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No centenário de Marilyn Monroe, por que mistério ainda ronda sua morte?
- Author, Beatriz Díez
- Role, BBC News Mundo
- Published
- Tempo de leitura: 8 min
"A verdade raramente vem à luz. Normalmente, circulam as mentiras... É difícil saber por onde começar se não for com a verdade."
Estas foram as palavras de Marilyn Monroe na sua última entrevista concedida à revista Life em 1962, pouco antes da sua morte.
Norma Jeane Mortenson (seu nome de solteira) nasceu 100 anos atrás, no dia 1° de junho de 2026.
Monroe morreu aos 36 anos, deixando para trás uma vida repleta de contrastes.
Adorada por milhões de pessoas em todo o mundo, a estrela enfrentou inúmeros problemas psicológicos e emocionais que ela própria atribuía à sua infância e, em menor escala, ao peso da fama.
Sua morte em agosto de 1962, classificada oficialmente como "provável suicídio", despertou inúmeros boatos e teorias da conspiração que persistem até hoje.
Sua história contém os ingredientes perfeitos para um filme de Hollywood: sexo, política, agentes secretos e até o suposto envolvimento com a máfia e com o presidente americano da época e sua família.
A investigação
Quando o procurador do distrito de Los Angeles, nos Estados Unidos, analisou o caso de Monroe em 1982, o jornalista Anthony Summers viajou do Reino Unido para a Califórnia, para tentar desvendar o mistério.
"Logo me dei conta de que a história era muito mais ampla e complicada do que eu pensava", contou ele à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. "Havia muito que aprender."
Summers comprou um carro e começou a visitar casas e fazer ligações. Ele encontrou pessoas evasivas ou que se recusavam a falar a respeito.
Mas Summers insistiu.
Ele chegou a entrevistar mais de 700 pessoas, algumas delas com conhecimento íntimo dos últimos dias e horas da atriz. Uma delas foi sua governanta, Eunice Murray (1902-1994), além da família do seu último psiquiatra, Ralph Greenson (1911-1979).
Como fruto desse trabalho, Summers publicou em 1985 o livro Marilyn Monroe, a Deusa: as Vidas Secretas (lançado no Brasil pela Editora Best Seller, em 1987). A obra serviu de base para o documentário da Netflix O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas (2022).
"Não encontrei nada que me convencesse de que ela foi assassinada, mas encontrei provas de que as circunstâncias da sua morte foram deliberadamente encobertas", afirma Summers.
"E diria que as evidências sugerem que isso aconteceu devido às ligações da atriz com os irmãos Kennedy."
Marilyn e os Kennedy
No centro de todo o mistério que circunda a morte de Marilyn Monroe, encontra-se o suposto relacionamento da atriz com os irmãos John (1917-1963) e Robert "Bobby" Kennedy (1925-1968), respectivamente presidente e procurador-geral dos Estados Unidos, na época.
Summers conseguiu com que fontes diretas confirmassem que Monroe e os Kennedy frequentavam, com certa regularidade, a mansão do ator britânico Peter Lawford (1923-1984), cunhado dos políticos e conhecido da atriz, na praia de Malibu, na Califórnia (Estados Unidos).
Outros de seus entrevistados falaram sobre uma suposta relação sentimental entre Monroe e os dois irmãos (primeiro com John e, depois, com Bobby), o que nunca foi reconhecido pela família Kennedy.
Nas gravações de Summers, detetives particulares e ex-agentes do FBI afirmam que Monroe e os Kennedy estavam sendo espionados.
Investigadores diretamente envolvidos no caso contaram ao jornalista que as casas da atriz e de Lawford tinham microfones instalados pelas forças de segurança e por grupos mafiosos interessados em descobrir um possível escândalo para pressionar o procurador-geral.
Além disso, Summers relatou ter tido acesso a arquivos do FBI que demonstram que o órgão investigava a atriz por sua suposta ideologia de esquerda e que seus encontros com os irmãos Kennedy eram considerados uma questão preocupante por motivos de segurança.
Summers afirma que isso fez com que os Kennedy rompessem todos os contatos com a atriz.
O especialista em vigilância Reed Wilson contou a Summers que a gravação de uma escuta telefônica revelou que, no dia da sua morte, Monroe disse a Peter Lawford que a deixassem em paz.
"Eu me sinto usada. Sinto-me um pedaço de carne. Sinto que me passaram de um para outro", teria dito Monroe.
"Não é que ela estivesse com o coração partido", ressaltou Wilson. "Era mais que ela sentia que haviam se aproveitado dela, que haviam mentido para ela."
Um complô para assassiná-la?
A ideia de que Marilyn Monroe pudesse ter se tornado uma figura incômoda ou até perigosa para os Kennedy fez com que ganhassem força as teorias de assassinato.
Mas, para Anthony Summers, não há evidências que sustentem essa hipótese.
"Para sugerir que alguém foi assassinado, você precisa ter alguma prova — e essa prova não existe", segundo ele.
Mas "as evidências da noite em que ela morreu indicam que foi inventada uma história e que não se contou a verdade sobre o desenrolar dos fatos", afirma o jornalista.
Segundo a versão divulgada na ocasião, a governanta Eunice Murray viu uma luz [no quarto da atriz] às três horas da madrugada do domingo, 5 de agosto, e ligou para o psiquiatra Ralph Greenson.
Ao chegar, ele olhou pela janela e a viu estendida na cama, aparentemente morta. Greenson então quebrou o vidro e, em seguida, ele e Murray chamaram a polícia.
Mas Summers recolheu testemunhos de outras pessoas com uma versão diferente.
Nathalie Jacobs, viúva do assessor de imprensa de Monroe, recordou que alguém havia avisado seu marido que havia uma emergência com a atriz perto das 22h ou 23h do sábado, 4 de agosto.
Paralelamente, o médico forense que fez a autópsia, Thomas Noguchi, determinou como hora provável da morte 23h ou meia-noite, o que indicaria a data da morte como 4 e não 5 de agosto.
Qual o motivo da discrepância?
"Levei muito tempo para ver quais peças do quebra-cabeças poderia encontrar e verificar se elas se encaixavam", conta Summers.
Ele conseguiu a informação de que uma ambulância foi mandada para a casa de Monroe, o que o ajudou a "fazer uma análise mais real dos horários".
Ele se convenceu de que "houve um engano sobre o que aconteceu, mas não que ela tivesse sido morta. A autópsia não encontrou lesões físicas, nem sinais de injeções."
"Encontraram comprimidos para dormir... Parecia totalmente possível que ela tivesse morrido por overdose acidental. Ou que tivesse se matado deliberadamente, como já havia tentado antes."
"Acredito que o mais provável é que tenha sido um terrível acidente. Se ela quisesse se suicidar, eu esperaria que ela tivesse dito a alguém ou que houvesse deixado um bilhete, o que, aparentemente, ela não fez."
Novas peças do quebra-cabeça
Nas atualizações do seu livro, Summers conseguiu acrescentar peças que faltavam. Uma delas foi o testemunho do cabeleireiro e confidente de Monroe, Sydney Guilaroff (1907-1997).
Guilaroff escreveu posteriormente na sua biografia que Marilyn telefonou para ele às 21h30 da noite da sua morte. Ela parecia letárgica e incomodada.
Ela contou que se sentia rodeada de perigos e traída por homens poderosos. E afirmou que Robert Kennedy a visitou naquele dia e discutiu com ela.
A governanta de Monroe também disse a Summers que o procurador-geral visitou a atriz naquela tarde e que houve uma discussão acalorada.
Summers acredita que Kennedy precisava sair da cidade e que o atraso para informar a morte de Monroe pode ter servido para garantir que ele já tivesse ido quando surgisse a notícia.
Robert Kennedy nunca reconheceu que havia estado em Los Angeles no dia da morte da atriz.
Fascinação que perdura
A vida de Marilyn Monroe foi repleta de momentos gloriosos e dores profundas. E, no centenário de seu nascimento, ela permanece atraindo a fascinação de todo o mundo.
Sua imagem está "em toda parte, de Connecticut [nos Estados Unidos] até o Congo", segundo Summers, "em canecas, bolsas — o que você imaginar".
Ele espera que as próximas gerações a vejam como uma pessoa real, com sentimentos e inteligência.
Para Summers, "ela foi muito mais do que um ícone."
"Marilyn Monroe foi uma mulher brilhante e ótima atriz. Ela lia muito, sabia sobre política. Era uma mulher inteligente, submetida a uma pressão quase insuportável. No fim, pode-se dizer que essa pressão a matou."
As últimas palavras da atriz ao jornalista Richard Meryman (1926-2015), que a entrevistou para a revista americana Life, também refletem esse desejo de ser levada a sério.
"Por favor, não me transforme em uma piada."
"Eu não me importo que façam piadas, mas não quero parecer que sou uma. Quero ser uma artista, uma atriz com integridade."
Esta reportagem foi publicada originalmente em 2022, para marcar o 60° aniversário da morte de Marilyn Monroe. Ela foi atualizada para celebrar seu centenário de nascimento.