Ataques a navios elevam tensão no estreito de Ormuz um dia após EUA estenderem cessar-fogo com Irã

Donald Trump

Crédito, Getty Images

    • Author, Bernd Debusmann Jr
    • Role, Correspondente na Casa Branca da BBC News
  • Tempo de leitura: 5 min

Ataques feitos pelo Irã a embarcações no estreito de Ormuz nesta quarta-feira (22/4) aumentaram a tensão na região, um dia após o presidente americano, Donald Trump, anunciar a extensão do cessar-fogo com o Irã. Segundo a mídia estatal iraniana, três navios foram atingidos, e dois deles teriam sido apreendidos pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (GRII).

De acordo com o Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO) e a empresa de inteligência marítima Vanguard, os três incidentes ocorreram em um curto intervalo de tempo na manhã de quarta-feira, sugerindo uma operação coordenada em uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo.

O UKMTO também aponta que uma embarcação da GRII abriu fogo contra um navio porta-contêineres a cerca de 15 milhas náuticas a nordeste de Omã, causando danos significativos à ponte da embarcação. O navio atingido seria o Epaminondas, de bandeira grega.

Uma das embarcações teria sofrido "danos significativos à ponte" após ser alvejada por um barco armado do IRGC, enquanto outra foi instruída a lançar âncora antes de ser abordada.

Outro cargueiro, o Euphoria, de bandeira panamenha e operado por uma empresa baseada nos Emirados Árabes Unidos, também foi alvo de ataque a cerca de oito milhas náuticas a oeste do Irã, segundo a empresa de inteligência marítima Vanguard e o UKMTO. A tripulação estaria segura e não há relatos de danos significativos.

Um terceiro navio, o MSC Francesca, também de bandeira panamenha, foi atingido a cerca de seis milhas da costa iraniana enquanto deixava o estreito de Ormuz em direção ao golfo de Omã. A embarcação relatou danos ao casco e às acomodações.

A Marinha da GRII afirmou que o MSC Francesca e o Epaminondas foram "apreendidos" e direcionados à costa iraniana, sob a alegação de que operavam sem as permissões necessárias e teriam manipulado sistemas de navegação.

Autoridades iranianas, por sua vez, afirmaram que as embarcações violaram regras marítimas, alegando que operavam "sem as permissões necessárias" e teriam "manipulado sistemas de navegação".

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O estreito de Ormuz é um ponto estratégico crucial para o fornecimento global de energia, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo diariamente.

Qualquer interrupção na região é acompanhada de perto pelos mercados globais, já que mesmo incidentes limitados podem gerar preocupação com o abastecimento e provocar volatilidade nos preços do petróleo.

Na terça-feira (21/4), Trump anunciou que os Estados Unidos vão estender o cessar-fogo com o Irã, a pedido do Paquistão, e manter o bloqueio no estreito de Ormuz aos portos iranianos.

Os ataques ocorrem enquanto os Estados Unidos mantêm um bloqueio naval direcionado a portos iranianos — uma medida que Teerã tem classificado repetidamente como um ato de guerra.

Em uma publicação na rede Truth Social, Trump escreveu:

"Com base no fato de que o governo do Irã está seriamente fragmentado — algo que não é inesperado —, e a pedido do marechal de campo Asim Munir e do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, fomos solicitados a suspender nosso ataque ao Irã até que seus líderes e representantes consigam apresentar uma proposta unificada", afirmou.

"Portanto, instruí nossas Forças Armadas a manter o bloqueio e, em todos os demais aspectos, permanecer de prontidão. Assim, estenderemos o cessar-fogo até que essa proposta seja apresentada e as negociações sejam concluídas, de uma forma ou de outra."

O anúncio foi feito na véspera da data estabelecida para o fim cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, na quarta-feira (22/4). Com o acordo prestes a expirar, ainda pairavam dúvidas sobre a retomada das negociações e predominavam as tensões entre os dois países.

Uma nova rodada de conversas estava prevista para ocorrer em Islamabad, no Paquistão, esta semana, com a presença do vice-presidente americano, J.D. Vance.

Contudo, após o anúncio Trump, a Casa Branca informou que a viagem de Vance ao Paquistão foi cancelada.

"Quaisquer novas atualizações sobre reuniões presenciais serão anunciadas pela Casa Branca", disse um funcionário do governo, segundo a CBS, parceira da BBC nos Estados Unidos.

Teerã ainda não havia confirmado o envio de uma delegação para as negociações. Segundo divulgado pela mídia estatal iraniana, autoridades do país não irão participar de novas conversas enquanto o bloqueio dos EUA permanecer em vigor.

A decisão de Trump de estender o cessar-fogo com o Irã — por tempo indeterminado — representa uma reviravolta significativa em relação à posição manifestada apenas algumas horas antes de anúncio.

Falando à CNBC mais cedo na terça, o presidente americano disse que esperava seguir "bombardeando [o Irã]" e afirmou que os militares estavam "prontos para agir". Ele também repetiu a advertência de que destruiria todas as pontes e usinas de energia do Irã.

Ao longo do conflito, Trump tem tentado intimidar o regime iraniano com sucessivas ameaças.

Ao prolongar a trégua, ele opta por não cumprir — ao menos por enquanto — suas ameaças de retomar uma intensa campanha aérea contra Teerã.

Esse foi o segundo momento, em duas semanas, em que Trump recuou de declarações que apontavam uma escalada no conflito — um sinal de que ele parece cada vez mais interessado em reduzir a intensidade da guerra.

A prorrogação do cessar-fogo dá ao presidente americano mais tempo e flexibilidade nas negociações.

E oferece o retrato mais claro até agora do que a administração dos EUA pensa sobre a possibilidade de negociações.

Em primeiro lugar, a mensagem indica que, na visão do presidente americano, não está claro qual é exatamente a proposta iraniana, nem quem, dentro do governo em Teerã, está de fato no comando.

Isso reforça algo que Trump costuma dizer com frequência: que a liderança do Irã foi enfraquecida e que as comunicações internas e as decisões estão caóticas.

O anúncio também evita sinalizar um retorno total às hostilidades, o que seria politicamente complicado para o presidente nos Estados Unidos e sensível do ponto de vista econômico, especialmente em relação aos preços do petróleo.

Chama atenção ainda o fato de Trump não ter apresentado um cronograma e ter tirado qualquer prazo para chegar a uma solução — uma estratégia que, em tese, lhe dá mais flexibilidade.

No entanto, o bloqueio aos portos iranianos continua. O Irã vê isso como um ato de guerra, o que deve seguir como um obstáculo para futuras negociações. O país pode optar por escalar o conflito ou manter uma espécie de "guerra fria" no Golfo Pérsico e no estreito de Ormuz.