinais de problemas, de defeitos", explica Sullivan.

Os robôs do esgoto precisam ser resilientes, segundo Mihaylova. Eles devem ser à prova d'água, capazes de suportar a pressão dos esgotos e resistir aos produtos corrosivos que circulam naquele ambiente.

Existem também dificuldades de comunicação. As redes de Wi-Fi e Bluetooth não funcionam facilmente no subterrâneo.

Mas Mihaylova afirma que valerá a pena enfrentar estes problemas. Ela prevê que os robôs do esgoto, algum dia, "trarão economias significativas".

Outro bônus será a "proteção dos trabalhadores contra a exposição ao ambiente nocivo dos esgotos", segundo Mihaylova.

Felizmente, a era em que seres humanos são obrigados a entrar em túneis cobertos de sujeira, para cortar paredes de gordura coagulada e abrir caminho com jatos d'água, pode estar com os dias contados.