'O que os meus professores consideravam defeitos foi o que me levou para prosperar na vida'

No interior de um salão de beleza, uma mulher de cabelo loiro ondulado sorri diretamente para a câmera, com os olhos brilhantes. Ao fundo, um quadro com um pavão real adorna uma parede, ao lado de grandes espelhos com molduras douradas e poltronas pretas para os clientes
Legenda da foto, Sam Bell dirige atualmente um salão de beleza
    • Author, Ana da Silva
    • Role, BBC News
    • Author, John Darvall
    • Role, BBC Rádio Bristol
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  • Tempo de leitura: 6 min

Sam Bell costumava ouvir na escola que era "muito barulhenta, travessa demais, muito intensa". Ainda assim, ela tinha medo de ler em voz alta para os colegas.

Bell abandonou os estudos sem perspectivas de trabalho e, pouco tempo depois, foi diagnosticada com dislexia.

Agora, ela tem 47 anos, dirige seu próprio salão de beleza em Bristol, no sudoeste da Inglaterra, e trabalha como estilista para o cinema, televisão e desfiles de moda.

Além disso, todos os anos ela contrata aprendizes, para ajudar outras pessoas com a mesma condição.

Quando Bell entrou em um salão de beleza procurando emprego, aos 17 anos, ela não tinha muito o que oferecer, exceto pela sua personalidade extrovertida.

"Eu não queria ser cabeleireira", contou ela à BBC. "Mas a minha mãe me expulsaria de casa se eu não conseguisse um emprego", destacou ela.

O dono do salão a contratou como aprendiz por um salário semanal de 45 libras (cerca de R$ 310, pelo câmbio atual).

Ela se lembra de ter ficado "surpresa" ao saber que seu trabalho consistia em conversar com os clientes todo o dia, enquanto lavava cabelos e varria o salão.

"Adorei aquilo e foi muito libertador quando finalmente ouvi que eu era boa em alguma coisa", destacou ela.

'A dislexia é o meu superpoder'

Sam Bell conta que, no colégio, ela enfrentava dificuldades. Para ela, ler em voz alta na classe era "assustador".

"Eu sabia que não iria conseguir ler tão bem quanto os demais e que as outras crianças iriam zombar de mim", relembra ela. "Por isso, eu me comportava muito mal, para que os professores me expulsassem de classe."

"Ninguém nunca percebeu que eu era disléxica."

Para Bell, sua dislexia, agora, é valiosa para sua vida e sua carreira.

"Acredito que ser disléxica é o meu superpoder", segundo ela. "Tenho mais imaginação do que outras pessoas e muita facilidade para me comunicar."

Bell trabalhou naquele primeiro salão de beleza por mais de uma década. Ali, ela aprendeu a profissão até abrir seu próprio salão em 2009.

Ao longo da carreira, ela fez o penteado de atores e celebridades, para filmes e programas de TV. E também atendeu modelos nas semanas de moda de Londres, Paris, Nova York e Milão.

Em um salão de beleza, dois jovens cabeleireiros vestidos de preto cortam o cabelo de clientes cobertas com capas pretas, com espelhos nas paredes com moldura creme, lâmpadas redondas acesas e uma chaminé junto a uma parede de pedra
Legenda da foto, Sam contrata aprendizes no seu salão de beleza, todos os anos

O que é a dislexia?

Um porta-voz da Associação Britânica de Dislexia descreveu a condição como uma "diferença neurológica permanente, que atinge a forma de processamento das informações pelo cérebro".

"Ela pode representar dificuldades de educação, emprego e na vida cotidiana, mas cada pessoa tem um perfil próprio de potencialidades e áreas de dificuldade", declarou o porta-voz.

"Muitas pessoas disléxicas desenvolvem resiliência, capacidades de solução de problemas e outras capacidades valiosas."

É difícil calcular exatamente quantas pessoas com dislexia existem no mundo. Mas a organização Dislexia e Alfabetização Internacional afirma que pelo menos 10% da população sofrem da condição, o que equivale a cerca de 800 milhões de pessoas.

A falta de técnicas básicas de alfabetização faz com que muitos adultos jovens não possuam as capacidades funcionais necessárias para progredir no mundo moderno.

Mesmo nos países mais ricos, onde há educação pública disponível para crianças de todas as origens, a distribuição desigual de recursos pode criar sérias omissões na oferta de serviços para estudantes com necessidades especiais.

Sem identificar o problema para oferecer intervenções eficazes, o impacto da dislexia pode ser significativo e duradouro, não só para o indivíduo, mas para a sociedade como um todo.

"A maior parte dos disléxicos adultos tem uma experiência de leitura ao longo da vida que os ensina a realizar as tarefas por qualquer meio que seja necessário", declarou, anos atrás, o professor de neurociência cognitiva do desenvolvimento Joel B. Talcott, da Universidade de Aston, no Reino Unido.

"Em alguns ambientes que exigem o desenvolvimento de uma capacidade de leitura muito alta, estas exigências podem exceder a capacidade do indivíduo e é aí que surgem as dificuldades."

Talcott indicou que, em alguns casos, pode ser neste momento que as pessoas, pela primeira vez, reconhecem suas dificuldades de leitura ou percebem que leem de forma diferente dos seus colegas.

Uma pesquisa realizada pela Fundação KPMG em 2006 analisou os custos sociais gerados quando ignoramos o analfabetismo relacionado à dislexia.

Eles incluem desemprego, problemas de saúde mental, programas de recuperação e os custos causados pelo comportamento antissocial, que pode levar ao abuso de drogas, gravidez precoce e penas de prisão.

No Reino Unido, uma comissão parlamentar encontrou evidências de que existem barreiras sistêmicas de emprego para milhões de trabalhadores em potencial que são portadores de neurodivergências.

Isso significa que seus cérebros funcionam, aprendem e processam informações de forma diferente das demais pessoas.

O relatório destacou falta generalizada de conscientização da sociedade, erros de apoio governamental e discriminação nos locais de trabalho, mas também muitos exemplos de boas práticas.

A maior parte das pessoas neurodivergentes são capazes e qualificadas. O que as incapacita são os processos de recrutamento das empresas.

'Ninguém teve tempo de me ensinar'

Sam Bell conta que os comportamentos que a transformavam em uma "má aluna" na escola (como ser barulhenta e falar demais) a ajudaram a progredir fora do sistema educacional.

Agora, ela ajuda outros jovens a entrar no setor de cabeleireiros contratando aprendizes.

"Acredito que [os programas de aprendizado] são uma ótima oportunidade para aqueles que não têm formação acadêmica", declarou ela. E destacou que fica muito feliz ao ver os jovens progredirem.

Tony Mitchell é um antigo aprendiz que trabalha no salão de beleza de Bell há mais de uma década. Ele afirma que seu ambiente de trabalho é "muito solidário".

Mitchell entrou no salão com 20 anos de idade, quando deixou o ofício de carpintaria. Agora com 33, ele é cabeleireiro.

"Em um salão anterior, eles me disseram que eu era muito temperamental", relembra ele. "Mas sinto que ninguém teve tempo de me ensinar os truques do ofício, como fez Sam."

"Sempre fui um menino tímido e este lugar me ajudou a ter mais confiança em mim mesmo e a sentir que pertenço a este grupo."

Com colaboração de Mauro Galluzzo.