O que 3 episódios históricos podem indicar sobre rumos da guerra no Irã

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- Author, Nick Ericsson
- Role, Serviço Mundial da BBC
- Tempo de leitura: 8 min
A guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã um mês atrás parece ter se tornado previsível, dentro da sua imprevisibilidade.
Também não surpreende que as postagens do presidente americano, Donald Trump, nas redes sociais aparentemente amplifiquem a crise e abalem os mercados globais, mesmo que por breves períodos.
Mas os comentários de Trump não são o único fator que direciona esta guerra. A história também parece ter grande influência.
Nas semanas que se passaram desde o início do conflito, especialistas vêm recorrendo cada vez mais ao passado para tentar compreender as convulsões e prever para onde elas se dirigem.
E, nestas tentativas, existem três importantes episódios históricos que se destacam.
1. A crise de Suez (1956)

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O ataque com mísseis a Israel realizado pelos houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, na semana passada — o primeiro desde o início da guerra — abriu uma nova frente no conflito.
A entrada do poderoso aliado iraniano aumenta o temor de maiores transtornos para a economia mundial, já que o grupo detém a capacidade de atacar navios no mar Vermelho, particularmente no canal de Suez.
Os houthis, na verdade, não conseguem bloquear totalmente aquela rota fundamental, por onde passam normalmente 30% do tráfego mundial de contêineres e cerca de 15% do comércio global de mercadorias. Mas eles podem prejudicar seriamente o acesso ao canal.
Acrescente-se a isso a turbulência causada pelo Irã no Estreito de Ormuz e especialistas afirma que os impactos à economia global são potencialmente catastróficos.
Contra tudo isso, os analistas indicam a crise de Suez, 70 anos atrás, como uma lição sobre as ramificações maiores da guerra atual no Oriente Médio.
Quando o então presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser (1918-1970), nacionalizou o canal de Suez em 1956 — que até então era administrado por interesses britânicos e franceses —, ele assumiu o controle de uma das principais vias de transporte de petróleo do mundo. Em resposta, a França, o Reino Unido e Israel tentaram retomar a sua posse, sem sucesso.

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Para Trump e seu velho aliado, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, a história oferece sensatas reflexões a este respeito.
"Mais do que qualquer outra coisa, a crise marcou o fim da era do Reino Unido como potência mundial", afirma o editor de internacional da BBC, Jeremy Bowen.
"O país tinha o domínio imperial no Oriente Médio desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e o episódio também foi o início do fim desse domínio."
A tática atual de Teerã e dos houthis, de restringir o acesso a artérias econômicas vitais para a economia global, traz reminiscências da reação de Nasser.
Quando as forças anglo-francesas desembarcaram no norte do canal de Suez, Nasser havia afundado dezenas de navios, bloqueando o canal e interrompendo uma corda de segurança disponível entre a Europa e seus campos petrolíferos no Golfo Pérsico, indica o historiador americano Alfred W. McCoy.
O então presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower (1890-1969), temia a abertura de uma frente crescente e perigosa na Guerra Fria (1947-1991) contra a União Soviética. Por isso, ele interveio na questão, forçando o Reino Unido e a França a se retirarem.
"Naquela época... o Reino Unido havia sofrido sanções da ONU, sua moeda estava à beira do colapso, sua aura de potência imperial havia se evaporado e seu império global caminhava rumo à extinção", escreve McCoy.

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Mas os paralelos com o conflito atual não são exatos, segundo Bowen.
"Não estou necessariamente comparando o poderio atual dos Estados Unidos com o que o Reino Unido detinha após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)", destaca ele. "O que estou dizendo é que todas as nações poderosas têm altos e baixos."
"E, com os Estados Unidos enfrentando o crescimento da China, se, no futuro, as pessoas começarem a observar o declínio americano, os historiadores podem descrever este episódio como uma etapa nesta direção; uma guerra que foi iniciada sem que se pensasse muito nas consequências."
E, para compreender melhor os possíveis efeitos do conflito, vale a pena observar outras lições oferecidas pela história nos últimos 70 anos.
2. O choque do petróleo (1973)
Nas décadas que se seguiram, outras importantes artérias econômicas foram bloqueadas para causar o máximo de danos possível. Novas ocorrências como essas são totalmente previsíveis nos dias de hoje, segundo os observadores.
Um dos exemplos mais claros veio pouco menos de 20 anos após a desastrosa campanha de Suez.
"Em 1973, houve uma guerra entre Israel, o Egito e a Síria", conta Bowen. "Foi um ataque surpresa a Israel pelos egípcios e sírios, a chamada Guerra do Yom Kippur."
"Os americanos abasteceram Israel com armas. Em seguida, o mundo árabe contra-atacaria impondo um embargo, que elevou massivamente o preço do petróleo, causando muito prejuízo para a Europa ocidental."
O então ministro do Petróleo da Arábia Saudita, o xeque Ahmed Zaki Yamani (1930-2021), mostrou explicitamente, em 1973, como recursos como o petróleo, com seu impacto sobre os mercados globais, poderiam ser usados como ferramenta de influência.
Ele descreveu o controle significativo da produção pelo mundo árabe como "arma do petróleo", que poderia levar rapidamente "ao colapso" as economias globais.
O embargo durou cinco meses, mas os especialistas afirmam que ele foi sentido por uma década.
A inflação, por exemplo, disparou nos Estados Unidos e em outros países, altamente dependentes do petróleo para suas indústrias. E, com a alta dos preços, subiram também as taxas de juros, com os bancos centrais lutando para conter o crescente custo de vida.

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Atualmente, o petróleo como commodity não tem a mesma dominância global de mais de 50 anos atrás. A parcela da demanda global é menor do que naquela época e vêm crescendo os investimentos para desenvolver fontes mais diversificadas de energia, particularmente no Ocidente.
Mas o petróleo ainda é um recurso crítico e os eventos de 1973 oferecem lições fundamentais para Donald Trump.
Os Estados Unidos, agora, produzem mais energia do que consomem, ao contrário de meio século atrás. Mas o país ainda importa volumes significativos de petróleo bruto e é vulnerável ao custo do petróleo comercializado no mercado global. Isso acabaria atingindo os consumidores americanos.
O país também poderá sofrer impactos indiretos devido às tensões aos seus principais parceiros na Ásia, que não contam com fontes de energia tão diversificadas e vêm sofrendo o maior impacto da atual escassez de petróleo.
"O que está acontecendo [agora] não é que os sauditas, os Emirados etc. dizem que não irão vender seu petróleo para os seus clientes na Europa", explica Bowen. "Mas o Irã e, potencialmente, também os houthis estão dificultando muito sua chegada ao mercado."
"O petróleo é muito importante. E, se você interromper esses fornecimentos, causará muitas perturbações globais."
3. A Guerra Irã-Iraque (1980-1988)
Os historiadores afirmam que a guerra entre o Irã e o Iraque, que dominou grande parte dos anos 1980, oferece a Donald Trump exemplos históricos mais recentes e irrefutáveis de como os adversários de Washington podem bloquear artérias econômicas vitais.
Nos últimos anos daquele conflito, os navios no Estreito de Ormuz eram atacados tanto por Teerã, quanto por Bagdá. Analistas afirmam que aquela foi uma tentativa de chamar as potências mundiais para o conflito.
Em meados para o fim dos anos 1980, os ataques foram tão graves que o Kuwait pediu ajuda internacional para que seus navios navegassem através do estreito. Washington concordou, para não ser ultrapassado por Moscou, seu adversário na Guerra Fria.

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Chamada de Operação Earnest Will ("Vontade Sincera", em inglês), a escolta de tanques começou em julho de 1987. Mas ela logo se tornou um grande constrangimento para os Estados Unidos, quando minas iranianas atingiram o navio Bridgeton (que deveria estar sendo protegido pelos americanos), que se dirigia ao Kuwait.
Especialistas indicam que o incidente destacou como as capacidades de varredura de minas de Washington no estreito eram inadequadas, uma questão que continuou prejudicando a operação.
Se compararmos o episódio com o conflito atual e a recente convocação de Trump em busca do apoio operacional de outros países para manter aberto o Estreito de Ormuz, fornecendo escoltas navais, os paralelos são óbvios.
Mas o desafio atual é ainda maior para Washington, segundo os analistas. Afinal, as ferramentas de guerra passaram a incluir, por exemplo, drones, e o Irã não enfrenta mais uma guerra prolongada contra o Iraque.
A história oferece muitas lições para as partes envolvidas na guerra atual no Oriente Médio, principalmente para os seus protagonistas. A forma como eles observam estas lições provavelmente irá influenciar a direção e a duração do atual conflito de alcance global.






























