A influente igreja evangélica que apoiou Jair, mas rejeita Flávio Bolsonaro

Jair Bolsonaro com o bispo Manoel Ferreira segura um certificado de amizade entregue pela igreja em reunião da Conamad em 27 de maio de 2022
Legenda da foto, Manoel Ferreira e Jair Bolsonaro durante a entrega de certificado da amizade pelo bispo ao presidente em 2022
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"Pastor da nossa igreja em Alagoas, vem cá", disse o bispo Samuel Ferreira ao microfone, levantando-se da cadeira entre Ciro Nogueira (PP-PI) e Arthur Lira (PP-AL), na mesa comprida que tomava o palco da Catedral Fama, em Goiânia, de ponta a ponta.

Era maio de 2022. Ciro Nogueira era ministro-chefe da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro (PL) e Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados.

"O senhor não me pediu, e nem precisa", o bispo prosseguiu, referindo-se a Lira, que se levantava da cadeira, enquanto o pastor Jaques Balbino (o "pastor da nossa igreja em Alagoas") caminhava em sua direção.

"Lá nas nossas igrejas só vai [se] falar de Jesus, na época de eleição, e do senhor", disse Samuel Ferreira. Lira sorriu.

O bispo é um dos líderes da Assembleia de Deus Ministério Madureira, uma das maiores denominações evangélicas do país.

A promessa de campanha aconteceu durante uma reunião da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil (Conamad), da qual Ferreira é presidente-executivo, e acabou com uma ameaça em tom bem-humorado direcionada ao pastor de Alagoas.

"Se ele não falar", prosseguiu o bispo Samuel Ferreira, "tem um outro trabalho lindo nas montanhas do Nepal... Estamos precisando de obreiros lá."

A plateia — e os parlamentares no palco — caíram na gargalhada.

"Esse é o seu candidato. Cumprimenta o homem, rapaz!"

Naquela eleição, Arthur Lira foi o candidato a deputado federal mais votado em Alagoas e ajudou o PP a conquistar quatro das nove vagas disponíveis para o Estado.

O vídeo, que voltou a circular nesta eleição, é uma oportunidade rara de ver mais de perto como a Assembleia de Deus Ministério Madureira opera como agente no mundo da política — e sua força.

Apesar de ser menos conhecida fora do mundo evangélico do que igrejas como a Universal, que está por trás da fundação do partido Republicanos, ou a Renascer em Cristo, que organiza a Marcha para Jesus, um evento que acabou virando importante palanque eleitoral, o Ministério Madureira também tem uma relação íntima com a política.

Uma conexão descrita como "pragmática" pelos pastores e especialistas ouvidos pela reportagem da BBC News Brasil.

"É uma espécie de Centrão", compara o pesquisador Gedeon Freire de Alencar, autor de Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus, 1911 a 2011. Ele se refere ao grupo de partidos no Congresso conhecidos por não ter um perfil ideológico claro e se alinhar com um ou outro governo a depender da conveniência.

Em 2006, o pai de Samuel Ferreira, bispo Manoel Ferreira, então líder da Conamad, pediu votos a Lula — em um pleito em que ele mesmo se candidatou, e foi eleito deputado federal pelo PTB.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na época, ele justificou o apoio argumentando que o governo do petista seria o que tinha "dado comida ao maior número de pobres", por meio do programa Bolsa Família.

Culto na primeira igreja da Assembleia de Deus Ministério Madureira
Legenda da foto, Culto na primeira igreja da Assembleia de Deus Ministério Madureira: denominação se tornou uma das maiores do país

Em 2018, a igreja foi uma das muitas que se reposicionaram em meio à virada bolsonarista que realinhou o mundo evangélico e o afastou da esquerda.

Quatro anos depois, apoiou novamente Jair Bolsonaro, desta vez em sua candidatura à reeleição. O então presidente chegou a fazer um discurso de meia hora no evento da Conamad em Goiás em 2022 e, às vésperas do primeiro turno, Samuel Ferreira o recebeu em São Paulo em um culto em que a imprensa foi proibida de entrar.

Agora, a cúpula resistiu a embarcar na campanha do filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro (PL). O senador, que é correligionário de pastores da igreja que se tornaram parlamentares, como o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) e o deputado estadual por São Paulo Oseias de Madureira (PL-SP), buscou aproximação, mas não conseguiu fechar apoio.

Samuel Ferreira chegou a visitar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) de Jorge Messias, que é evangélico da igreja batista, e foi fotografado com ele após uma reunião no Planalto em outubro do ano passado.

Mas, quando chegou a hora de definir um lado nesta eleição presidencial, o colegiado de bispos acabou se decidindo por Ronaldo Caiado (PSD-GO), o ex-governador de Goiás que, no momento, está empatado com Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) nas pesquisas de intenção de voto, com cerca de 3%, conforme o Agregador da BBC News Brasil.

Que igreja é essa e por que ela resolveu se alinhar a um candidato que não está entre os favoritos nas pesquisas para levar essa eleição?

Lula entre o deputado Cezinha de Madureira, o bispo Samuel Ferreira, Jorge Messias e Gleisi Hoffman
Legenda da foto, Lula entre o deputado Cezinha de Madureira, o bispo Samuel Ferreira, Jorge Messias e Gleisi Hoffman

As Assembleias de Deus

A Assembleia de Deus é uma denominação pentecostal com mais de um século de história no Brasil. É a maior vertente evangélica no país, somando 12,3 milhões de fiéis, conforme os dados do Censo 2010.

Pesquisadores e fiéis costumam se referir a ela no plural: as Assembleias de Deus. Isso porque, de fato, são muitas.

Ao contrário da Igreja Católica, por exemplo, que responde à autoridade máxima do papa, ou de neopentecostais como a Universal, que é comandada por seu fundador, o bispo Edir Macedo, a Assembleia de Deus tem um modelo descentralizado, uma característica ligada à sua própria origem dentro do movimento pentecostal, nos Estados Unidos, no início do século 20.

Ela chegou ao Brasil por Belém do Pará em 1911, fundada por missionários suecos que haviam antes migrado para os EUA justamente na época em que o pentecostalismo florescia dentro da comunidade negra americana.

Com o tempo, expandiu-se pelo país e se fragmentou em meio a "guerras" e disputas internas, como ilustra Marina Correa, que há mais de 20 anos pesquisa a Assembleia de Deus e é autora, entre outros livros, de Dinastias Assembleianas: Sucessões Familiares nas Igrejas das Assembleias de Deus no Brasil.

É desse processo de divisão que surgem os "ministérios".

O Ministério Madureira foi fruto de uma das mais antigas cisões. Surgiu em 1929, quando o pastor Paulo Leivas Macalão fundou a primeira igreja no Rio de Janeiro, no bairro de Madureira.

Com o tempo, a Assembleia de Deus de Madureira foi se afastando da "matriz" em Belém, promovendo a abertura de novas igrejas e ganhando autonomia institucional. Até que, em 1958, fundou sua própria convenção, a Conamad, selando a divisão formal dentro do movimento.

Até os anos 1950, os diferentes templos da Assembleia de Deus no Brasil se articulavam em torno da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), que estava sob o comando de Belém.

As duas convenções — CGADB e Conamad — acabaram se tornando os dois grandes blocos que concentram o maior número de fiéis dentro da denominação.

A igreja do pastor Silas Malafaia, por exemplo, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), faz parte de um ministério independente (fundado em 1959 no Rio de Janeiro como Assembleia de Deus da Penha) e filiado à CGADB.

Caiado e Manoel Ferreira em 2014, quando o bispo apoiou sua candidatura ao Senado
Legenda da foto, Caiado e Manoel Ferreira em 2014, quando o bispo apoiou sua candidatura ao Senado

Relação antiga com a política e ponto de origem da bancada evangélica

A relação com a política faz parte da identidade do Ministério Madureira. Quando ainda dava os primeiros passos, nos anos 1940, buscou se aproximar da gestão do então presidente Getúlio Vargas — que, assim como o pastor Macalão, era gaúcho.

A pesquisadora Marina Correa lembra que Macalão, junto a outros pastores, chegou a enviar um telegrama a Vargas para expressar apoio à decisão de declarar guerra aos países do eixo durante a Segunda Guerra Mundial em 1942 e oferecer "cooperação em defesa dos ideais cristãos, liberdade dos povos, orando continuamente em prol da vitória do Brasil".

O bispo Manoel Ferreira, que começou na igreja nos anos 1960 em São Paulo, fez carreira no ministério também por suas habilidades políticas, como ele mesmo conta em um capítulo da biografia produzida em comemoração ao centenário das Assembleias de Deus.

Ferreira era com frequência acionado por Macalão para resolver problemas decorrentes dos movimentos de cisão dentro da congregação.

Em um episódio em particular nos anos 1970, o fundador telefonou para o então pastor da igreja de Vila Alpina, em São Paulo, para perguntar se ele conhecia alguém que pudesse impedir no cartório a oficialização de um documento que havia sido produzido por um grupo de pastores que buscavam se separar do ministério. Ferreira conseguiu acionar um general que era político do Estado de São Paulo, e a oficialização dos documentos foi revogada.

Jair Bolsonaro em reunião da Conamad em 27 de maio de 2022
Legenda da foto, Jair Bolsonaro em evento da Conamad em 2022: Ministério Madureira foi um entre muitas igrejas evangélicas que apoiaram o ex-presidente

Com o fim da ditadura, teve início o projeto de poder de fato da Assembleia de Deus de forma mais ampla, segundo Marina Correa. Em Ditadura Democracia e Fé no País da Moral e dos Bons Costumes, a pesquisadora e seu coautor analisam anos da publicação O Mensageiro da Paz, o jornal oficial da denominação, e registram como o discurso religioso, com o tempo, foi ganhando também contornos de discurso político.

Uma das grandes discussões na convenção da CGADB em 1985 foi sobre a "necessidade" de as Assembleias de Deus, que naquela época já eram a maior denominação evangélica do país, se envolverem mais na política, lembra o pesquisador Osiel Lourenço de Carvalho no artigo "Pentecostalismo na Esfera Pública - A participação das Assembleias de Deus na Política Partidária Brasileira".

Dessa convenção saíram 18 candidatos à eleição para deputado federal do ano seguinte. Impulsionados pelo lema "irmão vota em irmão", título de um livro escrito na época por um assessor do Senado e líder assembleiano, 13 foram eleitos.

Assim, a Assembleia de Deus foi um dos muitos grupos que estiveram presentes nas discussões da Assembleia Nacional Constituinte de 1987. Nesse momento, passam "de fato a ganhar voz" na política, como destaca Correa, dando origem ao que se conhece hoje como a bancada evangélica do Congresso.

"A Benedita estava lá nessa época, mas ela nunca usou a religião para isso", observa Correa, referindo-se a Benedita da Silva, assembleiana que também foi senadora nos anos 1990 e agora concorre novamente a uma cadeira na Casa pelo PT.

Culto no templo central do Brás. Imagem do fundo da igreja mostra o local lotado de fiéis
Legenda da foto, Culto no templo central do Brás: eixo foi deslocado do Rio para São Paulo

De Belém a Madureira - e ao Brás

Manuel Ferreira havia ascendido ao posto de pastor-presidente no Ministério Madureira poucos anos antes, em 1982, quando morreu Paulo Leivas Macalão — sem ter indicado sucessor — e seu vice-presidente, pastor Alípio, cerca de 20 dias depois.

Sua chegada ao poder deslocou o eixo do Ministério Madureira do Rio para São Paulo, o Estado para onde Manoel Ferreira havia se mudado ainda criança de Alagoas e onde construiu sua trajetória dentro da Assembleia de Deus.

"São Paulo é também um grande centro financeiro, de poder. Onde Edir Macedo resolveu construir seu Templo de Salomão?", comenta o pesquisador Gedeon Freire de Alencar, referindo-se à Igreja Universal, que também começou no Rio de Janeiro e hoje tem sua base mais importante em São Paulo.

O Templo de Salomão, aliás, está a menos de 200 metros da principal igreja do Ministério Madureira hoje, no bairro do Brás. O templo central da AD Brás é uma enorme construção de concreto armado e vidro espelhado com capacidade para 5 mil pessoas. É presidida por Samuel Ferreira, filho de Manuel Ferreira, hoje principal liderança do ministério.

A reportagem da BBC News Brasil procurou a igreja, mas não teve retorno sobre o pedido de entrevista.

Otoni de Paula fala do púlpito da igreja da Assembleia de Deus Ministério Madureira
Legenda da foto, 'Ele não é um dos nossos', diz o deputado Otoni de Paula sobre Flávio Bolsonaro

De Bolsonaro a Caiado

O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), que foi pastor do Ministério Madureira e na década de 1990 fundou o Ministério Missão de Vida, acredita que a decisão de apoiar Caiado se deve "à capacidade comprovada de Caiado como gestor" e à proximidade que a denominação tem com ele desde o tempo em que era deputado federal, nos anos 1990.

O Ministério Madureira tem uma base importante em Goiás. Foi o primeiro Estado para onde se expandiu, em 1936, antes ainda de desembarcar em São Paulo, em 1938.

"Então o apoio aí ao Caiado foi algo, assim, quase que natural, diante de um clima de polarização em que a igreja também ficou evitando entrar", afirma De Paula, cuja igreja é ligada a Madureira e à Conamad.

O apoio foi oficializado em abril, durante o evento anual da Conamad, realizado em Goiânia. O então governador de Goiás sentou-se à mesa comprida no palco, à semelhança de Arthur Lira em 2022, e ouviu sorrindo Samuel Ferreira discursar ao microfone.

"Madureira não entrou no segundo, Madureira entrou em primeiro turno — e Madureira é pé quente", disse o bispo na ocasião.

Passados quatro meses, contudo, a candidatura de Caiado não decolou. De Paula diz que a igreja "tem consciência" disso, mas que ainda não fechou um posicionamento.

"Os bispos ainda não decidiram como será o comportamento da Igreja enquanto convenção para esse segundo turno."

Ele já declarou que votará em Lula em um eventual segundo turno. Sobre a decisão da igreja de recusar as investidas de Flávio Bolsonaro, o deputado deixa claro que não fala pelo colegiado de bispos que deliberam sobre os apoios políticos, mas diz que o senador "sempre se aproveitou da igreja e nós temos consciência disso".

"Ele nunca foi um dos nossos", acrescenta De Paula, que já foi bolsonarista e vem há meses fazendo críticas abertas a esse campo político.

"Nós o apoiamos aqui no Rio de Janeiro, maciçamente, lá atrás, em 2018, e Flávio depois nunca esteve conosco mais, nunca congregou conosco mais. E não é só a gente, qualquer igreja evangélica do Rio de Janeiro nunca mais recebeu a visita do Flávio, porque ele nunca foi um dos nossos", completa.

Ciro Nogueira e Arthur Lira, que protagonizaram a cena na Conamad de 2022 e voltou a circular nas últimas semanas, são novamente candidatos, ao Senado no Piauí e em Alagoas, respectivamente. Desta vez, contudo, não houve manifestação pública de apoio de Madureira.

O bispo Samuel Ferreira tem concentrado os esforços na campanha de seus candidatos a deputado federal e estadual em São Paulo, Rogério Madureira e Elias Madureira, ambos pelo PL. Tem peregrinado por diferentes cidades com a "Caravana Movimenta Madureira" apresentando-os aos fiéis do interior.

Uma postagem em sua página da semana passada celebrava o endosso da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro (PL), que desponta como uma das favoritas a uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal e gravou um vídeo pedindo voto aos dois. "E agora é oficial. Madureira vai cantar!", comemorou o bispo na legenda.