A brasileira empresária de Haaland que se tornou a primeira mulher 'superagente' do futebol: 'Acham que a gente não entende do assunto'

Rafaela Pimenta sorrindo para a câmera

Crédito, BBC Sport

Legenda da foto, Rafaela Pimenta é agente de Erling Haaland, astro da Noruega que vai enfrentar o Brasil no domingo
    • Author, Simon Stone
    • Role, BBC Sport
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Rafaela Pimenta nunca marcou um gol nem comandou uma equipe à beira do gramado. Ainda assim, aos 53 anos, ela é a única representante do futebol na lista "50 Over 50" da revista Forbes em 2026.

Todos os anos, a Forbes publica uma lista global com 50 mulheres que alcançaram posições de destaque e influência, tornando-se referência em suas áreas.

Na edição deste ano, a brasileira divide espaço com nomes como a atriz Penélope Cruz e a reverenda Sarah Mullally, primeira mulher a ocupar o cargo de Arcebispa de Canterbury.

Pimenta comanda a Tatica, uma agência de alto padrão de atletas sediada em Mônaco.

Sua impressionante carteira de clientes inclui o superastro norueguês Erling Haaland — que deve entrar em campo contra o Brasil no próximo domingo (5/7) para a partida das oitavas de final da Copa do Mundo 2026.

Primeira mulher a se tornar uma "superagente" do futebol, a brasileira exerce enorme influência nos bastidores de um esporte historicamente dominado por homens.

Ao longo da carreira, liderou algumas das maiores negociações do futebol mundial.

Em 2022, recebeu o prêmio de Melhor Transferência do Ano no Globe Soccer Awards após conduzir a negociação de Haaland com o Manchester City.

Em 2026, Pimenta também esteve à frente da renovação do contrato do norueguês com o clube inglês até 2034.

Além dele, Pimenta agencia a joia mexicana Gilberto Mora, de 17 anos, que estreou no Mundial deste ano, entre outros grandes nomes do futebol.

Apesar disso, a brasileira afirma que não há espaço para acomodação.

"Eu sempre digo: você é tão bom quanto sua última janela de transferências. Se errarmos, se fizermos um trabalho ruim, acabou. Portanto, o que fizemos há dez anos, um ano ou seis meses já não importa. O que é interessante neste trabalho é que você precisa provar seu valor todos os dias e ser criativo todos os dias, porque tudo muda o tempo todo."

Mas antes de se tornar agente de jogadores, Rafaela Pimenta atuou comoprofessora no Brasil. Sua relação com o futebol começou exatamente na sala de aula.

Em entrevista à BBC Sports em fevereiro deste ano, ela contou que tinha dificuldade em manter a atenção dos alunos e pensou em estruturar as aulas em torno dos aspectos contratuais do esporte — que lhe interessavam do ponto de vista jurídico.

Ela foi apresentada a um ex-jogador de futebol e passou a usá-lo como tema de suas aulas. A partir daí, surgiram mais discussões e Rafaela acabou participando de negociações para pessoas que queriam se envolver com clubes de futebol no Brasil.

Depois disso, passou a trabalhar com agentes que tentavam trazer jogadores para o Brasil ou levá-los para fora.

"Gostei muito da ideia do futebol e pensei: 'Vamos ver se isso pode funcionar'. Eu não tinha certeza de que funcionaria porque os tempos eram diferentes e os agentes estavam apenas começando, então poderia ter dado errado muitas vezes."

A parceria com Mino Raiola

Zlatan Ibrahimovic ao lado de Mino Raiola no campo de futebol

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, O jogador sueco Ibrahimovic ao lado de seu agente Mino Raiola na Copa de 2018

Mas existe um equívoco comum sobre a trajetória de Rafaela Pimenta: o de que ela simplesmente assumiu o lugar deixado pelo italiano Mino Raiola após a morte precoce do empresário em abril de 2022.

Embora tenha trabalhado lado a lado com uma das figuras mais controversas do futebol mundial, conhecida principalmente por ter conduzido a carreira de Zlatan Ibrahimovic, Pimenta sempre construiu sua própria trajetória.

Eles se conheceram durante negociações no Brasil. Raiola queria fazer negócios de uma determinada maneira, mas a brasileira, na época advogada, disse que aquilo não era possível e houve quase um choque de personalidades.

Eles tiveram uma reunião, Raiola foi embora, mas depois decidiu que queria trabalhar com Pimenta porque ficou atraído pela forma como ela se recusava a aceitar simplesmente sua palavra ou concordar com tudo o que ele dizia apenas para ter uma vida mais fácil ou entrar no círculo privilegiado. Ele queria alguém que o enfrentasse.

"Ele dizia que eu era a única pessoa que tinha coragem de dizer 'não' para ele. Todos os outros só queriam o dinheiro dele e aceitavam até as ideias mais malucas", lembra.

"Tivemos muitas brigas, jogando coisas um na cara do outro, gritando um com o outro, brigas teatrais e cômicas. Mas eu diria que, no fundo, nunca tivemos um desacordo real porque, acima de tudo, tenho que dizer que Mino sempre respeitou o acordo que fizemos. Isto é o que você faz, isto é o que eu faço."

Após a morte de Raiola, Pimenta passou a trabalhar com algumas das pessoas com quem o empresário italiano trabalhava, mas já tinha sua própria agência, tendo o mexicano Gilberto Mora, de 17 anos, um de seus primeiros clientes.

"Foi uma grande aventura vir para a Europa como imigrante, como mulher em um setor dominado por homens, em um setor que, na época, era visto de forma ainda pior do que hoje. Precisamos encarar a realidade: há muitos desafios relacionados aos agentes e a práticas que não são aceitáveis. É um trabalho desafiador. Poderia ter dado errado. E todos os dias pode dar errado."

A vez em que foi confundida com uma prostituta

Nem todas as experiências na carreira, porém, foram positivas — principalmente quando o assunto é desigualdade de gênero.

"Quando comecei a trabalhar com isso, havia pouquíssimas mulheres em cargos de decisão. Havia a Marina Granovskaia, no Chelsea, mas, no geral, dava para contar nos dedos."

"Eu via muitas mulheres trabalhando nos clubes, desempenhando funções importantes e participando das decisões, mas sem receber o devido reconhecimento."

Pimenta diz que os clubes tinham uma estrutura semelhante: um longo corredor em que a última porta era sempre a sala de quem realmente tomava as decisões.

"Normalmente, a mulher parava antes da última porta, e atrás dela havia um homem", afirma.

"Era curioso porque eu ia até a última porta, conversava com o diretor-executivo, o diretor esportivo ou quem fosse. E conheci muitas mulheres que paravam antes daquela porta e se sentiam fortalecidas ao ver que eu estava entrando nela", acrescenta.

"Há essa imagem de que as mulheres competem demais entre si. Acho que, se soubermos lidar com isso, não precisa ser assim. Eu realmente fui ajudada muitas vezes por mulheres da indústria."

Já entre muitos homens que ocupavam posições de poder, a recepção nem sempre foi amistosa. Em diversas ocasiões, diz, o fato de ser mulher foi usado como uma forma de tentar desestabilizá-la.

"Acho que, muitos anos atrás, essa questão do gênero era muito mais forte. Houve uma longa evolução desde uma primeira reunião em que um diretor esportivo me disse: 'Então você existe mesmo? Achei que você fosse uma prostituta brasileira.', até onde estamos hoje."

Pimenta lembra de outro episódio, ocorrido há cerca de dois anos, durante a negociação de um contrato.

Ao seu lado estava um advogado contratado exclusivamente para auxiliar na redação jurídica, em um idioma estrangeiro.

"Entramos numa negociação muito dura com o clube. No final, o resultado foi muito bom para o cliente. Então um dos homens do outro lado da mesa se dirigiu ao advogado, que não tinha aberto a boca até então porque esperava o momento de escrever algo, e disse: 'Você a ensinou bem, ela conhece bem o nosso futebol'", lembra.

"E o homem disse aquilo como um elogio, como uma piada simpática. Algumas pessoas têm tão profundamente enraizada a ideia de que mulheres são inferiores aos homens ou de que mulheres não entendem de futebol que, mesmo quando tentam ser gentis, acabam sendo preconceituosas. Eu não aceito isso, nem quando vem disfarçado de gentileza."

Pimenta diz que sua principal motivação hoje é tornar esse caminho dentro do futebol um pouco mais fácil para as próximas gerações de mulheres. Além de atuar como agente, ela também é professora em cursos para agentes organizados pela UEFA (União das Federações Europeias de Futebol) e pela associação internacional da categoria.

Frequentemente, jovens mulheres pedem conselhos sobre como construir uma carreira no futebol.

"E eu digo: 'Não aceite abuso. Você não precisa aceitar nenhum abuso. E não precisa se sexualizar para ser alguém nessa indústria. Não precisa ser bonita, sexy ou aceitar investidas para conseguir espaço. Isso não vai lhe dar espaço. Vai levá-la por um caminho muito ruim'."

'Os clubes têm poder demais'

Erling Haaland acenando para as pessoas e sorrindo

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Haaland é um dos jogadores agenciados por Rafaela Pimenta, a primeira mulher a se tornar uma superagente no futebol

Rafaela Pimenta construiu sua carreira em um período de profundas transformações no futebol.

"Lembro de uma transferência em que chegamos ao clube, fechamos a porta e só saímos quando o negócio foi concluído. Fiquei lá por 18 horas", recorda.

"Hoje isso seria impossível. É preciso preparar toda a documentação com uma semana de antecedência, às vezes um mês ou até seis meses antes, porque há muitas questões a resolver: legislação trabalhista, impostos, leis locais."

Mas, segundo ela, a transformação mais profunda aconteceu fora das quatro linhas. Os jogadores "passaram a funcionar como verdadeiras empresas" e, com isso, novas oportunidades foram de campo cresceram muito, principalmente em relação às redes sociais.

Erling Haaland, por exemplo, é uma superestrela. Ele tem um canal no YouTube com 2 milhões de inscritos e quase 45 milhões de seguidores no Instagram. E, com esse status, vêm também uma enorme demanda e expectativas.

"Antigamente, esperava-se que o jogador treinasse pela manhã e jogasse no fim de semana. O resto do tempo era para fazer compras com a esposa ou jogar videogame. Era basicamente isso", afirma.

"Você não via banqueiros perseguindo jogadores de futebol. Não via incorporadores imobiliários querendo associar seus projetos a jogadores. Hoje todos querem uma parte disso."

Na avaliação de Pimenta, porém, todas essas mudanças não foram acompanhadas por um equilíbrio nas relações entre clubes e atletas, e os jogadores continuam tendo pouca autonomia sobre a própria carreira.

A empresária critica, por exemplo, contratos de representação que obrigam atletas a pagar multas caso decidam trocar de agente.

"Se eu não faço um bom trabalho, não devo esperar que o jogador continue comigo na próxima janela. Uma coisa que eu detesto é esse mandato com cláusula de multa. Você assina comigo para que eu o represente e, se quiser trocar de agente, precisa me pagar uma multa. Por quê? Se quiser trocar de agente, vá e troque."

"É como um casamento. Imagine que sua esposa queira se divorciar e, para isso, você tenha que pagar a ela. Você se sentiria muito injustiçado. É assim que o jogador deveria se sentir. Eles nunca deveriam assinar algo que limite sua liberdade."

Segundo Pimenta, o mesmo princípio deveria nortear o sistema de transferências. Para ela, "os clubes têm poder demais" e os jogadores, muitas vezes, tornam-se refém das circunstâncias.

"Eu não discordo do sistema de transferências. Ele é necessário para que todo o sistema funcione. Não estou defendendo o caos. Também não acho que os jogadores devam simplesmente fazer tudo o que quiserem. Mas acredito que precisamos de mais equilíbrio. Hoje, existe um desequilíbrio."

Na prática, diz, muitos negócios deixam de acontecer porque os clubes mantêm controle quase absoluto sobre a situação dos atletas.

"Sempre há um jogador que poderia ter sido negociado, que precisava sair, mas o clube exigiu mais 1 milhão de libras."

O debate ganhou força em outubro de 2024, quando o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) decidiu que parte das regras da Fifa que regulam as transferências de jogadores viola a legislação europeia.

Após a decisão, a entidade implementou um modelo provisório para calcular indenizações e redistribuir o ônus da prova em casos de quebra de contrato.

Para Pimenta, a discussão vai além das regras jurídicas e passa pela forma como os jogadores são tratados em um esporte cada vez mais bilionário.

"O futebol costumava ser mais humano", afirma.

"Um diretor de futebol ou um dono de clube mantinha uma relação especial com o jogador. Se um atleta chegasse e dissesse: 'Por favor, preciso sair', eles buscavam uma solução."

"Hoje, o futebol se tornou um negócio tão grande que existe o risco de os jogadores serem vistos apenas como ativos financeiros. Um ativo não tem voz, não tem sentimentos, nem necessidades humanas."

"O desafio é encontrar um equilíbrio entre o ativo financeiro e o ser humano."