Por que Lula ou Flávio Bolsonaro podem vencer no 1º turno, segundo especialista em pesquisas

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As eleições presidenciais deste ano podem acabar ainda no primeiro turno, avalia Maurício Moura, doutor em Economia e Política e fundador do instituto de pesquisa Idea.
Em entrevista à BBC News Brasil, o especialista detalha os fatores que o levam a apostar neste cenário, discute os impactos do escândalo envolvendo o Banco Master e o senador Flávio Bolsonaro (PL) e destaca o comparecimento às urnas como elemento importante na definição do vencedor.
"Essa é essencialmente uma eleição de reeleição, e a pergunta que a população responderá em outubro é se o presidente Lula merece ou não continuar", aponta Moura.
Segundo o especialista, após as convenções partidárias, que definirão os candidatos de cada partido e devem terminar até 15 de agosto, será possível traçar um cenário mais concreto.
Mas, se o quadro atual se mantiver — isto é, com Lula e Flávio Bolsonaro como principais concorrentes —, é possível que o resultado seja selado já em 4 de outubro, diz ele.
"Se continuarmos com as atuais peças do tabuleiro, acredito que existe uma enorme chance de acabar no primeiro turno", argumenta Moura.
A última vez em que um presidente venceu as eleições no Brasil no primeiro turno foi há quase 30 anos, em 1998, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi reeleito.
Vitória no primeiro turno?
Para Maurício Moura, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro poderiam sair vitoriosos já no primeiro turno pelo que apontam as pesquisas mais recentes, em que os dois pré-candidatos aparecem com mais de 30% das intenções de voto.
Esse quadro, a mais de cinco meses da eleição, é "inédito", afirma o especialista.
"Nunca tivemos dois candidatos acima de 30 pontos no primeiro turno. Já estamos em um patamar quase de reta final de primeiro turno."
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Lula ultrapassou o senador Flávio Bolsonaro (PL) nas estimativas de intenção de voto para presidente no segundo turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil após a revelação da ligação entre o filho de Jair Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro, e se mantém à frente desde então.
Com os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a segunda-feira (25/5), a estimativa de intenção de votos no petista no segundo turno no início desta semana estava em torno de 46%, enquanto Flávio Bolsonaro tem cerca de 43%.
Observando os resultados anteriores do agregador, é possível notar ainda que Lula aparecia com 38% das intenções em 12 de janeiro, quando o levantamento começou. O petista não esteve abaixo dos 30% desde então.
Já Flávio chegou aos 30% em 14 de janeiro e, em 18 de março, o senador alcançou sua maior estimativa de intenção de voto: 46%.
O agregador indica as estimativas de intenções de voto para os pré-candidatos à Presidência — uma "média" das pesquisas, mas que leva em conta pesos diferentes para cada levantamento.

Crédito, Rafael Sales/Arquivo pessoal
Moura aponta ainda que as pesquisas espontâneas de intenção de voto, nas quais os nomes dos candidatos disponíveis não são listados aos entrevistados, apontam que boa parte da população já escolheu seu candidato, o que é bastante significativo e também aponta uma tendência de resolução da eleição no primeiro turno.
"O grau de voto espontâneo hoje, tanto do Lula quanto do Flávio [Bolsonaro] supera quase 2/3 do eleitorado. É um grau de decisão muito acima da média", diz o economista.
Esquerda livre, antipetismo e abstenção
Ainda segundo o especialista em opinião pública, a conjuntura atual apresenta outros três grandes sinais que apontam para esse cenário.
O primeiro deles é o domínio do campo da esquerda pelo PT, que não possui concorrentes diretos dentro do seu espectro político nesta eleição.
"O partido nunca ganhou no primeiro turno, porque sempre teve um concorrente direto para roubar seus votos", diz Moura.
Em 2002, diz ele, Anthony Garotinho (PSB) teve uma votação expressiva e pode ter desviado votos de Lula no primeiro turno. Em 2006, Heloísa Helena (PSOL) exerceu esse papel, também em uma eleição com a participação do atual presidente.
Já em 2010 e 2014, Marina Silva (então no PV) tirou potenciais votos petistas de Dilma Rousseff (PT), argumenta Moura. Em 2018, a esquerda tinha Guilherme Boulos (PSOL), e, em 2022, Ciro Gomes (então no PDT), que teriam atraído votos do mesmo eleitorado de Fernando Haddad (PT) e Lula, respectivamente.
"Do lado do PT, há uma grande chance de vitória no primeiro turno", diz o economista.
Moura aponta ainda que, caso a eleição não seja resolvida em 4 de outubro, Lula provavelmente terá uma margem de votos muito semelhante nos dois turnos, porque dificilmente atrairá eleitores de candidatos como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), que podem terminar em terceiro ou quarto lugar na corrida para presidente.

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Por outro lado, afirma o fundador do Instituto Idea, o PL se beneficia de outro fator, que chama de "antipetismo de chegada".
"O eleitor antipetista até gostaria de votar em outro candidato [que não Flávio Bolsonaro] no primeiro turno, mas ele acaba aglutinando votos no candidato com a maior probabilidade de ganhar do PT", diz Moura.
"E quanto mais forte estiver o Lula no primeiro turno, mais o antipetismo vai se mobilizar."
Dessa forma, argumenta o especialista, Flávio Bolsonaro pode acabar vitorioso já em 4 de outubro.
Segundo a pesquisa Meio/Idea de maio, o presidente Lula tinha a maior rejeição entre os pré-candidatos à Presidência, com 44,8%. Flávio aparecia em seguida, com 38%.
No entanto, em levantamentos feitos posteriormente, como Datafolha e Atlas, em que a consulta foi feita após a revelação do elo entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Master, o senador registrou uma rejeição maior: de 52%, contra 50,6% para Lula, na Atlas; e de 46% e 45%, respectivamente, no último Datafolha.
Ainda segundo Moura, tem sido comum no Brasil que incumbentes comecem o ano eleitoral com um desempenho mais fraco nas pesquisas. Mas, segundo o pesquisador, os números tendem a melhorar à medida que a votação se aproxima.
Isso não vinha acontecendo tão rapidamente com Lula. "A melhora do governo neste ano foi muito marginal quando comparada às vistas antes da vitória de Lula em 2006, de Fernando Henrique em 1998 e da própria Dilma Rousseff em 2014, que já estava em uma curva mais acelerada de melhora nessa altura", diz.
Porém, após a eclosão da crise na pré-campanha de Flávio por conta da ligação com o dono do Master, os levantamentos indicaram uma melhora destes índices para Lula.

Crédito, REUTERS/Adriano Machado
O terceiro sinal usado por Maurício Moura para justificar sua teoria tem relação justamente com a percepção da população em relação à política e sua ligação com casos de corrupção.
Segundo o especialista, o envolvimento do PT na Operação Lava Jato e as recentes revelações sobre Flávio Bolsonaro e Vorcaro "afastam os eleitores".
"Para o eleitor, cria-se uma ideia de que todos os candidatos são iguais e corruptos, impactando os votos brancos, nulos e, eventualmente, até em abstenção", diz.
Moura explica que isso pode afetar a "matemática do voto válido" e ampliar as chances de uma eleição com apenas um turno.
O voto branco e o voto nulo não entram na conta dos chamados votos válidos, que definem a eleição. Já as abstenções representam o número de eleitores que não compareceram para votar.
Para vencer, um candidato precisa de maioria absoluta, ou seja, de 50% dos votos válidos mais um.
Sendo assim, se o número de pessoas que votam nulo ou branco ou não comparecem às urnas for alto, isso quer dizer que o total de votos válidos em disputa será menor. Ou seja, o vencedor vai precisar de menos votos para atingir a maioria absoluta e ganhar.
"Qualquer abstenção, seja de um ou dois pontos percentuais, em função de um sentimento ruim em relação à eleição, pode ser a diferença [para] acabar no primeiro turno", afirma Moura.
Em casos de alta abstenção, pondera o economista, o PT tende a sair mais prejudicado.
"Historicamente, a abstenção está focada na [população] de baixa renda e baixa escolaridade. Ou seja, as pessoas de mais baixa renda e baixa escolaridade votam menos. Inclusive, o grupo que menos vota no Brasil é o de analfabetos", diz Moura.
"Isso obviamente prejudica o PT, porque o presidente Lula tem uma característica de [atrair] um voto mais popular."
Moura afirma que esse, inclusive, é outro motivo que explica o PT nunca ter vencido uma eleição no primeiro turno.
"A abstenção, na equação de votos válidos, acaba dando uma proporção maior aos eleitores de mais alta renda e escolaridade na curva total", diz.
O impacto do caso Master
Moura prevê ainda que o impacto negativo das revelações sobre a relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso acusado de comandar uma fraude financeira bilionária, se revelará aos poucos nas pesquisas públicas.
O analista afirma ainda que os vazamentos dos áudios e mensagens em que o senador mostra proximidade e pede dinheiro a Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ajudam a colocá-lo "em uma vala comum de políticos corruptos" na visão dos eleitores.
"Quando fazemos grupos focais de pesquisa qualitativa, vemos que muitas pessoas não têm noção de quem é o Flávio, além de que ele é o filho do [Jair] Bolsonaro", diz
"Mas esse escândalo do Master é ruim para a imagem dele, porque já de cara o coloca como parte de um sistema que, na percepção das pessoas, é um sistema corrompido."
Para Maurício Moura, diante da crise aberta na pré-candidatura de Flávio, uma eventual substituição do cabeça de chapa é uma possibilidade, mas apenas se o tema "intoxicar as candidaturas" do PL para o Congresso.
"O mundo político brasileiro hoje está mobilizado para eleger deputados federais, para que cada partido possa ter acesso a fundo partidário, eleitoral, às emendas parlamentares que são um poder econômico para o Congresso hoje", diz.
"Só vai ocorrer uma substituição se ficar muito evidente que o Bolsonaro, ou particularmente o Flávio, vai fazer mal à competitividade dos deputados."
Sobre a escolha da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) para o lugar de Flávio, o especialista diz que ela pode ter um bom poder de mobilização, especialmente entre o eleitorado feminino.
Mas afirma que a indicação depende de uma "decisão quase que personalista" de Jair Bolsonaro, o que pode dificultar a escolha do seu nome: "Ele poderia ter já indicado a Michelle, mas escolheu o Flávio".
Os 3% que podem definir a eleição
Independentemente de haver segundo turno ou não, Maurício Moura diz que a eleição será decidida por 3% do eleitorado, ou algo em torno de 4,5 milhões de pessoas, que representam os independentes ainda indecisos.
"São os eleitores que estão fora das bolhas" da polarização, explica o especialista.
"Já votaram no [Jair] Bolsonaro em 2018, foram fundamentais para a vitória do Lula em 2022, mas hoje ou desaprovam o governo, ou acreditam que ele não merece continuar, ou não têm certeza."
Segundo o especialista, diversos líderes incumbentes enfrentaram uma situação semelhante ao redor do mundo.
No caso brasileiro, porém, o candidato da oposição mais bem posicionado nas pesquisas — Flávio Bolsonaro — também apresenta uma rejeição alta, o que torna o cenário menos previsível.
"Flávio tem um ativo, que é um sobrenome muito forte, mas também um passivo, que é a rejeição que esse sobrenome traz", aponta, em referência à avaliação da população sobre o governo do seu pai.

Crédito, PF
Apesar disso, Moura afirma acreditar que, para os 3% de eleitores independentes, os temas econômicos devem pesar muito mais no momento da decisão do que qualquer escândalo de corrupção.
Por isso, a ala bolsonarista pode se prejudicar ainda mais se focar demais em rebater as acusações sobre o caso Master e deixar de lado outros temas.
"O governo está no modo campanha, tirando taxa de blusinha, oferecendo Desenrola, gerando benefício. E a oposição está basicamente tentando se reagrupar em função desse escândalo", aponta.




























