A mulher que envia US$ 10 mil por semana para que crianças migrantes detidas nos EUA possam comprar comida: 'É uma fada-madrinha'

Casey Revkin, sorrindo para a câmera
Legenda da foto, Casey Revkin ajuda menores imigrantes há anos. Ela se descreve como uma 'simples mãe da Califórnia'
    • Author, Leire Ventas
    • Role, Correspondente da BBC News Mundo em Los Angeles (EUA)
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O nicaraguense Luis Sánchez* estava havia mais de três semanas ao lado dos seus quatro filhos em um centro de detenção de imigrantes em Dilley, no sul do Estado americano do Texas.

Ele conta que sua filha mais velha, que sofre de ansiedade, não tinha mais unhas para roer. E suas filhas menores começavam a mostrar sinais de desespero.

"Elas chegaram a me dizer que queriam tirar a própria vida, pediram que eu assinasse qualquer coisa para sairmos, pois não suportavam mais estar ali", conta ele à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"Mas, quando outro detido me contou que havia uma mulher que poderia me ajudar e aliviar um pouco a situação, fiquei com medo."

Ele só se convenceu quando uma advogada que visita regularmente aquelas instalações, as únicas do tipo que abrigam famílias com menores no país, voltou a comentar a respeito.

Segundo a advogada, bastava mandar uma mensagem por correio eletrônico com seus dados e a californiana Casey Revkin, diretora da organização Each Step Home, mandaria dinheiro para que ele pudesse comprar o necessário dentro do centro de detenção.

Foi assim que, do computador da biblioteca do centro, ele enviou para Revkin a seguinte mensagem: "Olá, gostaria de me apresentar. Sou [***], pai de quatro filhos e minha advogada me disse que vocês ajudam com dinheiro para comprar coisas. Gostaria de saber se é possível me ajudar para comprar água, escovas de dentes, pasta de dentes e alguns lanches para meus filhos. Agradeceria muito se me ajudassem. Muito obrigado."

"Qual não foi minha surpresa quando, poucos dias depois, eu já tinha US$ 200 [cerca de R$ 1 mil] na minha conta", recorda ele.

"Primeiro, compramos água e as crianças quiseram pipoca, guloseimas, alimentos frescos. Foi um grande alívio, uma forma de fazer meus filhos se sentirem melhor."

Foco nos menores de idade

Revkin enviou esse dinheiro para Sánchez da mesma forma que faz com outros migrantes com filhos detidos, totalizando semanalmente até US$ 10 mil (cerca de R$ 51 mil).

"Eu me coloco no lugar deles e penso como deve ser terrível sentir que você não consegue proteger seus filhos, fornecer coisas tão básicas", declarou Revkin à BBC. "Por isso, é uma grande satisfação poder fazer algo de concreto por essas crianças."

Ela se descreve como "uma mãe da Califórnia". Seu foco nos menores afetados pelas políticas migratórias americanas não é novidade.

Já em 2018, durante o primeiro mandato do atual presidente americano, Donald Trump, Revkin soube que centenas de crianças estavam sendo separadas dos seus pais ao tentarem cruzar a fronteira de forma irregular.

Por isso, ela começou a ajudá-los a agilizar os trâmites para a reunificação familiar.

Revkin ajudava a preencher documentos, imprimi-los e organizá-los em pastas. Ela procurava voluntários para levá-los às pessoas que iriam receber os menores nas reuniões para tomar suas impressões digitais.

"Para as famílias, eram obstáculos enormes, mas algo que podíamos perfeitamente fazer", recorda ela. E foi assim que ela formou uma organização, chamada Each Step Home ("Cada passo para casa", em inglês).

Casey Revkin, com um grupo de crianças durante um protesto contra a detenção de menores por agentes de imigração
Legenda da foto, Casey Revkin iniciou seu trabalho durante o primeiro mandato de Donald Trump

Com Trump de volta à Presidência americana e sua promessa de realizar a "maior deportação da história do país", Revkin decidiu buscar outras formas de ajudar.

Em janeiro, ela soube da detenção de Liam Conejo Ramos, de cinco anos de idade, durante uma operação anti-imigração em Minneapolis, no Estado americano de Minnesota. O caso chegou às manchetes e Revkin encontrou sua nova missão.

O menino foi preso quando voltava da creche para casa e levado, ao lado do seu pai, para o Centro de Processamento de Imigração de Dilley (DIPC, na sigla em inglês), o mesmo que abrigou Sánchez e seus filhos.

O único centro de detenção de famílias do país foi fechado durante o governo do presidente democrata Joe Biden (2021-2025), mas reabriu suas portas no ano passado, como parte da ofensiva migratória do governo Trump.

Desde então, diversos relatórios de organizações de defesa dos migrantes e congressistas demonstraram preocupação com o que ocorre no local.

Um dos relatos mais recentes, publicado em abril por organizações como a Human Rights First e Raíces, concluiu que "as condições desumanas, os rotineiros maus tratos e as violações do processo devido sofridas pelas famílias em Dilley são generalizadas e sistêmicas".

A empresa CoreCivic, responsável pela gestão do centro, e o Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês) rejeitaram as acusações.

Cartaz do menino Liam Conejo Ramos, de cinco anos, acompanha o deputado Robert Garcia (democrata da Califórnia), durante declaração de abertura de uma audiência do Comitê de Supervisão e Reforma do Governo da Câmara, no Capitólio dos Estados Unidos em Washington DC, 4 de março de 2026
Legenda da foto, Casey Revkin encontrou outra forma de ajudar menores afetados pelas políticas migratórias americanas quando soube da detenção de Liam Conejo Ramos em Minneapolis

Revkin já havia ouvido falar daquelas instalações.

Por ali, passaram algumas das famílias que ela ajudou a se reunirem no passado. Delas, Revkin ouviu reclamações sobre a qualidade da água e da comida.

Os que podiam completavam o que recebiam no centro com o que compravam dentro das próprias instalações. Para isso, usavam o dinheiro que entrava nas suas contas do centro.

Dilley e outros moradores locais usam um sistema de software que permite o ingresso de fundos para um detido específico. E foi assim que Revkin descobriu como ajudá-los.

Ela começou a perguntar à sua rede de advogados de imigração, ativistas e congressistas como poderia fazer para depositar fundos naquelas contas.

'Chegamos a 80% dos detidos'

Seu primeiro depósito foi de US$ 50 (cerca de R$ 256) para a família de um bebê de dois meses com infecção respiratória. Atualmente, ela conta que destina a este propósito cerca de US$ 10 mil por semana.

"O montante varia, mas calculamos estar cobrindo desta forma cerca de 80% dos detidos em Dilley", afirma ela.

O dinheiro vem de doações. "Organizamos uma coleta de fundos no Dia das Mães com muito bons resultados, que vem nos mantendo até agora", segundo Revkin.

Com essa ajuda, as famílias em Dilley podem comprar água engarrafada, cereais e sopa em pó, além de xampu e condicionador, até guloseimas, cadernos e tintas.

"Ela é uma fada-madrinha", conta à BBC a advogada Kristin Etter, da organização Conselho Legal de Imigração do Texas, que trabalha pro bono em Dilley e em outros centros migratórios.

"Não há melhor forma de resumir o que ela representa. As pessoas realmente não conseguiriam sobreviver sem ela."

"É ultrajante que os contribuintes americanos gastem por mês US$ 15 milhões [cerca de R$ 77 milhões] para prender crianças e famílias e, ainda assim, precisemos depender de uma cidadã privada, muito generosa, para arrecadar fundos e poder cobrir suas necessidades básicas durante sua permanência neste centro de detenção", afirma Etter.

A senadora Andy Kim, democrata de Nova Jersey, mostra a carta de um menino detido no centro de Dilley no dia 9 de junho de 2026, em Washington DC. A estrela de programas infantis Rachel Griffin Accurso, mais conhecida como Ms. Rachel, está em Washington, entregando estas cartas aos legisladores e defendendo o fim da detenção de crianças imigrantes.
Legenda da foto, Organizações de defesa dos migrantes e congressistas denunciaram as condições no centro de detenção de Dilley

A empresa privada que gerencia o centro rejeita as críticas.

"A CoreCivic é associada ao governo federal há 40 anos, tanto com governos democratas quanto republicanos, para oferecer atenção segura e humana às pessoas que nos são confiadas", respondeu seu porta-voz, Ryan Gustin, por escrito, às consultas da BBC News Mundo.

O porta-voz esclareceu que a empresa não decide quem é preso, nem por quanto tempo. Ele também destacou que Dilley está "sujeito a diversos níveis de supervisão e é vigiado muito de perto pelos nossos associados do governo, para garantir o cumprimento total das políticas e procedimentos, incluindo os padrões de detenção".

Na mesma linha, a CoreCivic refutou as afirmações sobre a má qualidade da comida e da água. A empresa afirma que testes independentes mostram que a água é limpa, filtrada e provém das mesmas empresas de serviços utilizadas pela comunidade vizinha.

"Ninguém sob nossos cuidados é obrigado a pagar pela água, que é a mesma que bebem os nossos funcionários", destacou na sua resposta.

Sobre a alimentação, a CoreCivic destacou que fornece um cardápio rotativo de três refeições "nutritivas" por dia, além de refrescos, aprovadas por um nutricionista e inspecionadas para garantir sua qualidade e frescor.

Frente às críticas pelo alto custo dos produtos no centro, Gustin declarou que os preços são similares aos das lojas de conveniência e que os funcionários da empresa realizam avaliações de preços a cada dois anos.

O lucro das vendas se destina ao "fundo de bem-estar dos residentes" do centro, segundo ele.

Paralelamente, um porta-voz do Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos declarou à BBC News Mundo que todos os detidos recebem "três refeições por dia, água limpa, roupas, roupa de cama, chuveiro, sabão e artigos de higiene pessoal".

"Os imigrantes ilegais também têm acesso a telefones para se comunicar com seus familiares e advogados", prossegue a resposta enviada à BBC por correio eletrônico.

"Nutricionistas certificados avaliam as refeições. Funcionários e detidos bebem a mesma água potável limpa da comunidade local."

"Dilley atende aos padrões federais de detenção e, de fato, se submete a auditorias e inspeções regulares", segundo diz o texto.

"Estar em detenção é uma escolha. Os Estados Unidos oferecem aos imigrantes ilegais US$ 3 mil [cerca de R$ 15,3 mil] e um voo grátis para autodeportação imediata. [...] Se não o fizerem, serão presos e deportados, sem oportunidade de regressar."

Casey Revkin, nos seus escritórios
Legenda da foto, 'É uma grande satisfação poder fazer algo de concreto por estas crianças', afirma Casey Revkin

Ajuda além da detenção

Luis Sánchez* defende que sua experiência em Dilley foi diferente. E que os depósitos recebidos de Revkin trouxeram "grande conforto" para sua família.

Isso o motivou a conversar com outros detidos sobre a assistência e contar que eles precisam apenas escrever uma mensagem por correio eletrônico como ele fez e enviar os dados para que eles possam fazer o depósito nas suas contas.

"Conheci muitos que chegaram sem nada, pessoas que foram presas assim que cruzaram do México e que não tinham ninguém para ajudá-las", recorda Sánchez.

Ele e seus quatro filhos saíram de Dilley no dia 1° de julho, depois de quase três meses ali confinados. Eles se encontram sob supervisão intensiva, um programa alternativo à detenção do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês).

Sánchez conta que guardou parte do dinheiro doado por Revkin e, com ele, comprou as passagens para voltar à cidade onde a família morava antes de ser detida. Mas a assistência não terminou por aí.

"Com a detenção, havíamos perdido tudo", reconhece ele. "Fiquei sem trabalho. Por isso, também nos deram uma mão para podermos começar de novo."

"Na primeira semana, eles nos ajudaram com alimentação e, agora que as crianças começaram as aulas, compraram seus materiais escolares. Ao longo destes dias, ela realmente salvou as nossas vidas."

* Seu nome foi alterado a pedido do entrevistado, para proteger sua identidade.