Milhares de mortos, milhões precisando de ajuda: os números que mostram a dimensão da tragédia após terremotos na Venezuela

Duas mulheres choram de mãos dadas em meio às operações de resgate após o duplo terremoto na Venezuela, enquanto um homem as abraça por trás.

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Familiares e vizinhos de Jhonquer Cerpas, um menino de 13 anos que foi resgatado dos escombros
    • Author, Santiago Vanegas
    • Role, Da BBC News Mundo
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  • Tempo de leitura: 5 min

Esta quarta-feira (01/07) completa uma semana desde o duplo terremoto que deixou na Venezuela um nível de destruição e sofrimento que escapa a qualquer cifra.

Com o passar dos dias, a esperança de quem tem seus entes queridos enterrados sob os escombros tem se chocado com a realidade apontada pelos especialistas: a janela crítica está se fechando para encontrar sobreviventes.

Milhares de famílias tiveram que dar o doloroso passo da incerteza ao luto. Outras se agarram à possibilidade de um milagre como o que ocorreu na terça-feira (30/06), quando uma criança de 3 anos foi resgatada com vida dos escombros graças ao esforço de um grupo de socorristas da Jordânia.

As operações de busca e resgate continuam a todo vapor, com milhares de socorristas da Venezuela e de mais de 30 países.

Enquanto isso, dados das autoridades venezuelanas e das organizações internacionais sobre o impacto da catástrofe mostram um cenário cada vez mais grave. Ainda não se consegue ter a magnitude total dos danos.

Ao luto pelo número de quase 2 mil mortos soma-se a preocupação com as difíceis condições em que se encontram os sobreviventes que perderam tudo e a indignação entre aqueles que consideram que a resposta à emergência por parte do governo tem sido deficiente.

Este é o balanço da situação, segundo os números conhecidos até o momento.

Cerca de 2 mil mortos e milhares de feridos e desaparecidos

Uma mulher cobre o rosto ao passar por um cadáver coberto com um edredom.

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Os danos causados ​​pelo terremoto estão concentrados no Estado de La Guaira

O mais recente número de mortos relatado pelo governo da Venezuela é de 1.943. Os feridos chegam a 10.571. Espera-se que o número continue aumentando significativamente nos próximos dias.

O coordenador da ONU na Venezuela, Gianluca Rampolla del Tindaro, afirmou que "sem dúvida estamos diante de um número superior ao comunicado".

E acrescentou: "Posso oferecer uma estimativa: estamos adquirindo, e isso é algo que foi acordado com as autoridades, 10 mil sacos para cadáveres".

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, informou que, nas áreas mais afetadas pela catástrofe (Caraballeda e Catia La Mar), havia cerca de 30 mil pessoas quando ocorreram os dois terremotos, das quais 19.861 conseguiram sair por seus próprios meios ou foram resgatadas com vida.

Imediatamente após os tremores, o sistema PAGER do Serviço Geológico dos EUA estimou, de acordo com as evidências científicas disponíveis, que o número de mortos oscilaria entre 10 mil e 100 mil.

E advertiu sobre possíveis perdas econômicas entre US$ 10 bilhões e US$100 bilhões (ou entre 2% e 10% do PIB da Venezuela).

Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários e o Comitê Internacional de Resgate, mais de 50 mil pessoas continuavam desaparecidas após a catástrofe.

Um grupo de pessoas se abraça e chora após os terremotos de 2026 na Venezuela.

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Legenda da foto, Os esforços de resgate continuam, mas a janela crítica de 72 horas já se encerrou

1,8 milhões necessitando ajuda

O impacto do duplo terremoto não termina aí.

O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, informou que 15.866 pessoas foram identificadas como afetadas pela catástrofe, sem dar maiores detalhes sobre os números.

Ele disse que foram habilitados 15 abrigos temporários no Estado de La Guaira e 55 no restante do país para essas pessoas.

Centenas de famílias cujas casas ficaram destruídas ou inabitáveis têm dormido em acampamentos provisórios ou assentamentos espontâneos.

O governo disse que irá realocá-las em abrigos temporários e prometeu soluções de moradia para elas antes do fim do ano.

O número de afetados indiretamente é ainda maior.

O Sistema de Informação Geográfica da empresa privada Esri Venezuela, que se apoia em relatos de cidadãos, contabiliza 595 mil pessoas afetadas, das quais 133 mil são menores de idade.

A agência da ONU para a infância, Unicef, assinalou que há 1,8 milhão de pessoas que necessitam de ajuda humanitária, das quais 680 mil são crianças.

Com relação à situação enfrentada pelos sobreviventes, o Comitê Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês) relatou na terça-feira que muitos não estão com suas necessidades básicas atendidas.

"Os serviços médicos em centros de saúde e unidades móveis estão sobrecarregados, os abrigos se encontram em plena capacidade e os serviços de água e eletricidade continuam interrompidos nas áreas afetadas", afirmou o IRC.

E acrescentou: "A magnitude da resposta não está à altura da magnitude da necessidade humanitária".

Na mesma linha, Andreas Spaett, coordenador do Médicos Sem Fronteiras na Venezuela, relatou que as pessoas que perderam suas casas "procuram alimentos, procuram água, procuram abrigo".

O governo destacou, no entanto, que o fornecimento de energia elétrica foi restabelecido em 90% e que foram entregues mais de 3 milhões de litros de água.

189 prédios caídos e mais de 600 com danos graves

Vista aérea de edificios colapsados em Caraballeda, Venezuela.

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Em sua coletiva de imprensa de terça-feira, Jorge Rodríguez afirmou que os terremotos deixaram pelo menos 855 edifícios gravemente danificados em todo o país.

No total, 189 desabaram totalmente, dos quais 158 se encontravam no Estado de La Guaira, segundo Rodríguez.

Os 666 restantes sofreram danos graves ou desabaram parcialmente, acrescentou.

São números ligeiramente inferiores aos do Sistema de Informação Geográfica da Esri Venezuela, que aponta para 924 edificações afetadas, das quais 226 apresentam perda total, 272 dano severo e 290 dano parcial.

Venezuela

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Quase 700 tremores secundários

Outro elemento que tem dificultado qualquer retorno à normalidade anterior aos terremotos são as centenas de tremores secundários que ocorreram.

Segundo o presidente da Assembleia Nacional, foram contabilizados quase 700.

No entanto, a quantidade e a magnitude média vêm diminuindo.

"No dia 28 tivemos 86 tremores e no dia 29, 30 tremores", relatou.

Ele advertiu que "isso não necessariamente quer dizer que tenha se dissipado por completo qualquer risco de ocorrência de um evento perigoso".

O último tremor registrado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, que costuma registrar os que superam magnitude 4, ocorreu na manhã de segunda-feira e não causou danos.

Especialistas consultados pela BBC News Mundo explicam que as réplicas, ou tremores secundários, são um fenômeno que sempre ocorre após terremotos importantes.

"As réplicas são terremotos que aliviam as mudanças de tensão na crosta terrestre provocadas por outro terremoto", explicou o geólogo britânico Sam Wimpenny.

"Podemos contar as réplicas, sabemos que a quantidade e as magnitudes vão diminuir com o tempo. Também podemos fazer probabilidades de quantas vão ocorrer amanhã, mas, fisicamente, o processo que as gera não está claro", afirmou o geólogo chileno Daniel Melnick.

Para as pessoas nas áreas afetadas, as réplicas têm um efeito emocional, pois revivem o momento da tragédia inicial.

"Estou novamente na rua, porque voltou a tremer. Estou há quase uma semana sem dormir de forma confortável. Durmo com calça e camiseta; tiro os sapatos e os deixo na porta, ao lado de uma bolsa com meus remédios, o carregador do telefone e os documentos", relatou o jornalista Jesús Hurtado, que vive em Caracas.

O governo afirmou que avisará os cidadãos quando a ameaça de outro tremor perigoso tiver se dissipado.

Mas, mesmo então, a Venezuela terá mudado para sempre.