Perfis nas redes sociais espalharam informações falsas e incentivaram nova travessia de migrantes para Ceuta

Um policial aparece em primeiro plano, de costas para a câmera, enquanto crianças fazem fila do lado de fora de uma delegacia para serem registradas pelas autoridades.

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Crianças migrantes são registradas pela polícia de Ceuta após travessia em massa a partir do Marrocos
    • Author, Ahmed Nour & Stephanie Hegarty
    • Role, BBC Arábe e Serviço Mundial da BBC
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  • Tempo de leitura: 4 min

Perfis nas redes sociais que divulgaram a travessia em massa de migrantes do Marrocos para o território espanhol de Ceuta, em julho, têm compartilhado publicações incentivando centenas de milhares de seguidores a tentar uma nova travessia nos próximos dias.

Cerca de 100 pessoas morreram quando 72 mil migrantes nadaram ou escalaram a cerca que separa o Marrocos de Ceuta, cidade espanhola localizada no litoral norte da África, nos dias 30 e 31 de julho.

A BBC News Árabe encontrou dezenas de publicações no Facebook convocando as pessoas para uma segunda tentativa de travessia em meados de agosto, incluindo anúncios de equipamentos para natação à venda. Seis desses grupos tinham mais de 100 mil seguidores.

A BBC enviou uma lista dos grupos à Meta, empresa controladora da plataforma, e, duas horas depois, os grupos foram removidos.

Também encontramos no Instagram, que pertence à Meta, perfis com dezenas de milhares de seguidores incentivando as pessoas a fazer a travessia naquela data. Depois que alertamos a plataforma sobre esses perfis, a maioria deles também foi removida.

A Meta disse à BBC: "Temos uma equipe monitorando a situação em Ceuta em tempo real e removendo conteúdos que violam nossas políticas — incluindo aqueles que oferecem, facilitam ou procuram serviços de tráfico de migrantes."

Capturas de tela de três publicações no Facebook, com nomes de usuários e outros detalhes de identificação borrados pela BBC News. A primeira imagem mostra nadadeiras azuis; a segunda, várias fotos de uma roupa de mergulho preta; e a terceira, uma roupa de mergulho preta estendida sobre uma cama de solteiro.
Legenda da foto, Publicações no Facebook anunciaram a venda de equipamentos de natação para migrantes que planejavam fazer a travessia

Tanto o Facebook quanto as autoridades marroquinas precisam fazer mais para "combater campanhas online que incentivam jovens a tentar travessias perigosas e colocar suas vidas em risco", afirma Mohamed Ben Aissa, presidente do Observatório Norte de Direitos Humanos — organização de defesa dos direitos dos migrantes com sede no lado marroquino da fronteira.

"Remover alguns grupos da plataforma não é suficiente, porque existem muitos outros. O Facebook deveria ter uma moderação mais rigorosa para identificar esse tipo de atividade", diz.

Ele acredita que uma nova travessia seria difícil porque as autoridades espanholas e marroquinas estão cientes dos planos e já se prepararam. Mas alerta que qualquer tentativa pode provocar confrontos fatais entre migrantes e forças de fronteira, como já ocorreu no passado.

A BBC procurou as autoridades marroquinas para comentar o caso, mas não recebeu resposta.

O Ministério do Interior da Espanha disse à BBC que está "monitorando essa questão nas redes sociais", em coordenação com as autoridades marroquinas, e que "todos os recursos necessários serão mobilizados para lidar com qualquer situação que possa surgir nos próximos dias".

Dezenas de pessoas estão no mar enquanto outras sobem uma pequena encosta para chegar à terra firme. Pessoas com uniformes de segurança observam a cena às margens. Uma pessoa estende a mão enquanto migrantes caminham em direção aos que sobem a encosta. Ao fundo, há um pequeno barco no mar.

Crédito, Atlas via Reuters

Legenda da foto, Migrantes atravessam a nado do Marrocos para Ceuta

A BBC analisou dez grupos no Facebook. O maior deles tinha 191 mil membros, e o menor, 3 mil. A maioria havia sido criada muito antes da travessia de julho e compartilhava há meses — ou até anos — dicas sobre como cruzar ilegalmente a fronteira.

Nas semanas que antecederam a travessia, os grupos divulgaram informações falsas de que a fronteira estaria aberta.

Em uma publicação compartilhada repetidamente nesses grupos antes dos eventos de julho, uma usuária que dizia ter 17 anos e não saber nadar pediu orientações sobre como atravessar a fronteira.

Mesmo após a travessia de julho, usuários continuaram respondendo à publicação, com um deles incentivando que "todos fossem" no mesmo dia de agosto. "Todos nós atravessaremos, se Deus quiser."

Os grupos continuaram a disseminar informações falsas sobre o sistema de imigração da Espanha.

Uma das publicações afirmava, incorretamente, que 5 mil pessoas que atravessaram em julho haviam recebido o direito de permanecer no país. O governo de Ceuta informou que entre 3 mil e 5 mil pessoas que fizeram a travessia em julho ainda estão no território, mas a Espanha não declarou que elas têm direito de permanecer.

Outros grupos anunciavam equipamentos para pessoas que planejavam fazer a travessia pelo mar. Uma publicação de 5 de agosto, por exemplo, oferecia uma scooter aquática — um dispositivo com hélice portátil que impulsiona a pessoa pela água. Algumas publicações direcionavam usuários para pequenos grupos privados no WhatsApp, onde as discussões continuavam.

Uma minoria dos usuários nos grupos do Facebook alertava contra a travessia e aconselhava outras pessoas a desconfiar de rumores sobre a fronteira. Outros compartilhavam publicações sobre pessoas que morreram em julho.

A BBC também analisou 12 perfis no Instagram que compartilhavam vídeos incentivando a travessia, a maioria com dezenas de milhares de seguidores. Assim como no Facebook, grande parte dessas contas existia antes da travessia de julho e continuou publicando conteúdos em agosto.

Foram encontradas dezenas de publicações no Instagram com imagens da fronteira de Ceuta, a data marcada para agosto e a bandeira espanhola. Uma delas teve mais de 2.200 curtidas.

Procurada pela BBC, a Meta afirmou que trabalha com verificadores de fatos independentes para identificar conteúdos que considera falsos e reduzir sua distribuição, fazendo com que menos pessoas os vejam.

Reportagem adicional de El Mahdi El Idrissi